Craque. Uma palavra sagrada no futebol, cujo uso é abusado por muitos, enquanto outros preferem guardá-la apenas a quem realmente causa encanto diante dos olhos. O rótulo é especial demais para ser profanado. Depende de uma dose de magia, de um faro de gols, de um senso que permite àquele cara ter uma luz especial em relação aos outros dentro de campo. Basicamente, pressentir o que quase nenhum outro consegue. Alguns preferem evitar uma exaltação tão enfática a Kylian Mbappé, 19 anos e apenas duas temporadas atuando em alto nível. Fenômeno, ninguém nega que o camisa 10 é. Mas neste sábado ele viveu uma daquelas atuações que servem de rito de passagem. Exibição de craque, com letras garrafais, para decidir um jogo grande de Copa. Arrebentou com a Argentina e se torna o grande responsável pela confirmação da França como uma das favoritas na Rússia.

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Pouca idade não significa falta de maturidade. Mbappé sempre se mostrou um jogador diferenciado, desde que despontou com a camisa do Monaco. A potência física é um triunfo claro, mas não só isso. Tem muita qualidade técnica, não se esconde em grandes ocasiões, sabe tomar as decisões corretas. Não à toa, sobrou na conquista da Ligue 1 em 2016/17 e também fez aparições destruidoras na Liga dos Campeões. Bem pago e de volta à cidade onde cresceu, criado nos subúrbios parisienses, preferiu aceitar a proposta do Paris Saint-Germain. Não fez a temporada que se esperava no novo clube, embora tenha brilhado em algumas partidas. Já na seleção, meses bastaram para se tornar um dos protagonistas. Se o time vice-campeão da Euro 2016 já era forte, sentia falta de um talento como o do camisa 10.

O melhor de Mbappé é que sua maturidade não se limita ao campo de jogo. Fora dele, o garoto sempre pareceu preparado a lidar com as expectativas e a não tirar os pés no chão. Seus pais, afinal, estiveram inseridos no esporte. O pai é um imigrante camaronês que o treinou durante a infância, enquanto a mãe, argelina, jogou handebol profissionalmente. Em casa, tinha o exemplo de Jirès Kembo Ekoko, seu irmão de criação, que passou pelas seleções de base e possui uma carreira razoável por clubes. Estar inserido no meio não gerou qualquer deslumbramento. O novato sempre se dedicou aos estudos e se mostra como um leitor voraz. Sequer deixou de morar no CT do Monaco nem quando virou uma estrela do futebol francês.

A inteligência acima da média em campo impressiona ainda mais nas entrevistas. O nível de clareza nas ideias de Mbappé é enorme, fugindo do bê-a-bá das respostas ensaiadas pelas assessorias e dos lugares-comum, independentemente da pouca idade. Consciência evidente, por exemplo, em sua apresentação ao Paris Saint-Germain, ao falar sobre as críticas de sua decisão e o valor do negócio. Consciência ainda mais notável em sua postura quanto à seleção, se recusando a receber pagamentos e premiações. Nesta Copa, reverterá o que for seu direito a uma instituição que atende crianças hospitalizadas e deficientes.

Mbappé não estourou na primeira fase da Copa, mas teve a sua importância, principalmente no jogo contra o Peru, anotando o gol da vitória. Ainda assim, pouco pelo que aconteceu diante da Argentina nas oitavas de final. O camisa 10 sobrou contra a frágil defesa albiceleste. No primeiro tempo, era lançar o prodígio e já comemorar. Sua velocidade serviu para explorar todos os temores dos argentinos e deixar os defensores para trás. A arrancada desde antes da linha central serviu para originar o pênalti do primeiro tento. Jogada sensacional, que lembrou um fenômeno de outros tempos e só conseguiu ser parada com falta. Depois, um lançamento de Samuel Umtiti ainda gerou uma falta perigosíssima sofrida pelo garoto. Os dribles vinham na facilidade de quem faz algo trivial, com potência e velocidade, mas também com qualidade para executar tudo isso num estalo. Faltava o gol.

E não faltou no segundo tempo, em suas únicas duas finalizações da partida. O primeiro tento valeu pela velocidade de raciocínio e pela capacidade em espaços curtos. A bola chegou um pouco no susto, mas ele cortou Enzo Pérez numa só finta, fazendo o argentino chutar o ar. Com o caminho aberto, finalizou com categoria, por baixo de Franco Armani. Se a canhota funcionou primeiro, a direita seria fatal depois. Olivier Giroud merece os créditos pelo passe na medida. O camisa 10 arrancou com total liberdade e, na passada certa, deu um chute seco, chapa na bola, outra vez nas redes. Ficaria em campo até os 44 do segundo tempo, substituído. Na verdade, ovacionado pela torcida presente nas arquibancadas em Kazan. Era preciso se render ao craque da tarde.

Este era um jogo no qual a França precisava ter a iniciativa. No qual o ataque necessitava funcionar. A Argentina ainda teve mais posse de bola, mas muito distante da voracidade dos Bleus. Da fome de bola de Mbappé. O camisa 10 tornou-se o terceiro jogador abaixo dos 20 anos a marcar mais de dois gols em Copas. O mais recente? Outro camisa 10 que fazia estrago há 60 anos, um tal de Pelé. “Estou muito feliz e lisonjeado de ser o primeiro adolescente desde Pelé, mas vamos colocar as coisas em contexto: o Pelé está em outra categoria. De qualquer forma, é bom estar ao lado de alguém como ele. Como eu já disse, na Copa do Mundo você tem vários jogadores de nível superior, então é importante mostrar o que você pode e quais são as suas habilidades. Não há melhor lugar que o Mundial”, declarou, na saída de campo. Humildade e categoria nas palavras.

A França pode fazer ainda mais três jogos na Copa do Mundo. Mais três jogos para Mbappé e os outros talentos desta equipe ampliarem as noções sobre o seu real potencial. Mas não se nega que a história já está feita neste sábado. Que não seja uma campanha totalmente brilhante, os Bleus protagonizaram uma das melhores partidas dos Mundiais nas últimas edições. O camisa 10 será sempre lembrado pela exibição imparável em Kazan. O craque de um jogo eterno aos franceses e que pode se tornar mais, a depender do sucesso na sequência.