Juan Mata já demonstrou algumas vezes ser um jogador de futebol que pensa muito além do senso comum. Afinal, quantas vezes você viu um futebolista deste calibre questionar a bolha em que vivem os grandes astros da modalidade? Pois bem, o espanhol decidiu não ficar apenas no discurso. Durante a pré-temporada, ele viajou à Índia para trabalhar em projetos sociais. Viu de perto a miséria na qual estão inseridas milhares de crianças. Mas também sentiu a energia transformadora vinda delas. Sentiu a receptividade de meninos e meninas que sabiam o quanto o visitante – mesmo sem conhecê-lo completamente – poderia ajudá-los. “Essas crianças estavam me dando vida”. E, assim, o meia ganhou o impulso para lançar um projeto louvável nesta sexta.

Mata deu o pontapé inicial ao ‘Common Goal’. O jogador do Manchester United doará a partir de agora 1% de seu salário a obras sociais destinadas a crianças e ligadas ao futebol. Mas o que importa aqui não é necessariamente a quantia, e sim o exemplo. O espanhol espera que a sua ideia se alastre pelo mundo do futebol. Que não só os jogadores entrem nesta corrente, mas também dirigentes, treinadores, clubes e federações. Que todas as transações realizadas no futebol possuam essa porcentagem voluntária – inicialmente os salários e, depois, as transferências, os patrocínios, as bilheterias e outros rendimentos. A proposta é ambiciosa. Ao mesmo tempo, de uma nobreza imensurável. E a mensagem se torna ainda mais forte em um período no qual as cifras estão tão em voga.

O Common Goal vai funcionar como um fundo coletivo gerido pela streetfootballworld, um grupo composto por 80 projetos sociais em 80 países diferentes. Mata foi o pioneiro e está convocando outros jogadores para um ’11 inicial’, na tentativa de espalhar a ideia. “Coletivamente, o futebol assume uma responsabilidade social. Nós estabelecemos uma nova agenda, entende-se que uma parte do que o futebol gera vai para projetos sociais. É difícil se você fizer sozinho, mas se você unir as pessoas… Pode ser um mecanismo para o bem, um ato de consciência social dentro do sistema. Queremos tornar isso normal, um padrão”, afirmou Mata, em entrevista ao Guardian.  “O futebol gera muito dinheiro, mas é preciso haver uma responsabilidade social com isso. Ele pode afetar positivamente a vida das pessoas. Pode ajudar as pessoas e o próprio futebol”.

Além disso, Mata também publicou um texto no Players’ Tribune, para lançar suas ideias e deixar claro qual o objetivo do projeto. Ressalta ainda mais o seu caráter e a sua vontade de transformar. Merece os aplausos e, mais do que isso, também o engajamento. Abaixo, traduzimos a carta, disponível na versão original por este link.

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Hoje, estou lançando algo que, eu espero, irá ajudar a mudar o mundo, mesmo que apenas de uma maneira pequena. E eu espero que outros jogadores ao redor do mundo me ajudarão nesse objetivo. Mas, antes que eu fale sobre isso, quero dizer a vocês o que o futebol significa para mim.

Para fazer isso, precisamos começar por algo que eu nunca me esquecerei.

Eu ainda posso ver o cruzamento vindo. Eu posso ver a bola desviando na cabeça de Thomas Müller, passando por Petr Cech e então acertando a trave antes de entrar. E eu me lembro do som. Eu não podia nem mesmo me ouvir pensando… era eletricidade pura.

O Bayern marcou em Munique, aos 38 minutos do segundo tempo da final da Liga dos Campeões de 2012, abrindo o placar contra o Chelsea – meu time. Eu não sei se eu já havia escutado um barulho como aquele antes.

Poucos segundos depois, eu estava no círculo central da Allianz Arena, esperando os jogadores do Bayern pararem de comemorar o gol que eles pensavam decidir a partida. Didier Drogba, meu companheiro de Chelsea, andou ao meu lado para recomeçar o jogo. Didier nunca abaixava a cabeça – nunca parecia desencorajado – mas agora ele estava. E eu não podia entender o porquê. Nós havíamos superado muita coisa para chegar à final. Nosso técnico foi demitido poucos meses antes, então precisamos virar o jogo para bater o Napoli nas oitavas, depois sobrevivemos com 10 homens em campo no Camp Nou durante as semifinais. E agora… o que? Tinha acabado?

Eu coloquei minha mão sobre o ombro de Didier e disse: “Olhe ao redor, Didier. Olhe onde estamos. Por favor, não se preocupe. Continue acreditando… Apenas acredite”.

Por alguma razão, eu apenas continuei pensando. Nós estamos destinados a ganhar esta coisa.

Eu sou uma pessoa bastante quieta, e eu acho que, quando Didier me viu o encorajando, não pôde deixar de sorrir.

Ele disse: “OK, Juan, vamos em frente”.

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Estávamos cercados por 50 mil torcedores alemães gritando, mas, dentro do campo, Didier e eu sabíamos que nós apenas precisávamos de uma chance. E ela veio cinco minutos depois. Ganhamos um escanteio. Eu ajeitei a bola e Didier veio correndo ao primeiro pau. Você se lembra, certo?

Eu acho que todo torcedor do Chelsea se lembra da narração de Martin Tyler.

“Drogbaaaaaaaa! Eles tiraram o coelho da cartola de novo! O Chelsea não vai abrir mão da Liga dos Campeões!”.

Depois que marcamos aquele gol de empate… Eu apenas sabia. Mesmo quando fomos aos pênaltis, eu seguia sabendo. E quando Didier caminhou para fazer a última cobrança, eu estava certo que ele iria marcar. Acho que a expressão em sua face depois que a bola entrou diz tudo. Ele não sabia se queria chorar ou rir. Ele estava maravilhado, como todos nós estávamos.

E logo a loucura sumiria – eu imediatamente pensei na minha família. Cada um deles estava na torcida durante aquela noite: meu pai, minha mãe, meus avós, meus amigos. Eu sabia que os pênaltis deviam ter sido estressantes para eles, principalmente para a minha pobre avó.

Mais tarde, alguém me disse que ela ficou tão nervosa que precisou se esconder no banheiro até o final da partida.

Enquanto estávamos comemorando, eu olhei para os meus colegas ao redor e vi a beleza do futebol. Um goleiro da República Tcheca. Um defensor da Sérvia e outro do Brasil. Meio-campistas de Gana, Nigéria, Portugal, Espanha e Inglaterra. E, claro, um atacante incrível da Costa do Marfim.

Nós viemos de todo o mundo, de diferentes circunstâncias e falamos diferentes línguas. Alguns cresceram durante a guerra. Alguns cresceram na pobreza. Mas lá estávamos, todos juntos na Alemanha como campeões da Europa.

A maneira como viemos de diferentes partes do mundo para trabalhar em um objetivo comum, para mim, tem mais significado que o troféu. Para mim, isso é algo que pode mudar o mundo para melhor.

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Eu tenho muita sorte. Nasci em uma família que me apoiou incrivelmente, no norte da Espanha. Meu pai era jogador de futebol – um ponta habilidoso. Ele era canhoto, como eu, mas (eu admito) mais rápido. Ele amava driblar os adversários. Eu me lembro de assistir aos vídeos das partidas antigas na nossa casa em Oviedo. Assisti-lo jogar fazia o futebol parecer divertido. Era como eu queria que o futebol fosse para mim, também.

Assim as coisas eram para mim quando criança – é como eu cresci. Mesmo que meu pai fosse jogador, eu nunca fui forçado a jogar futebol. Meus pais, Juan e Marta, queriam que eu e minha irmã Paula experimentassem tudo que a vida tinha a oferecer.

O primeiro autógrafo que eu dei não era por ser bom no futebol. Era porque eu era realmente bom em trivias – como questões acadêmicas gerais, mas mais difíceis. Quando eu tinha 13 anos, fui escolhido por um time para participar de uma competição regional, na qual precisávamos responder entre 200 e 300 perguntas. Nós ganhamos, e no dia seguinte os garotos mais novos do colégio queriam meu autógrafo.

Semanas depois, meu time foi a uma viagem a Áustria, Alemanha, Liechtenstein e Suíça. Essa viagem foi a primeira vez que eu realmente vi como as pessoas vivem em outros países. Em uma idade tão jovem, isso me deu uma perspectiva diferente do mundo. Eu não sabia tudo. Mas eu sabia que eu queria ver mais.

Quando eu tinha 15 anos, o futebol me deu essa chance.

Juan Mata, da seleção espanhola

Eu apenas terminei uma partida com meu time local, Astúrias, e meu pai estava me levando para casa, como costumava fazer. Mas, desta vez, foi diferente. Nós chegamos a um estacionamento onde apenas outro carro estava parado. Havia um homem esperando por nós… e eu o reconheci. Era um dos olheiros do Real Madrid. Eu o vi em algumas de nossas partidas.

Meu pai falou com ele durante alguns minutos e, então, voltou para o carro e disse que o Real queria me contratar. Eu estava tão confuso… Eu realmente não sabia o que pensar. Madri? Real Madrid? Me quer?

Eu passei os dias seguintes conversando com minha família. Era difícil para minhã mãe e meu pai me mandarem a uma cidade grande como Madri, mas nossa família tem esse lema: “Algumas vezes, o trem não passa duas vezes na vida”.

Nesse dia, isso aconteceu para mim. E eu sabia que talvez nunca mais voltasse.

Eu também falei com meu avô, que era meu maior fã. Ele me levava aos treinos e aos jogos quando meus pais estavam muito ocupados. Ele também assistiu a cada uma das minhas partidas. Ele me disse para seguir o coração e esse meu sonho de ser jogador profissional exigia riscos.

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Quando as pessoas falam sobre futebol, é normalmente sobre dinheiro ou troféus. Mas o futebol também oferece algo aos jovens. Providencia uma experiência sobre a vida real. E, às vezes, a vida real é difícil.

Na base do Real Madrid, eu aprendi como viver sozinho e como ficar longe dos meus pais durante semanas. Quando você está sozinho, descobre coisas sobre si mesmo. Eu pensava muito sobre todo o trabalho duro que meus pais e meus avós tiveram para me levar onde eu estava. E eu percebi que eu tinha uma responsabilidade de trabalhar duro e aproveitar ao máximo a minha chance. Mas em um clube como o Real Madrid – onde na época jogavam Zidane, Figo, Beckham, Roberto Carlos e muitos outros – pode ser difícil fazer isso.

Então, no verão de 2007, eu assinei com o Valencia. Eu gostaria de dizer que minha passagem foi perfeita, mas não foi. Eu acho que nós mudamos de técnico três vezes em minha primeira temporada. Eu tinha 19 anos, cercado por jogadores na casa de seus 30 anos. Minha família estava preocupada comigo. Principalmente meu avô. Ele veio assistir a muitas partidas em Valência. E quando não estava presente, via pela TV. Ele nunca perdeu um jogo da minha carreira profissional. Eu me lembro de ligar para ele certa noite quando eu estava sofrendo e nunca me esquecerei do que ele me disse.

“Seu futebol e a sua carreira, Juan, eles me dão vida. Eu me sinto tão orgulhoso e me encho de esperanças quando te vejo”.

Valencia v Barcelona - Copa del Rey Semi Final Second Leg

Essa ligação teve um impacto tremendo sobre mim – e na maneira como eu pensava o futebol. O que estava fazendo na minha carreira não era apenas sobre mim. Era sobre nós. Eu estava jogando porque trazia alegria às pessoas de diferentes maneiras além de marcar gols. Meu avô era a encarnação desse sentimento e, depois que eu percebi isso, eu quis manter esse pensamento comigo por todo o tempo.

Eu acho que meus quatro anos no Valencia foram minha “graduação”, porque foi onde eu aprendi a arte do futebol e ganhei uma perspectiva valiosa sobre a vida.

Minha passagem pela Inglaterra foi como o mundo real que vem depois da universidade. Foi repleta de grandes momentos altos – dois prêmios de melhor jogador do ano no Chelsea e um título da Champions. Mas também com alguns momentos de baixa. Meu terceiro ano em Londres foi difícil. Eu deixei o elenco e comecei a questionar minha própria habilidade. Mas eu nunca senti amargura por ninguém. Não era a maneira como eu cresci.

Eu me importo profundamente com os relacionamentos. No futebol, isso pode ser complicado. Quando eu deixei o Chelsea para ir ao Manchester United, eu ainda me importava com o clube. Eu queria ter certeza que eles ganhariam um valor apropriado e que eu manteria minha conexão com as pessoas em Londres. E espero que eu tenha feito isso.

Mas agora eu sou um Red Devil. E não seria de outra maneira. Há grandes clubes no mundo, e então há o Manchester United. Eu aprendi muito rapidamente o que isso significa Em minha segunda temporada com o United, eu marquei um gol de bicicleta contra o Liverpool em Anfield e hoje, não importa onde nosso time está jogando no mundo, é quase sempre a primeira coisa que as pessoas me perguntam. Eu saí de uma cidade pequena na Espanha, onde algumas centenas de pessoas me viam marcar gols, mas agora eu faço gols que as pessoas podem ver onde vivem, em Oviedo, ou Los Angeles, ou Pequim, ou Melbourne. A família United é mundial e quase todos os dias eu sou lembrado que a força do futebol une pessoas ao redor do planeta.

Meu amor pelos torcedores do United cresce a cada ano em que estou em Manchester. Sou feliz de oferecer a eles momentos como aquele contra o Liverpool. Mas, em fevereiro, eu precisei que as pessoas de Manchester me ajudassem.

Britain Soccer Premier League

Meu avô – que ainda não tinha perdido um jogo meu como profissional – estava realmente doente. Eu me lembro de conversar com ele quando estava no ônibus, depois de vencermos o Saint-Étienne na França pela Liga Europa. Sua voz estava fraca… Eu poderia dizer que ele estava lutando. Suas palavras saíam vagarosamente, mas ele me disse que a minha assistência para o Mkhitaryan durante a partida tinha sido linda.

Essa provavelmente foi a assistência mais especial da minha vida. Porque foi a última que meu avô viu. Dias depois, ele faleceu.

Você sabe quando algo importante acontece na sua vida e você se lembra exatamente de onde estava? Eu me lembro de tudo dessa partida e da volta para casa no ônibus. E eu espero que, quando eu puder ver meu avô de novo, eu possa falar disso com ele.

Eu voei para a Espanha e fui ao seu funeral. Quando voltei a Manchester e peguei meu celular, vi todas as mensagens dos torcedores do United nas redes sociais – e isso significou o mundo para mim. Eu queria abraçar todos que se importaram comigo.

Ganhamos o jogo seguinte, contra o Southampton. Mas depois disso, eu me senti um pouco… vazio. Eu não tinha meu avô para compartilhar a vitória. Uma das coisas no futebol, e na vida, que me deixa mais orgulhoso é poder compartilhar os grandes momentos com minha família. Mas, nesse momento, quando eu desesperadamente queria falar com meu avô, não pude. Então, comecei a refletir.

Pensei sobre tudo o que o futebol me deu. E pensei sobre o que eu queria como meu legado. Eu sabia o quanto tive sorte pelas oportunidades que ganhei – e que nem todo mundo é como eu. E mesmo que eu fosse engajado em caridades antes, eu sabia que queria fazer mais. Quero ter a certeza que outras crianças tenham as chances que eu tive.

Então, começando por hoje, eu prometo doar 1% do meu salário ao Common Goal, um fundo coletivo – administrado pela premiada ONG streetfootballworld – que apoia projetos sociais ligados ao futebol ao redor do mundo.

Manchester United's new signing Spanish midfielder Juan Mata poses for photographers at the club training ground in Manchester, north west England, on January 27, 2014. Manchester United manager David Moyes said on January 26 that the club-record acquisition of Spanish midfielder Juan Mata from Chelsea would be the first of many new signings this year. United completed a move for Mata on Saturday for a fee of 37.1 million GBP ($61.2 million, 44.8 million euros), eclipsing the 30.75 million GBP that they paid Tottenham Hotspur to sign Dimitar Berbatov in 2008. AFP PHOTO / PAUL ELLIS

Estou pedindo aos meus colegas que me acompanhem em formar um 11 inicial da Common Goal. Juntos, temos a chance de criar um movimento baseado no compartilhamento de valores que pode se tornar integral em toda a indústria do futebol – para sempre.

Estou liderando este esforço, mas não quero ficar sozinho.

Uma das primeiras lições que eu aprendi no futebol é que você precisa de uma equipe para cumprir seus sonhos. Nós vivemos este mantra em campo, ainda que não o vemos o suficiente no espaço social. O Common Goal está criando uma maneira colaborativa ao futebol para devolver à sociedade. É a mais efetiva e sustentável via que o futebol pode oferecer impacto social de longo prazo em uma escala global. O futebol tem o poder de fazer isso, mas precisamos agir juntos.

O foco agora é sobre as contribuições dos jogadores, mas o objetivo de longo prazo é arrecadar 1% de toda a renda da indústria do futebol para programas de caridade ligados à base do futebol, que fortalecem comunidades através do esporte.

No último mês, eu viajei a Mumbai para ver uma dessas obras. Quando cheguei a uma favela próxima da cidade, no começo era muito difícil entender o nível de pobreza. Nenhuma criança pode viver assim. Ao ver essas condições, eu fiquei abatido.

Mas então nós começamos a interagir com as crianças locais. O inglês delas não era bom e não sei se todos sabiam que eu era um jogador de futebol, mas nos comunicamos através das risadas e do jogo. Se eu sorria, eles sorriam. Se eu corria, eles corriam.

Eles sabiam que nós estávamos lá para ajudar e havia essa energia tangível no ar. E, penso, da mesma maneira que eu dava vida ao meu avô, essas crianças estavam me dando vida.

Então, agora eu gostaria de convocar meus companheiros do futebol para ajudar. Nós temos muitas oportunidades simplesmente porque jogamos um jogo de crianças. Temos muita sorte de viver um sonho. Vamos nos juntar e ajudar as crianças em todos os cantos a experimentar a mesma luz e a mesma alegria. Fazendo isso, então podemos mostrar à toda indústria do futebol que o Common Goal precisa acontecer e que isso irá acontecer, porque é o certo.