A torcida do Portland Timbers contra o racismo (Foto: AP)

Memória impede que racismo da sociedade americana chegue às arquibancadas

Colaborou Ubiratan Leal

Muitas coisas levaram Thierry Henry a aceitar jogar nos Estados Unidos. Ganhar uma bolada de dinheiro e morar em Nova York foram duas delas, muito importantes. Teve outro aspecto bem atraente também: o francês nunca havia ouvido falar de racismo na Major League Soccer.

Leia mais: Racismo no futebol: cinco países, e cinco exemplos do que fazer e não fazer

Henry já ajudou a sua patrocinadora Nike a criar uma campanha chamada “Stand Up, Speak Up” (Levante-se e se imponha). Não à toa. Ele foi envolvido em casos de preconceito. O mais midiático envolveu o ex-técnico da Espanha, Luis Aragonés, que se referiu ao francês como “negro de merda” como forma de motivar José Reyes, então reserva do Arsenal.

Uma perspectiva que ele não tinha ao chegar ao New York Red Bulls. “Eu não sei realmente como que é, mas nunca ouvi nada de ruim, e isso é ótimo”, disse ao jornal New York Daily News. É realmente ótimo que um jogador famoso e engajado na luta contra o racismo não tenha conhecimento de casos de discriminação na MLS. E não tenha dúvida que os atletas conversam entre si sobre esses assuntos mais do que a gente pensa. 

A Major League Soccer, como as quatro grandes ligas de esportes americanos (NBA, NFL, NHL e MLB), realmente não tem uma fama de racismo dentro do gramado ou nas arquibancadas. Os casos de bananas atiradas contra jogadores negros, imitações de macacos ou o uso do termo “nigger” (forma extremamente pejorativa para se referir a negros) são raros.

O ex-jogador Roy Lassiter, recordista de gols em uma única temporada da liga, ao lado de Chris Wondolowski, ouviu essa palavra de um colega, “um defensor bem fraco”, na metade dos anos 1990, levou o caso à liga e o racista foi punido. Em 2008, Kheli Dube, do New England Revolutions, também foi alvo de ofensas preconceituosas por um seguidor do Columbus Crew. A punição: suspensão eterna de qualquer estádio ou evento da MLS.

No ano seguinte, um torcedor do Detroit Red Wings (hóquei no gelo) foi multado em US$ 200, aproximadamente R$ 370, por jogar uma banana na direção do ala Wayne Simmonds, do Philadelphia Flyers. Em agosto do ano passado, o defensor central do Baltimore Orioles, Adam Jones, também foi confrontado pela estupidez do ser humano. Precisou afastar a banana que foi atirada das arquibancadas antes de fazer a sua rebatida. Há muito menos casos de racismo aberto e escancarado em comparação com a Europa, o que não quer dizer que os esportes americanos não têm esse sentimento enraizado nas suas estruturas.

Michael Jordan: o único proprietário negro nas quatro grandes ligas dos EUA (Foto: AP)

Michael Jordan: o único proprietário negro nas quatro grandes ligas dos EUA (Foto: AP)

Apenas em 2002, a NBA ganhou o seu primeiro dono de franquia negro. E foi preciso um indivíduo com credenciais muito acima do normal para quebrar essa barreira: era Michael Jordan, que comprou o Charlotte Bobcats. Hoje, ele ainda é o único proprietário afro-americano nas quatro grandes ligas e um dos cinco que fazem parte de minorias étnicas, ao lado do paquistanês Shahid Khan (Jacksonville Jaguars, da NFL, também dono do Fulham), o latino Arturo Moreno (Los Angeles Angels, da MLB), o chinês Charles Wang (New York Islanders, NHL) e o indiano Vivek Ranadivé (Sacramento Kings, NBA).

>>>> Sterling agora diz que Magic Johnson deveria se envergonhar de ter HIV

No mês passado, Donald Sterling, dono do Los Angeles Clippers, foi flagrado em uma gravação dizendo para a namorada que não queria que negros e latinos fossem ao ginásio do time ver as partidas. Sterling não começou a ser racista naquela conversa e foi punido com o rigor máximo pelo novo comissário da NBA, Adam Silver – que também precisava mostrar serviço no começo do seu mandato.

Mais institucional ainda, o time de futebol americano da capital do país chama-se Washington Redskins, “pele vermelha”, termo muito pejorativo aos indígenas e que é tema de debate na imprensa esportiva americana. A Slate, uma revista do Washington Post, decidiu não chamar mais o clube pelo apelido e escolas do Texas também eliminaram as referências aos indígenas de seus nomes. O desenho que representa o Cleveland Indians (o Chefe Wahoo) também é alvo de muitas críticas dos nativos americanos.

No hóquei, esporte predominantemente branco, os poucos negros às vezes sofrem. Houve o caso do Red Wings x Flyers, mas o caso mais recente envolveu PK Subban, que recebeu mensagens preconceituosas nas redes sociais depois do gol da vitória por 4 a 3 de seu Montréal Canadiens sobre o Boston Bruins. Mas por que esse racismo não deixa a internet e as chiques salas de diretoria e chega às arquibancadas dos estádios e ginásios?

>>>> PK Subban e a história dos negros na NHL

Um dos fatores pode ser a sede das principais franquias dos esportes americanos ser em cidades grandes e cosmopolitas onde, de modo geral, os imigrantes estão inseridos na sociedade há muitas décadas. E os esportes universitários se beneficiam do ambiente acadêmico, também tolerante. Outro fator é a composição das torcidas dos Estados Unidos, muito diferentes das europeias e latino-americanas. Há poucos grupos organizados, que podem se beneficiar do anonimato criado pela massa para cometer infrações.

Para Ethan Donaldson, editor do site ESPN New York e bastante conhecedor da realidade do futebol brasileiro, esses fatores são secundários. O principal é que ser visto como racista é algo extremamente vergonhoso para uma pessoa nos Estados Unidos, algo que nem sempre acontece na Europa e mesmo no Brasil. “Ter pouco racismo nos estádios americanos tem muito a ver com toda nossa história. O cenário hoje é resultado de uma luta de cem anos, com o Movimento dos Direitos Civis e a conscientização da população em geral”, afirma. “A sociedade amadureceu muito mais esse debate do que em outros lugares. Hoje, ninguém quer o rótulo de ‘racista’.”

A luta dos negros está registrada em diversos filmes, músicas, livros e séries de televisão da cultura americana, a começar pela época da escravidão, tão bem registrada em Doze Anos de Escravidão, o mais recente vencedor do Oscar de Melhor Filme, ou em Lincoln, nomeado no ano anterior, que mostra um pouco da Guerra Civil dos Estados Unidos, entre o norte abolicionista e o sul escravagista.

A bandeira dos Confederados ainda é hasteada com orgulho por alguns americanos (Foto: AP)

A bandeira dos Confederados ainda é hasteada com orgulho por alguns americanos (Foto: AP)

Os Estados Confederados da América representavam o sul agrário do país e tentaram se separar das colônias nortistas porque, entre outros motivos, o presidente Abraham Lincoln começou a se movimentar em direção da abolição da escravidão. A bandeira dos Confederados ainda é hasteada por sulistas como símbolo de orgulho regional, mas tem conotação racista para quem não acha tão legal assim lembrar que aqueles estados, como Geórgia, Alabama, Mississippi e Tennessee, defendiam tanto a escravidão que preferiam a secessão a mudar de ideia.

Hollywood também deu a sua contribuição, com os premiados Mississipi em Chamas, um retrato da violência selvagem do grupo extremista de supremacia racial e anti-imigração Ku Klux Klan, e Histórias Cruzadas, sobre as relações sociais entre os brancos e os negros contratados para ajudar com a limpeza da casa e a criação dos seus filhos.

 >>>> Traumas pós-comunismo e desinformação criam o ambiente para o racismo nos estádios russos

Rubin Carter, boxeador peso médio, que disputou o título mundial em 1964, foi imortalizado na música Hurricane, seu apelido, do cantor de folk Bob Dylan, depois de ter sido preso injustamente por homicídio triplo, em Paterson, New Jersey, em 1966. Passou 19 anos na prisão até que um juiz determinasse sua liberação por não ter um julgamento justo.

A Lei de Direitos Civis dos Estados Unidos foi assinada pelo presidente Lyndon Johnson apenas em 1964 e, embora seja um marco histórico do movimento, nem de longe foi o fim da discriminação e da violência. O pastor Martin Luther King pregava o amor como arma para acabar com o ódio e foi assassinado em 1968, no Tennessee. A segregação ainda está muito recente na memória dos americanos e presente demais na sua cultura para que seja esquecida. Muitos são filhos ou netos, sobrinhos ou primos, amigos ou namorados de pessoas que sofreram humilhações ou foram aterrorizados pela KKK e seus seguidores.

É vergonhoso demais ser racista em público nos Estados Unidos, um país em que parecer uma pessoa correta é tão importante – às vezes até mais – quanto de fato ser uma. O que fica mais exposto em situações privadas, quando os indivíduos deixam de lado o autocontrole e falam sem medir as palavras. “As pessoas não pensam nas consequências do que falam ou fazem, acham que não há punição. Talvez pensem que há um muro entre elas e o mundo real e acabam falando o que pensam”, comenta Donaldson, em relação aos ataques a Subban. “A situação de Sterling é parecida. Ele foi racista em uma conversa privada com a namorada. Ele sabe que não deve falar aquilo em público, por mais que pense isso”, explica.

Martin Luther King dizia que a violência apenas multiplica a violência e acrescente escuridão a uma noite já desprovida de estrelas. Que apenas a luz acaba com a escuridão, e apenas o amor acaba com o ódio. A memória e a história não eliminaram o racismo dos Estados Unidos, mas ao menos contribuem para que partidas de futebol, hóquei, basquete, beisebol e futebol americano possam acontecer sem que a trilha sonora seja grunhidos de macacos.

Você também pode se interessar por:

- Com o fascismo ainda vivo, Itália tem dificuldades para matar o racismo
- Inglaterra fez avanços, mas racismo ainda existe e tem novas vítimas
Talvez nunca seja para sempre: dias depois da banana de Dani Alves, mais racismo na Espanha
León e Cruz Azul dão uma aula de como combater o racismo no futebol
Há 133 anos, o filho de uma ex-escrava se tornava o primeiro negro a defender uma seleção
-  A zoeira, meus caros, ela tem limite. Ainda bem