O técnico do Benfica, Jorge Jesus, está longe de ser uma unanimidade entre os portugueses e até mesmo entre os torcedores do seu próprio time. Polêmico, autor de frases de efeito e respostas atravessadas e nem sempre tão competente à beira do campo como é aos microfones, ele naturalmente divide opiniões.

Do lado dos que gostam do treinador, a fila é puxada por alguém de peso: o presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira. A confiança dele no trabalho de Jesus já foi demonstrada nas tantas vezes em que, mesmo em momentos de grandes crises, Jesus teve respaldo para seguir no cargo. E nos últimos dias apareceu mais uma prova de que Vieira gosta mesmo do seu técnico.

Um estudo divulgado pela empresa brasileira Pluri Consultoria aponta que Jorge Jesus é o 11º técnico mais bem pago do mundo, com salário bruto de € 4 milhões (R$ 12,9 milhões) por ano. O levantamento leva em conta dados não oficiais, baseados em informações divulgadas pela imprensa do mundo todo, e não considera eventuais premiações por resultados e títulos.

O valor pago a Jesus é bem inferior ao que recebe Pep Guardiola, que lidera a lista, com € 17 milhões (R$ 54,9 milhões). Também está abaixo do segundo colocado e único conterrâneo na seleção dos 30 mais bem pagos: José Mourinho, com € 10,03 milhões (R$ 32,3 milhões). Mas é superior a nomes importantíssimos, como os campeões mundiais Luiz Felipe Scolari (€ 2,7 milhões – R$ 8,7 milhões) e Vicente del Bosque (€ 2,3 milhões – R$ 7,4 milhões).

Que o Benfica tem estrutura suficiente para bancar o milionário salário, não há dúvida. O que impressiona, porém, é o fato de a carreira de Jorge Jesus não sugerir que ele mereça ser o 11º homem do mundo que mais ganha dinheiro para dirigir um time de futebol.

Jesus conquistou apenas seis títulos desde que iniciou a carreira de técnico, em 1989. Antes de chegar à Luz, foi campeão da Segunda Divisão B (espécie de terceira divisão) pelo Amora, em 1991/92 e da extinta Taça Interto pelo Braga, em 2008. Depois de contratado pelo Benfica, em 2009, ganhou o Campeonato Português de 2009/10 e a Taça da Liga de 2009/10, 2010/11 e 2011/12, a última vez em que ergueu um troféu.

Dos dez treinadores que aparecem acima do português na lista elaborada pela Pluri, apenas três estão há mais tempo do que ele sem dar a volta olímpica: Arsène Wenger, Fabio Capello e Manuel Pellegrini. Todos os demais (Guardiola, Mourinho, Marcelo Lippi, Carlo Ancelotti, David Moyes, Gerardo Martino e Jürgen Klopp) ganharam pelo menos uma competição depois da última conquista de Jesus.

O espanhol Javi García, hoje no Manchester City, talvez ajude a compreender o motivo de tanta confiança depositada pelo Benfica (clube que defendeu por quatro anos) no técnico. “Nunca vi treinador que saiba e conheça futebol como ele, é um perfeccionista. Não sou o único jogador a defender isso, aliás, todos os que trabalharam com ele dizem o mesmo”, afirmou, numa recente entrevista ao jornal O Jogo.

Mas, por mais que seja querido pelos jogadores, Jorge Jesus sabe que precisa de títulos para manter seu polpudo holerite. O “trivice-campeonato” da temporada passada ainda está engasgado na garganta dos torcedores, que sofreram demais ao ver o time perder o quase ganho Campeonato Português para o Porto e as finais da Liga Europa para o Chelsea e da Taça de Portugal para o Vitória de Guimarães.

Saber tirar proveito da amarga experiência é algo que ele pode fazer agora. “Os momentos que vivemos no ano passado deram-nos experiência e fizeram-nos crescer. Gostaria que estivéssemos presentes em todas as finais”, disse o treinador, na sua primeira entrevista de 2014.

A pergunta que fica é: até quando Filipe Vieira manterá a delicada relação custo/benefício de ter um técnico com salários altíssimos e títulos escassos? Se o Benfica passar mais uma temporada sem conquista alguma, não é absurdo pensar que o presidente poderá rever seus conceitos.