“Messi não decide.” “Ausentar-se da Copa do Mundo com a Argentina será a prova de que ele não é isso tudo.” Discursos com esses teores estavam prontos e guardados, só esperando a possível eliminação da Argentina nas Eliminatórias da Copa de 2018 para virem à tona e ocuparem as conversas nos botequins, nas mídias sociais, nas caixas de comentários mundo afora. Pois bem: continuarão guardados. Com os três gols do 3 a 1 sobre o Equador, o camisa 10 calou mais uma vez as dúvidas sobre sua capacidade técnica. E os outros resultados da rodada permitiram que, de um dramático sexto lugar, a Argentina pudesse terminar a qualificação sossegada. Na terceira posição. Na Copa do Mundo. Com o tempo de que Jorge Sampaoli precisava, para corrigir os erros existentes.

E pensar que o susto do começo foi tão grande que quase pareceu definir a má sorte da Argentina. Logo com 30 segundos de jogo no Olímpico Atahualpa, uma bola foi lançada. Aí, Roberto Ordóñez desviou de cabeça. Romario Ibarra, do outro lado, também cabeceou. A jogada virou uma tabela para desmantelar, pelo alto, a barreira de cinco defensores pensada por Jorge Sampaoli para proteger a defesa. E Ibarra chegou livre, chutando no contrapé, sem chances para Sergio Romero.

Na frente, o Equador jogava com velocidade, avançando, aproveitando a crônica desorganização argentina. Tanto que, aos sete minutos, quase veio o segundo gol. Ordóñez arriscou de fora da área, e a bola desviou na defesa, chegando sem problemas para Romero. Porém, no minuto seguinte, veio o primeiro sinal de que a Argentina não estava ferida. E com um destaque do jogo: Ángel di María. O camisa 11 recebeu passe de Lucas Biglia, na esquerda da área, e chutou cruzado, para fora.

Di María reapareceu, aos 10 minutos, arriscando de fora da área, para fora, com desvio na defesa. Com o escanteio da sequência, o atacante ainda finalizou novamente na diagonal, de novo pela linha de fundo. O Equador ainda teve sua chance aos 11, num arremate de Cristián Ramírez, de fora, defendido perigosamente por Romero. Neste equilíbrio maior, faltava alguém pegar o touro pelos chifres. Faltava alguém poder dizer que decidiria o jogo.

A Argentina tinha esse alguém. Que, aliás, é cobrado exatamente porque sempre pode definir jogos. E numa troca de passes, aos 12 minutos, a Argentina chegou ao gol de empate. Graças ao “alguém”. Lionel Messi serviu a Di María. Sempre pela esquerda, ao invés de chutar, desta vez o camisa 11 cruzou. E Messi entrou pelo meio, seguro, para finalizar por baixo de Máximo Bangüera, empatar o jogo e devolver as esperanças.

Começava a aparição definitiva do camisa 10 – facilitada pela péssima atuação de Darío Aimar na zaga, é verdade. Aos 16, Messi puxou a bola até a área, arrematou, e Bangüera rebateu. Mais três minutos, Leo cobrou falta, e a bola desviou na barreira. Finalmente, aos 21, o gol da afirmação definitiva do personagem que levou a Argentina à Copa. Di María puxou a bola pelo meio, e novamente foi o coadjuvante perfeito: serviu Messi pela esquerda. Ele bateu forte. No ângulo direito de Bangüera, sem chance alguma ao goleiro equatoriano.

Batido, o Equador ainda tentou algo aos 30, num voleio fraco de Ramírez, no qual a bola quicou e perdeu força, indo direto para as mãos de Romero. Mais tranquila, a Argentina quase viu o terceiro gol aos 32 minutos. Messi tabelou com Di María, que recebeu de volta e tocou. Só não fez o gol pela saída providencial de Bangüera, que desviou pela linha de fundo. No escanteio da sequência, Gabriel Mercado cabeceou para Bangüera defender.

Na volta para o segundo tempo, o Equador buscou pressionar as laterais, com as temerárias atuações de Eduardo Salvio e, principalmente, Marcos Acuña. Tal pressão rendeu alguns sustos, como aos 13 minutos, quando Ordóñez veio pela esquerda, cruzou, e Nicolás Otamendi tirou de cabeça. Mas qualquer perspectiva equatoriana de ainda transformar a noite argentina em drama acabou aos 18 minutos. Messi pegou a bola no meio, já próximo à área. E reproduziu uma jogada que tantas vezes deu certo: dominou com a perna esquerda, bateu, rede. O 3 a 1 da tranquilidade, o 3 a 1 que provocou a saudação unânime dos reservas ao único que pode levar a Argentina a ainda sonhar com qualquer coisa.

Tudo bem? Claro que não. Só a jogada do gol equatoriano mostra o quão frágil é a zaga argentina. E por todo o jogo, as laterais foram constante espaço por onde o Equador podia tentar algo, mesmo sem sucesso. Esta é a notícia ruim, para a Albiceleste. Para consolar, há duas notícias boas. A primeira: daqui até a Copa, Jorge Sampaoli enfim poderá sair do caótico “modo de emergência”, podendo implantar suas ideias táticas de modo mais aprofundado, para tentar transformar a Argentina em algo próximo de um time, de um coletivo.

A segunda notícia boa para a Argentina? Ora, dessa todos já sabem: ela tem Lionel Andrés Messi. E como citou o “Olé” na cobertura do jogo em tempo real, “Leo os leva”.