O Palmeiras encarou cenários quase idênticos em suas partidas das últimas semanas. Precisou escalar montanhas para não sair de campo derrotado, depois de inícios muito ruins. Despencou uma vez. Chegou ao topo duas. A segunda foi em uma noite cheia de emoções, nesta quarta-feira, em campo, depois do apito final, nas arquibancadas e na sala de entrevistas coletivas. Restringindo-se ao jogo, saiu perdendo para o Peñarol por 2 a 0 e conseguiu a virada para 3 a 2.

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Conseguiu porque os uruguaios não têm qualidade técnica à altura do caro elenco verde, o que se reflete na tabela: apenas três pontos, uma vitória contra o Atlético Tucumán, em quatro partidas, que poderiam ser no mínimo o dobro se tivessem conseguido segurar a vantagem que construíram contra o Palmeiras em pelo menos um dos dois confrontos. Mas bastou aos homens de Eduardo Baptista colocarem a bola no chão por aproximadamente 15 minutos no primeiro e por 45 no segundo para saírem de uma situação adversa com o triunfo no bolso.

Os visitantes entraram no Campeón del Siglo no 3-4-3 que revolucionou a temporada do Chelsea, tem ajudado a melhorar a do Arsenal e parece ser o esquema da moda no futebol. Mas não adianta posicionar as peças no tabuleiro sem uma proposta de jogo bem executada, sem movimentos bem treinados, sem uma estratégia com e sem a bola. Nada disso apareceu em campo. Eduardo Baptista usou essa formação para tentar virar a semifinal do Paulistão contra a Ponte Preta, com Felipe Melo de terceiro zagueiro, e funcionou apenas em breves momentos do primeiro tempo. Desta vez, não chegou nem perto.

Vitor Hugo entrou na defesa para fechar o lado esquerdo, junto com Egídio, atuando na linha do meio-campo, e compor uma zaga com três zagueiros altos para fortalecer a defesa ao jogo aéreo. A maior prova de que a estratégia não deu certo é que os dois gols do Peñarol saíram pelo lado esquerdo a partir do jogo aéreo. Aos 12 minutos, Nahitan Nández subiu ao ataque, tabelou com Petrik e girou para cima de Egídio. Affonso ganhou de Mina – sem falta, na opinião deste escriba – e, livre, completou para as redes.

O segundo gol foi ainda mais problemático. Egídio saiu da linha defensiva para dar o bote mais à frente e, após uma rápida troca de passes, Alex Silva ficou livre na ponta direita. Cruzou para a área, Petrik desviou e Junior Arias mandou para as redes. No ataque, o Palmeiras foi inexistente e não é maneira de dizer: teve zero finalizações e zero cruzamentos corretos durante 45 minutos. E isso acertando 83% dos passes. Não sabia o que fazer com a bola.

Eduardo Baptista errou na escalação, mas teve o mérito de não hesitar na hora de corrigir o seu equívoco. Voltou do intervalo com  Tchê Tchê no lugar de Egídio e Willian no de Vitor Hugo. Retornou a equipe ao 4-1-4-1 que iniciou a temporada e com o qual o Palmeiras vinha evoluindo antes do primeiro jogo contra o Peñarol. Não houve nada de revolucionário. Mais acostumado, mais organizado e mais ligado, a virada veio em questão de minutos.

Temos que dedicar um parágrafo inteiro para Willian. Acredito que haja atacantes mais talentosos que ele no elenco alviverde, mas ele precisa ser titular. Nenhum produz tanto. Nenhum está em melhor fase. Ele tirou da cartola o gol que devolveu o Palmeiras para o jogo. A bola foi lançada para a área de qualquer jeito, Borja desviou, e Willian fez o resto. Dominou com um toque, tirou a marcação com o outro e virou batendo, sem deixar a criança cair. Acertou o ângulo. Isso aconteceu no terceiro minuto da etapa final.

O empate tinha tudo para sair aos 12. Jean, um dos melhores em campo, cruzou para Róger Guedes. O encontro do atacante com a bola aconteceu de forma muito íntima, apenas os dois, sem goleiro, sem marcação, dentro da pequena área, e Guedes desvendou uma maneira que ninguém imaginava que fosse possível para perder um gol muito, muito feito. Pegou mal, mandou por cima do travessão.

Cinco minutos depois, Jean, de novo, foi acionado pela direita e deu um cruzamento longo para Mina na segunda trave. O zagueiro-artilheiro colombiano cabeceou para empatar. A virada começou nos pés de Guerra, batendo na porta para se tornar o dono do meio-campo. Já fez boas partidas, teve alguns bons momentos, mas falta regularidade. Passa a sensação, no entanto, que está prestes a encaixar de vez. Soltou a bomba de fora da área, Guruceaga espalmou e Jean recolheu. Cruzou na medida para Willian fazer o terceiro. Houve um esboço de pressão no fim do jogo, mas o Palmeiras segurou-se bem, com Felipe Melo executando desarmes decisivos, e o Peñarol mal levou perigo no tradicional abafa dos minutos derradeiros.

A equipe brasileira chegou a 10 pontos em 12 possíveis e lidera o seu grupo. Está com a vaga nas oitavas de final quase garantida, salvo uma hecatombe nas duas rodadas finais. No entanto, mais uma vez teve que recorrer ao épico para ganhar na Libertadores e – eu sei que já escrevi isso antes – uma hora o épico não virá. Montou um time para ser campeão sul-americano e convém abandonar esse recente e insistente hábito de começar mal as partidas. Em um mata-mata, isso custa muito caro, como a Ponte Preta demonstrou didaticamente no Paulistão.

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