Por vezes, não é necessário marcar um gol ou dar um passe decisivo para se protagonizar uma boa partida. Há uma magia causada nas entrelinhas, um talento que não necessariamente aparece nos melhores momentos, uma classe que eclode em estalos. É o que aconteceu com Kylian Mbappé nesta terça-feira, em São Petersburgo, durante a semifinal da Copa do Mundo. Contra a Bélgica, o camisa 10 não conseguiu ser tão destrutivo como aconteceu diante da Argentina. Não teve influência direta no resultado, que garantiu a França na decisão do Mundial. Mas, lance ou outro, provocou certo deslumbramento. Deu uma dose de beleza importante à noite histórica dos Bleus – ainda que pudesse fazer mais, pelo que foi o final do jogo. É o cara que todo mundo deseja ver, que prende os olhares, e que permite a tanta gente presenciar sua explosão em plena Copa.

A fome de bola de Mbappé ficou clara logo nos primeiros segundos de jogo. O camisa 10 recebeu na ponta direita e arrancou, preparando a jogada para Antoine Griezmann dentro da área. Ao longo do primeiro tempo, dominado em boa parte pela Bélgica, faltava espaço para o garoto voar baixo. Ainda assim, os respiros do time dependiam diretamente das escapadas do prodígio. Abria brechas com seus dribles e ajudou os Bleus a crescerem pouco antes do intervalo. As principais chances francesas, afinal, surgiam a partir de bons passes do jovem. Na melhor delas, deixou Benjamin Pavard na cara do gol, mas o lateral parou um milagre de Thibaut Courtois.

Que não tenha sido brilhante, a França uniu o trabalho e a eficiência. Cada jogador fez muito bem a sua função, com os dois zagueiros em noite soberba. Do meio para frente, em especial, os Bleus contaram com atletas muito conscientes de suas incumbências. N’Golo Kanté em sua cobertura, Paul Pogba dando muita presença física à faixa central, Blaise Matuidi sempre no combate, Antoine Griezmann carimbando quase todas as bolas. O toque diferente, porém, vinha de Mbappé. O camisa 10 não deu um chute sequer ao longo da partida. Seis finalizações francesas, em contrapartida, nasceram a partir de seus passes.

E foi um pecado que o lance mais deslumbrante, mais encantador, não tenha acabado nas redes. O passe a Olivier Giroud no início do segundo tempo, quando Samuel Umtiti já tinha aberto o placar, foi coisa de cinema – algo que não se vê em todos os jogos, e muito menos em uma Copa do Mundo. A jogada toda é bonita. Matuidi deu um bom passe com a parte de fora do pé. O camisa 10, de costas para o gol, ajeitou com a direita e ofereceu um bolão de calcanhar com a esquerda. Deixou Giroud na cara do gol, mas o centroavante acabou travado no momento de definição. Se o gol sai, seria daqueles lances para serem repetidos a cada Copa. E ainda rolaram outros detalhes menores do garoto, as fintas, as quebras de ritmo, os toques de calcanhar. Foram 15 dribles tentados pelo atacante, oito deixando seus marcadores comendo poeira.

Mbappé ainda teve que ajudar na marcação, em meio à estéril pressão final da Bélgica. E se não fez uma partida realmente inesquecível, foi por culpa do final desleixado. O camisa 10 desperdiçou ótimos contra-ataques, que poderiam ter rendido o segundo gol. Além disso, arrumou a sua confusão ao gastar o tempo, prendendo a bola quando o jogo já estava parado, e deu uma provocada em Jan Vertonghen, que rendeu amarelo ao defensor por uma entrada mais dura. Coisas do jogo, para travar o final, que merecem ser consideradas conforme a temperatura, independentemente da cor da bandeira. Só aguardava a comemoração. Ao apito derradeiro, o craque ajoelhou-se no campo, botou as mãos na face, prostrou-se no gramado. Menino em seu sonho, parecia não acreditar.

E uma cena, já depois do apito final, deixa a sua marca. Mbappé era abraçado por Thierry Henry, auxiliar técnico dos belgas, mas referência a qualquer atacante francês. Foi o encontro entre o passado e o presente da seleção, cujo futuro ainda deve ser brilhante. Aos 19 anos, vestir a camisa 10 e ser protagonista dos Bleus não é peso ao prodígio. Agora, terá uma final de Copa do Mundo para se consagrar.