O jornal inglês Independent publicou um artigo sobre olheiros que identificam treinadores com as características ideais para os clubes necessitados, e um parágrafo se destacou pela semelhança com certos países:

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“Há um conservadorismo inerente: clubes querem treinadores que são conhecidos, que têm currículo e experiência. É por isso que, inevitavelmente, os mesmos nomes são reciclados – Alan Pardew, Sam Allardyce, Tony Pullis, Roy Hodgson. Isso não é uma crítica a esses treinadores, mas um sinal de falta de imaginação, de pensamento avançado e um planejamento de sucessão”.

Não foi profético, porque foi publicado na última segunda-feira, quando alguns negócios já haviam sido concretizados e outros estavam próximos de ser, mas muitos clubes ingleses, principalmente os do meio da tabela, padecem da mesma falta de imaginação e coragem que os nossos brasileiros. “Conhecido, com currículo e experiência” é como se fala “técnico cascudo” em inglês.

Alan Pardew passou quatro anos no Newcastle, dois no Crystal Palace e foi convocado para substituir Tony Pullis no West Brom. Antes, já havia passado por West Ham e Southampton. Finalista da Copa da Inglaterra com os hammers e com o Palace, nunca foi campeão.

Roy Hodgson tem um currículo extenso. Mais recentemente, fez um bom trabalho no Fulham, finalista da Liga Europa, e fracassou no Liverpool. Levou o West Brom ao décimo lugar e fracassou na seleção inglesa. Assumiu o lugar de Frank de Boer no Crystal Palace, que até outro dia tinha Pardew no comando. Nunca levantou um título na Inglaterra.

David Moyes teve uma passagem longa e impressionante pelo Everton, tanto que foi escolhido a dedo para ser o sucessor de Alex Ferguson no Manchester United. Nem terminou a temporada. Demitido, passou pela Real Sociedad, sem sucesso, e caiu com o Sunderland. No começo do mês, foi anunciado sucessor de Slaven Bilic no West Ham. Seu único título de primeira divisão é a pouco importante Supercopa da Inglaterra, com os Red Devils.

Sam Allardyce, o Big Sam, é um famoso bombeiro que já treinou Bolton, Newcastle, Blackburn, West Ham e Sunderland, com frequência conseguindo campanhas seguras ou salvando equipes que pareciam fadadas ao rebaixamento. Foi o que fez com o Crystal Palace na última temporada, depois de sua efêmera passagem pela seleção inglesa. Adivinha? Também nunca foi campeão. Agora, Allardyce é técnico do Everton, que, depois de uma longa e tortuosa busca por treinadores acabou seguindo os seus pares e optando pela segurança do meio da tabela da Premier League.

Pardew, 56 anos, Hodgson, 70, Moyes, 54, e Allardyce, 63, entregam o que se pede deles – geralmente: times taticamente rígidos, bem organizados, sólidos na defesa, que em tempos ruins brigarão ferozmente contra o rebaixamento e, em bons, ficarão na parte de cima da tabela da Premier League. Mas são também sintomas de um rodízio de figurinhas carimbadas e da lenta renovação de treinadores no país. O último inglês campeão da Inglaterra foi Howard Wilkinson, em 1992, com o Leeds. Nunca houve um inglês vencedor da Premier League.

Fica realmente difícil que treinadores jovens, ingleses ou marcianos, ganhem chances nos clubes que têm possibilidades de serem campeões nacionais – City, United, Chelsea, Arsenal, Tottenham e Liverpool – se nem o pelotão do meio arrisca um pouco mais. Os casos de Everton e West Ham são os piores. Eles fizeram altos investimentos para subir de patamar e colocaram no volante dos carros motoristas que nunca descem dos 70 kms/h, mas também nunca passam dos 80 kms/h.

Deveriam tomar alguns colegas como exemplos. Ambos fora da Premier League, em 2012, Bournemouth e Burnley deram oportunidades para Eddie Howe e Sean Dyche, respectivamente, e estão colhendo bons frutos. Se não houver talento inglês à disposição, há o jovem e estrangeiro. O Huddersfield apostou no alemão David Wagner, tocando uma campanha correta até aqui no retorno à elite. O Watford impressiona sob o comando do português Marco Silva. O Southampton deu chance a Mauricio Pochettino e seu bom trabalho no St. Marys o credenciou ao Tottenham.

Três desses quatro clubes citados recentemente fizeram apostas parecidas. O Palace contratou o holandês Frank de Boer, compatriota de Ronald Koeman, demitido do Everton. O West Ham teve ótimos momentos com o croata Slaven Bilic. Todas escolhas de fora da caixinha. No final das contas – no caso de De Boer, que ficou menos de três meses no cargo, no começo das contas -, os três acabaram decepcionando. E seus ex-empregadores correram para o lado oposto, buscando nomes conhecidos, seguros e enfadonhos. O problema, porém, não foi de conceito: foi de nomes e de circunstâncias.

Allardyce, Hodgson, Pardew, Moyes e outros, como Pullis e Mark Hughes, são técnicos competentes. Garantem a um clube uma sobrevivência sustentável na Premier League, com vitórias burocráticas, algumas inesperadas e um ou outro jogo emocionante. Isso é importante para os donos, principais responsáveis por essas decisões, que se assustam com as perdas de receitas e eventuais prejuízos de um rebaixamento para fora da milionária elite inglesa. Mas eles parecem ter um cinto de utilidades limitado e nunca se mostraram capazes de alcançar grandes glórias – afinal, nunca venceram nem uma Copa da Liga. Talvez seja a hora de arriscar um pouco mais.