Catarinense de Tubarão, Marquinhos Pedroso foi formado nas categorias de base do Figueirense, em 2012. Sem muitas chances pelo clube catarinense, foi por empréstimo para Guarani e Novo Hamburgo. Viveria o seu melhor momento pelo Figueirense em 2014, ajudando na conquista do Campeonato Catarinense. Chegou a ser contratado pelo Grêmio, também por empréstimo, mas não chegou a jogar. Voltou ao Figueirense e ficou por lá até o fim de 2016. Hoje em dia no Ferencvarosi, o jogador, de 24 anos, eleito duas vezes o melhor lateral esquerdo do Campeonato Catarinense, contou um pouco como tem sido a sua vida em Budaspeste e como é o futebol húngaro.

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O ano de 2017 tem sido de experiência europeia para Marquinhos Pedroso. Em janeiro, foi emprestado ao turco Gaziantpspor. Em julho, acertou sua transferência, também por empréstimo, para o Ferencvárosi, da Hungria. E no clube húngaro, terra do famoso futebol danubiano, é onde Marquinhos tem vivido a sua melhor fase na carreira. É titular e um dos destaques do time.

Na parada de inverno, o Ferencvárosi é o líder do Campeonato Húngaro depois de 19 jogos disputados, com 41 pontos. O segundo colocado é Fehérvár, com 38. Na Hungria, só o campeão vai para a próxima Champions League. Com contrato até junho de 2018, com opção de compra em definitivo. Ele sonha em disputar o torneio, que é o mais badalado do mundo.

Trivela: O que te fez escolher a Hungria?

Marquinhos Pedroso: Acredito que o fato de ter uma grande chance de jogar uma Champions League. A gente sabe que não é um mercado muito comum, que o jogador brasileiro busca, mas como eu disse, eu analisei tudo. Às vezes é até melhor, porque aqui eu estou em um time que disputa a Champions League do que ir para times de ligas mais fortes que vão brigar para não cair e passar aquele sufoco. Jogador odeia passar isso, jogador quer estar sempre brigando por título e não brigando para não cair e tudo mais. O que me fez escolher também foi a estrutura do clube, eu pesquisei muito. Cheguei a perguntar para um brasileiro que joga aqui, então as recomendações foram as melhores possíveis. E a oportunidade de disputar uma Champions League no próximo ano.

Como é viver em Budapeste?

A vida aqui em Budapeste é excepcional, um país de primeiro mundo. Uma capital mundial, se não me engano é a quarta cidade da Europa que mais recebe turistas, uma das que mais recebe no mundo todo. A cidade é linda. Os países próximos que eu tenho oportunidade de visitar, a Áustria fica a uma hora e meia, Eslováquia, Romênia, para vários países, Suíça. Então, a experiência de vida aqui está sendo excepcional.

O Ferencvárosi é clube tradicional, de uma escola de futebol de passe e jogo bonito no início do século XX. Como o clube lida com a história? Alguém conta para vocês o histórico do time?

É um clube muito tradicional daqui, não é à toa que tem mais que o dobro de torcedores que o segundo time que mais tem torcida aqui. É o clube mais tradicional da Hungria. Isto também foi uma das coisas que também me fez escolher vir para cá. A respeito da forma de jogo do clube em si, isso não acontece muito. Assim como no Brasil também, a não ser o Santos que sempre se fala dos Meninos da Vila, mas é difícil comparar com um time de uma época que jogava de uma forma e você querer falar no Campeonato Brasileiro que o time não joga do mesmo jeito do time de outra época e tudo mais. A gente tenta implantar o nosso ritmo de jogo que o nosso treinador tem em mente.

Quais são as exigências para alguém da sua posição, lateral esquerdo, no futebol húngaro? Você joga de forma parecida com o que fazia no Brasil ou tem mais funções defensivas?

Muitos sabem que a linha de quatro na Europa é muito priorizada e a disciplina tática também. Então, é claro que eles sabem que jogador brasileiro gosta de atacar mais, eles dão essa liberdade, muito também porque é um clube grande aqui, então a gente tem essa liberdade de estar sempre atuando na frente. Mas é aquela história, aqui na Europa, a primeira função, de longe, sem dúvida nenhuma é marcar. Primeiro a disciplina tática, formar a linha de quatro, que eles dão muito valor para isso. E depois, o que conseguir fazer lá na frente é lucro.

Apesar de, como eu disse, eles gostarem bastante a disciplina tática e gostarem bastante da formação da linha de quatro, como é um clube grande e é um clube que tem jogadores de extrema qualidade, a gente tem total liberdade. O nosso técnico preza muito pelo futebol bonito, é um técnico alemão, conhece o que é a qualidade do futebol. Já treinou o Borussia Dortmund, jogou na seleção da Alemanha, camisa 10, um meia, então é claro que ele gosta que nós joguemos. Então, eu procuro jogar da mesma forma que eu jogava no Brasil que é o que até hoje vem dando certo, então não vou mudar a minha forma de jogar. Claro que muitas vezes tem que acabar pensando em alguma outra função, estar mais ligado na parte defensiva. Mas na hora que tem a bola no pé, a gente tem a liberdade e tenta fazer sempre o melhor.

É mais difícil ser lateral no Brasil ou na Hungria?

Acho que é muito mais difícil ser lateral no Brasil. Até porque lateral, hoje em dia, é uma das posições mais precárias, ao meu ver. Tanto que você tem sempre condições de estar atuando, principalmente lateral esquerdo. Geralmente tem muito mais lateral direito do que lateral esquerdo. Então, eu acredito que seja muito mais difícil jogar de lateral no Brasil, uma porque a torcida e imprensa é muito, muito mais crítica que aqui. E outra porque o brasileiro gosta de futebol bonito, de gols, gosta de atacar.

Então, não basta você fazer um bom papel ali atrás, não tomar nenhuma bola nas costas, estar sempre ganhando os confrontos com o ponta. Eles querem que você vá para cima, que faça 10 cruzamentos, nove na cabeça do centroavante, que você faça gol. É claro, isso tem que acontecer, mas no Brasil, se você não faz isso, você é muito criticado.

Aqui já não. Se você desempenhar uma boa função na parte defensiva, eles já te encaram como um excelente jogador. E se você faz alguma coisa lá na frente, que é o que nós brasileiros costumamos fazer, eles já acham que é craque, eles ficam impressionados. Eles falam `Nossa, isso que é lateral brasileiro’, ‘isso é a técnica brasileira, a qualidade brasileira’. Então, sem dúvidas é muito mais fácil ser lateral aqui do que no Brasil.

O que você sentiu de diferente no futebol húngaro? Qual é o nível, comparado com o brasileiro?

A diferença da Hungria e da Europa em si é que desses países do Leste Europa, assim como na Inglaterra e na Alemanha, eles prezam muito pela disciplina tática e também pela força física dos atletas. Jogadores todos com mais de 1,80, muito fortes fisicamente. A disciplina tática e o posicionamento também é exigido demais. Então, isso acho que se difere um pouco do futebol brasileiro, que é mais toque de bola, pega a bola e vai para cima, e faz mais ou menos o que você quiser, claro, cumprindo as funções que o técnico quer.

Falando no nível do futebol húngaro, do campeonato em si, é abaixo do brasileiro, até porque o brasileiro é um dos melhores do mundo, ao meu ver. É muito disputado, os times são extremamente qualificados. Não é à toa que às vezes tem jogadores em clubes da Europa e passa um ano e já são contratados pelos times brasileiros. Então, poderiam estar jogando nesses times europeus, e que já jogaram também.

E comparado ao futebol turco, qual é o nível da liga da Hungria?

O futebol turco se assemelha um pouco ao brasileiro. Tem muitos brasileiros e muitos jogadores de tudo quanto é escola. Espanha, Portugal, muitos africanos… É um futebol muito bem jogador lá na Turquia. Lá tem jogadores de extrema qualidade. Quaresma, Sneijder, Van Persie… Lá tem excelentes jogadores, especialmente em Besiktas, Fenerbahçe, Galatasaray. Aqui, na Hungria, o nível do campeonato é mais abaixo.

Quais as principais diferenças de treino na Hungria e no Brasil?

Quanto ao treino, se assemelha bastante, aqui nós não fazemos trabalha na academia, bem, bem raramente. O jogador tem a liberdade. Isso acontece porque a maioria dos jogadores têm um programa. Nem diria que é mais profissional, porque é mais uma cultura de sempre passar na academia antes, de fazer trabalhos individuais, então fica mais livre, que ao meu ver é melhor do que esse trabalho que se faz no Brasil. Só que no Brasil tem que ser feito, porque se não faz esse trabalho de academia, muitos jogadores não passam bem perto. Eu particularmente adoro fazer academia.

Acho que é uma das principais diferenças, porque no resto é muito semelhante. Tanto que nem se pode dizer muito da Hungria, porque o próprio técnico é alemão, é como se fosse um treino alemão comparado a um brasileiro. Mas se assemelha bastante.

Você foi considerado um jogador com as melhores estatísticas do campeonato. Seu passe foi destacado como um dos melhores da liga. A que você atribuiu isso?

Quanto ao meu momento no futebol húngaro, eu estou muito feliz, estou me sentindo muito feliz aqui no clube, um clube com estrutura absurda. Bate de frente fácil, fácil com qualquer clube brasileiro. O estádio é maravilhoso, muito moderno, sei que a cidade é excepcional e tudo isso tem me ajudado a desempenhar um bom trabalho. E nosso time é muito bom, ninguém faz nada sozinho, isso ajuda muito o jogador.

Eu fico feliz com as estatísticas, é uma coisa muito importante, porque a gente sabe que os scouting dos jogadores contam muito, muitas vezes você é contratado simplesmente pelo scouting. Então, contra os números, não tem o que dizer. Ali tem as jogadas que deram certo, jogadas de gols, passes certos, então, não tem o que dizer. Isso me deixa muito feliz. E, claro, com muita vontade de dando meu melhor e tentar manter.