Quando Kylian Mbappé cita Albert Camus para rebater as críticas dos torcedores do Monaco sobre sua transferência ao Paris Saint-Germain, é plausível desconfiar da autoria. Em um futebol extremamente pasteurizado, em que as declarações dos jogadores se resumem a obviedades ou às vontades dos assessores, a referência soa como mais uma artificialidade plantada. Porém, basta ouvir (ou, neste caso, ler) o que Mbappé fala para acreditar que a alusão pode ter saído muito bem de sua mente. Aos 18 anos, o jovem atacante demonstra uma maturidade imensa. A clareza de suas ideias não estão acima da média apenas em relação à idade, mas também em relação a muitos de seus colegas de profissão – mais experientes, escorados por assessores ou não. E isso se escancarou nesta quarta, durante sua apresentação no Parc des Princes.

Mbappé viveu um dia intenso. Não apenas falou com a imprensa em coletiva aberta, mas também deu entrevistas exclusivas a alguns canais de televisão, incluindo o SFR Sport e o Téléfoot 1. Em vários momentos, demonstrou sua capacidade de raciocínio, indo além do lugar comum para responder as questões. A menção a um escritor tão profundo como Camus não parece mera escolha a esmo, quando há um ar de filosofia em certos pensamentos do garoto. É bastante interessante ver o que ele tem a dizer, notando a consciência, diante de todos os entraves que circundam a sua negociação. Mais do que encher os bolsos no PSG, ele transmite o desejo de fazer algo grandioso para o clube de sua cidade natal, ao qual torceu durante a infância.

Abaixo, reunimos algumas das melhores declarações, dadas a diferentes veículos. Dividimos conforme a temática, para juntar frases que Mbappé soltou em momentos distintos. Um projeto de craque que não se faz apenas na bola.

– O desejo de fazer história no PSG

Os grandes jogadores marcaram a história em seus países, seja com a seleção ou no clube. E se eu deixasse a França depois de seis meses? Eu seria uma promessa, uma eterna promessa que teve alguns meses em alto nível, e não é isso que eu quero. Eu desejo verdadeiramente marcar a história da minha cidade e o Paris Saint-Germain é o projeto que me permitiria seguir meu progresso como jogador. […] Para um parisiense de nascimento que deseja evoluir e ganhar troféus, o PSG era a melhor escolha.

– A parceria com Neymar

A contratação dele não influenciou, as conversas vinham de antes. Mas, de qualquer forma, jogar com Neymar será qualquer coisa de extraordinário. Nós conhecemos o jogador que ele é. O PSG já me interessava antes, mas esta é uma motivação extra. […] Eu adoro a fantasia dele com a bola. Jogar com um ídolo é realmente incrível. Ele tem toda a qualidade para conquistar a Bola de Ouro e farei de tudo para ajudá-lo nesse objetivo.

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– As críticas sobre a sua transferência

Estou preparado a tudo. Você não pode estar preparado apenas aos elogios, mas também às críticas. Eu penso que isso faz parte da vida do jogador de futebol. Parto do princípio que, quando você aceita te dizerem que é o melhor, também aceita dizerem que é o pior.  As críticas são mais duras não para o meu pai ou para a minha mãe, mas para os meus avós, que veem um pouco mais de fora e são de uma geração mais velha, que não tinha tanta midiatização. Mas minha família próxima está preparada ao que se passa.

– O que motivou a saída do Monaco

Quando eu terminei a temporada como campeão, a visão era de permanecer no Monaco. Minha prioridade era o Monaco. Mas aconteceu um evento que mudou a minha posição e eu me decidi me juntar ao PSG. Não vou falar sobre isso agora, mas quando chegar o momento certo. Eu falarei muito em breve sobre o que se passou. Tenho muito respeito por Vardim Vasilyev, vice-presidente do Monaco.

– Sobre a maneira como vai jogar

Eu tive a oportunidade de conversar com o técnico. Ele tem uma filosofia bem clara. Foi um encontro agradável. Ele transmite paixão. Foi um encontro de dois apaixonados, tivemos uma conexão imediata. Ele disse que posso atuar em várias posições no ataque. Não há uma posição definida.

– O valor da transferência

Não sou eu que lido com isso. Não mudará a minha maneira de viver ou de pensar. Não me incomoda. O dinheiro não está no meu bolso e não sai do meu bolso. Isso não me interessa. […] O que me interessa é o campo. É entrar em campo e ter prazer em jogar. Se for 180 milhões ou um euro, meu estilo de jogo será o mesmo. E digo que quando você vê uma torcida como essa, o estádio, os jogadores, isso dá mais prazer.

– As lembranças como torcedor do PSG

Tenho em mente a incrível atmosfera nas arquibancadas. Realmente nos sentíamos um 12º jogador, que fazia os atletas darem o seu máximo em campo. Eu também vi que os ultras estão de volta e isso é algo positivo. Eu me lembro bem do Ronaldinho. Tenho uma grande admiração pelo futebol brasileiro e tudo o que ele representa. Ronaldinho encarnou esse ideal em meus olhos e me encantou quando jovem. Ainda me lembro do elástico na vitória por 3 a 0 contra o Olympique de Marseille em 2002. Foi um lance lindo!