Era 15 de outubro, e o Watford havia vencido o Arsenal, por 2 a 1. Chegava à oitava rodada com 16 pontos. Foi o melhor começo de Campeonato Inglês do clube em 35 anos. Todos os méritos eram dados ao treinador Marco Silva, que já havia esboçado um milagre com o Hull City na temporada anterior. Mas o negócio degringolou rapidamente. Uma semana depois, o Everton demitiu Ronald Koeman e agressivamente buscou um negócio com Silva. O Watford ficou possesso, a ponto de enviar uma reclamação formal à liga inglesa. Os Toffees não conseguiram o homem que queriam e foram com Sam Allardyce. O português ficou em Vicarage Road, mas sua cabeça estava em Goodison Park. Depois de uma série ruim de resultados, foi demitido, em janeiro. Agora, é o novo técnico do Everton.

Não dá para criticar o Everton por falta de convicção. Estavam tão certos que Marco Silva era o treinador ideal para guiá-los que, oito meses depois de se frustrarem, voltaram à tona e conseguiram consumar o casamento. Allardyce corrigiu o curso do barco, após o começo desastroso de temporada de Koeman, mas foi criticado por um estilo de futebol defensivo e chato. O Everton não quer apenas vencer: quer vencer com estilo. E Silva, jovem, fã de um futebol agressivo, com pressão constante, sempre em busca da vitória, parece mesmo o homem ideal para isso.

“Queremos construir uma grande conexão entre a equipe e os torcedores. O Everton é um clube realmente ambicioso e é isso que eu quero. O que estamos vendo agora são boas mudanças para o clube. Todos conhecem a história do Everton. Quando você é um clube como o Everton, tem apenas uma solução: querer vencer. No futebol, é impossível vencer todos os jogos, mas precisamos fazer tudo para mostrar, em cada partida, que temos ambição. Estou animado e muito feliz por este desafio”, afirmou Silva que, porém, precisa aprender a controlar os seus impulsos.

O trabalho no Estoril foi excelente. Conquistou o acesso à elite portuguesa e classificou o clube para a Liga Europa. Saiu para treinar o Sporting, uma progressão natural dentro do futebol do país. Foi terceiro colocado, mas com uma alta pontuação, que lhe daria o título em várias temporadas, e conquistou a Taça de Portugal. Quatro dias depois de levantar o troféu, porém, foi demitido por justa causa. Aqui podemos colocar a culpa no lunático presidente dos Leões, Bruno de Carvalho. Segundo a imprensa portuguesa, Silva foi demitido por faltar a uma reunião com o mandatário, não ter usado o terno oficial do clube em um jogo da Taça de Portugal e ter escalado Marcos Rojo. Em entrevista recente, Carvalho também deixou claro que houve um choque de egos. “Esse Marco Silva que disse aos jornalistas que eu nunca o ia despedir do Sporting, mas que seria ele a fazer com que os sportinguistas me despedissem”, disse.

Após um ano em Alvalde, Marco Silva foi para o Olympiacos. Outro sucesso esportivo. Seu time ganhou as 17 primeiras rodadas do Campeonato Grego e foi campeão com uma mão nas costas: 28 triunfos, um empate e uma derrota em 30 partidas. Na Champions League, ganhou do Arsenal, no Emirates. Durante a campanha, Silva foi associado ao cargo de treinador do Porto, mas o Olympiacos não permitiu sua saída. Ao fim da temporada, Silva pediu demissão alegando “problemas pessoais”.

Em janeiro de 2017, chegou ao Hull City, que tinha conseguido apenas uma vitória nas últimas 18 rodadas e parecia fadado ao rebaixamento. O clube havia começado a temporada sem técnico e com apenas 13 jogadores no elenco. Silva deu uma revitalizada na equipe, com uma boa campanha dentro de casa, e conseguiu manter o time vivo até a penúltima rodada. Mas foi rebaixado mesmo assim e se mandou para o Watford, completando o nosso flashback que apresenta os problemas de relacionamento de Silva com suas diretorias e sua tendência a ser vítima da própria ambição.

Muito da queda de rendimento do Watford – apenas três vitórias em 15 rodadas depois da demissão de Koeman – foi creditado ao descontentamento de Silva por não ter recebido permissão para negociar com o Everton, mesmo com o presidente azul, Farhad Moshiri, disposto a pagar £ 12 milhões em compensação. Os Toffees têm um sólido histórico de paciência com treinadores. Foram apenas três desde 2002: Moyes ficou 11 anos; Roberto Martínez, três; e Ronald Koeman, apenas um, o único caso recente em que a equipe de Liverpool encerrou um trabalho precocemente. Este é um raro caso em que o problema está no outro lado. Depois de três temporadas pelo Estoril, o português nunca passou mais de um ano no mesmo clube.

Silva terá que se adequar a trabalhar com um diretor de futebol. O Everton acabou de contratar o holandês Marcel Brands, que supervisionou os três títulos holandeses do PSV nas últimas quatro temporadas, e também trabalhou na conquista de Louis van Gaal com o AZ Alkmaar, em 2009. Em Eindhoven, contratou nomes como Kevin Strootman, Wijnaldum, Dries Mertens e Hirving Lozano. Sua missão será, junto com Silva, afinar a política de mercado do Everton, que gastou muito dinheiro na última temporada e se viu com um elenco desequilibrado – meia dúzia de meias, e nenhum centroavante, por exemplo.

O português, porém, também tem um histórico complicado quando não está no controle dos reforços. No Watford, com modelo parecido, deu declarações públicas criticando os jogadores que haviam sido comprados. Considerado um dos mais promissores jovens treinadores, mestre das táticas e bom de relacionamento com os jogadores, Silva tem os atributos necessários. É o homem que o Everton tanto quis. Mas para ser o homem que o Everton precisa, terá que ter paciência e calibrar sua personalidade.