Blaise Matuidi já tem oito anos de seleção. Estreou pelos Bleus em agosto de 2010, tempos em que era uma promessa trabalhada pelas seleções de base, despontando com a camisa do Saint-Étienne. Soma 71 jogos pela equipe nacional, terceiro jogador mais tarimbado no elenco de Didier Deschamps – uma marca que o deixa em pé de igualdade a Claude Makélélé e David Trezeguet em aparições pela França, a uma partida de alcançar Michel Platini. Durante todo este tempo, o camisa 14 se manteve como um coadjuvante, sem nunca reclamar disso. E como um excelente coadjuvante, teve papel decisivo em São Petersburgo, nesta terça. Dentro de suas incumbências, o meio-campista jogou demais contra a Bélgica. Merece o reconhecimento como um dos melhores em uma noite extremamente eficiente dos franceses, que valeu a vaga na final da Copa.

Ao longo destes oito anos de seleção, Matuidi evoluiu demais. Era um jogador que possuía como seu grande predicado a presença física, mas se mostrava um tanto quanto afobado com a bola. A transferência ao Paris Saint-Germain ajudou seu desenvolvimento neste sentido. Talhado em alto nível, o meio-campista se tornou bem mais completo. E em um elenco cheio de estrelas, seu papel era um tanto quanto menosprezado. Em algumas das temporadas na qual foi campeão francês, Matuidi poderia muito bem ser considerado o melhor do time. Dava dinamismo, potência, contribuía ao ataque e à defesa. A ascensão, aliás, se refletiu aos Bleus. O volante chegou à Copa do Mundo de 2014 em ótima forma e viveu os seus momentos, anotando um gol contra a Suíça. Melhor ainda estava na época da Eurocopa, intocável na equipe de Didier Deschamps, dando consistência ao meio. Precisou se contentar ao vice.

Nos últimos dois anos, Matuidi perdeu um pouco de seu ritmo. Deixou de ser tão importante ao Paris Saint-Germain, saindo na última temporada. E ainda que tenha vivido um ano vitorioso com a Juventus, conquista o seu espaço aos poucos. Não à toa, desde as Eliminatórias, perdeu a titularidade na França. Jogou menos minutos nos amistosos preparatórios e virou reserva de Corentin Tolisso na estreia contra a Austrália. Entretanto, se transformou em uma pertinente alternativa tática a Deschamps. Funcionou bem contra o Peru e bloqueou os espaços contra a Argentina. Mas nada tão importante como o ocorrido contra a Bélgica.

Jogando pelo lado esquerdo, Matuidi ajudou a conter as passagens de Nacer Chadli pela ala e a perseguir Kevin de Bruyne em seu principal lado de ação. Silenciosamente, o camisa 14 foi fundamental para anular o jogo da Bélgica, especialmente depois da pressão inicial. Já no segundo tempo, se a entrada de Dries Mertens não gerou grandes efeitos, é pela forma como o francês o botou no bolso.

Nenhum outro jogador em campo roubou tantas bolas quanto Matuidi. Foram seis desarmes e três passes interceptados – e isso sem cometer uma falta sequer. Pode não ter sido tão preponderante ao ataque, mas também apareceu. Arriscou três chutes, deu dois passes para finalizações de seus companheiros, esticou lançamentos em direção a Olivier Giroud e sua classe complementou o lance mágico de Kylian Mbappé, com um passe de primeira usando a parte externa do pé. De qualquer forma, a atuação defensiva monstruosa se destacou e facilitou demais o trabalho dos Bleus. O meio-campista permaneceu em campo por 86 minutos, até uma pancada que o tirou de ação.

Obviamente, o sucesso da França passa por um sistema. Raphael Varane, sobretudo, dominou a defesa. N’Golo Kanté manteve seu altíssimo nível de eficiência, preenchendo diferentes cantos do campo. Paul Pogba desempenhou um trabalho mais físico do que se espera e se saiu muitíssimo bem, permitindo que o jogo dos Bleus fluísse. Já mais à frente, Antoine Griezmann teve função diferente, mas essencial, pela maneira como recuou e ajudou a desafogar a equipe. Matuidi, bem encaixado neste coletivo, sobrou. Talvez não seja exagero dizer que este foi o grande jogo de sua carreira. Não apenas pela importância em um momento tão grande aos Bleus, mas também por escancarar muitas de suas virtudes. Sem ser um jogador brilhante sempre, é um motor que ajuda qualquer time a ganhar jogos. E jogos grandes, como uma semifinal de Copa do Mundo.

Matuidi possivelmente será lembrado apenas numa página dois das seleções francesas que disputaram uma decisão de Mundial. Em um meio-campo que já teve Patrick Vieira, Claude Makélélé ou o próprio capitão Didier Deschamps, o funcional camisa 14 entra no segundo escalão. No entanto, os torcedores franceses precisam reconhecê-lo. Se o gol de Samuel Umtiti é o que consagra a classificação, a intensidade incessante do meio-campista garantiu o sucesso dos Bleus, barrando a insistência da Bélgica. É um jogador que, por tudo aquilo oferecido ao time, deve ser mais respeitado. Esta foi a sua noite para deixar uma marca.