A quem vê apenas o placar ou os principais lances do jogo em Avellaneda, é de se imaginar um massacre do Racing contra o Vasco. E não tem como negar que a Academia sobrou contra os cruzmaltinos. Fez quatro gols, perdeu dois pênaltis, mandou bola na trave e exigiu um punhado de grandes defesas de Martín Silva. Ainda assim, esta é daquelas partidas matreiras de se analisar. Não dá para ser tão taxativo, considerando alguns bons momentos que os vascaínos tiveram no Cilindro, antes que a goleada por 4 a 0 desandasse. Contudo, o placar acaba sendo reflexo direto de um desequilíbrio fundamental no duelo: o ataque argentino contra a defesa brasileira. Assim como já haviam demonstrado contra o Cruzeiro, os racinguistas são letais quando chegam para definir. E encontraram um sistema defensivo débil, incapaz de se proteger com segurança, oferecendo várias e várias brechas aos anfitriões. Explica bastante o resultado, que poderia ser mais amplo aos albicelestes.

Desde o início da partida, era o Racing quem tinha a iniciativa. Algo natural, diante do ambiente pulsante em Avellaneda e da formação conservadora dos visitantes, com Zé Ricardo preferindo rechear o time com homens de marcação. A posse de bola permanecia com os albicelestes, que se impunham no campo de ataque e tentavam pressionar o Vasco contra a sua área. No entanto, enquanto o placar ainda se mantinha igualado, os cruzmaltinos demonstravam certa organização. Estavam atentos e, quando havia um desleixo, aparecia Martín Silva para salvar. O goleiro realizou duas grandes defesas nos primeiros dez minutos, antes que os cariocas respondessem do outro lado, em chute perigoso de Wellington.

Aos 11, o Racing teve sua primeira chance clara de abrir o placar. Em uma decisão discutível, o árbitro assinalou pênalti sobre Renzo Saravia. Mas, na cobrança, Martín Silva preferiu esperar e defendeu o chute de Lisandro López no centro do gol. Os racinguistas chegaram a ter 70% de posse, mas não demonstravam grande criatividade, por mais que abafassem os adversários. O Vasco se segurava e, por incrível que pareça, teve um lampejo que quase rendeu a vantagem inicial. Entre os 26 e os 29 minutos, foram três ótimas oportunidades que os cruzmaltinos não aproveitaram. Faltou um pouco mais de calma nas conclusões, entre um chute bem travado, uma furada de Wagner e um tiro que saiu sobre o travessão.

E precisão foi o que sobrou ao ataque do Racing a partir de então. A Academia encontrou o caminho do ouro, forçando as jogadas pelo lado esquerdo da defesa do Vasco. Por lá, conseguiram abrir a goleada nos 15 minutos finais. O primeiro saiu aos 32, em lance no qual Federico Zaracho fez grande trabalho, até que a bola viesse para Ricardo Centurión acertar um chutaço. Aos 38, mais um lance em velocidade, após saída errada de Erazo. Lautaro Martínez iniciou a investida, passou para Zaracho limpar a marcação e, depois do cruzamento de Centurión, o camisa 10 estava na área para arrematar. Já nos acréscimos, mais um pênalti para os anfitriões. Mais uma defesa de Martín Silva, que desta vez pulou à esquerda e defendeu novo chute de Lisandro López.

Até parecia que a intervenção do arqueiro daria ânimo ao Vasco para o segundo tempo. E o time voltou melhor do intervalo, com a marcação mais reforçada, tentando sair para o jogo. Pois logo em sua primeira chegada com velocidade, o Racing anotou o terceiro. Wellington errou justamente na frente de Zaracho, jogando um bolão. O garoto arrancou, deu um drible da vaca em Paulão e ainda passou Martín antes de completar o golaço. Os cruzmaltinos, apesar de tudo, não desistiriam. Mas sua tentativa de propor mais o jogo caiu por terra aos 13 minutos, com o lado esquerdo da defesa voltando a falhar. Outro pênalti em Saravia. O banco racinguista pediu para Lautaro Martínez cobrar, mas Lisandro López pegou a bola e a torcida foi ao delírio. Enfim, o veterano se redimiu, cobrando forte, sem que Martín alcançasse.

A partir de então, o jogo estava praticamente morto. O Racing diminuiu o ritmo, administrando mais a vantagem que tinha. O Vasco, por mais que vez ou outra chegasse ao ataque, estava sem forças. E mesmo depois das saídas de Lautaro e Centurión, os albicelestes ficaram mais próximos de anotar o quinto. Aos 34 minutos, após cruzamento, Zaracho apareceu na área para cabecear contra a trave. Uma pena, pois seria o gol que terminaria de coroar a partidaça do meia. Aos 20 anos e com experiência nas seleções de base, demonstra que há outras pérolas prontas para eclodir no Cilindro. Um nome para se observar nos próximos tempos.

O Vasco sabia que talvez tivesse o elenco mais deficiente dos candidatos em seu grupo na Libertadores, mas ainda acreditava na organização e na intensidade do time de Zé Ricardo. Depois da derrota em casa para a Universidad de Chile, a goleada em Avellaneda é um duro golpe às esperanças. Parecia que tudo conspirava contra as ambições dos cruzmaltinos – principalmente, a sua própria defesa. Neste momento, cavar uma vaga na Copa Sul-Americana soa como lucro. E cabe ressaltar, mais uma vez, como Martín Silva acaba se tornando uma peça fundamental ao clube. Muitas das crenças da torcida só são possíveis pelo goleiraço, sem dúvidas um dos melhores em atividade no país.

O Racing, por sua vez, começa a exibir certo favoritismo na Libertadores. Ainda não é o time de atuações uniformes, mas impressiona a maneira como os albicelestes são cruéis com os erros dos adversários. Além disso, possuem uma capacidade ofensiva imensa, com jogadores rápidos e incisivos. Que Lautaro Martínez saia após a Copa do Mundo, ainda será possível contar com boas opções no setor. Somando sete pontos, os argentinos se aproximam um pouco mais da classificação. Na outra ponta do Grupo 5, o Vasco é o lanterna, com apenas um ponto.