Di María comemora abraçado por Messi: os dois craques argentinos decidiram o jogo em um lance (AP Photo/Manu Fernandez)

Messi e Di María repetem Maradona e Caniggia e levam Argentina às quartas

A crônica

Sofrer não é opcional nesta Copa. Todo mundo teve que passar por problemas nesta caminhada, especialmente no mata-mata. A Argentina sabia que seria um desafio duro contra a Suíça, um time que aprendeu com seus erros, especialmente na goleada por 5 a 2 sofrida contra a França na primeira fase. A Argentina não fez uma grande primeira fase, mas venceu todos os jogos confiando em Messi e com Di María como seu fiel coadjuvante. Uma parceria que lembra outra dupla de argentinos: Maradona e Caniggia, decisivos em 1990 para levar a Argentina à final daquela Copa, também com o 10 sendo protagonista e o outro como coadjuvante. Ambos fundamentais, ao seu modo.

Em 1990, o time argentino era, talvez, mais pobre tecnicamente que o atual, mas tinha similaridades. Confiava no seu camisa 10 e capitão, Lionel Messi. Nas oitavas de final de 1990, a Argentina, capengando da primeira fase, pegou um Brasil que estava longe de ter um bom time, mas foi melhor. A marcação em cima de Maradona foi dura, sem dar espaços para o craque. Só que bastou um espaço para que ele arrancasse pelo meio e levasse a bola até entregá-la a Caniggia, que driblou o goleiro Taffarel e marcou o gol da classificação. Uma classificação sofrida, dura, mas por confiar em dois dos seus melhores jogadores, em um time sem muita criatividade. Nesta tarde, em São Paulo, seria preciso de novo o craque da 10 e o seu fiel escudeiro.

A Argentina teve a postura de time que é favorito. Teve a bola e desde o começo tentou atacar, controlar o jogo e ameaçar. A Suíça, mesmo sem ter a forte defesa de 2006 a seu favor, conseguiu tirar os espaços do time albiceleste. Messi, atuando centralizado atrás de Higuaín, tinha sempre pouco espaço. Sem espaço para correr com a bola e fazer suas arrancadas. Chutar a gol então, não havia espaço. E com tanta marcação, a Argentina dominou a posse de bola e esteve melhor a maior parte do tempo, mas foi a Suíça que teve a melhor chance, em uma escapulida que Drmic teve a chance, cara a cara com Romero, mas errou ao tentar encobrir o goleiro e jogou em suas mãos.

O segundo tempo não mudou muito o panorama da partida. A Argentina aumentou a pressão, teve ainda mais a bola no campo de ataque e o goleiro Benaglio teve que trabalhar mais. Depois de mais de 60 minutos, Messi deu seu primeiro chute a gol, mas foi fora. O time argentino trocava muitos passes no campo de ataque, mas faltava finalizar. Higuaín recebia pouco, o congestionamento era muito grande. A Suíça, em poucos lances, tentava ameaçar, mas já mostrava sinais de cansaço.

O tempo passava e os suíços, cansados só recuaram mais ainda. Não tinham nem o contra-ataque mais, errando quase tudo. O relógio derreteu, a Argentina não saía dos seus problemas. A prorrogação tornou-se irremediável. Os dois times já se arrastavam e o desempenho caiu. Shaqiri, um incômodo constante para a defesa argentina, não tinha mais condições de puxar os ataques.

A prorrogação já tinha as cores dramáticas. A Argentina namorando a eliminação trágica com um belo vinho, enquanto a Suíça começava a achar que a classificação, antes tão inacessível, tão fora do alcance, se aproximava e se tornava a cada minuto passado um pouco mais real. Na bola, a Argentina seguia dominando, trocando passes, fazendo a Suíuça se desdobrar. E se desdobrou. Nos outros jogos, a corda apertou no pescoço e a Argentina teve Messi decisivo. Desta vez, a prorrogação já ia se encaminhando para o fim. Será que desta vez não teria o camisa 10 argentino para decidir?

Teve. E bastou um espaço, um pequeno espaço, para que Messi recebesse a bola com mais liberdade do que teve no jogo todo, arrancasse pelo meio e visse Di María passando pelo lado direito, livre. Ele rolou para o meia chutar rasteiro, de primeira e marcar. Gol da classificação? Poderia não ser. Mas por pouco não foi.

A Suíça ainda fez o coração dos argentinos pararem por um segundo. Dzemaili, em uma cabeçada na pequena área, jogou a bola na trave. Caprichosamente, ela voltou e bateu no meio-campista suíço e foi para fora. Fim do sofrimento? Ainda não. Já com 18 minutos de segundo tempo da prorrogação, a Suíça tentou um último suspiro. Uma falta de Garay em Shaqiri, na entrada da área. Seria uma chance, a última. Todos os corações do mundo estavam ali, não só os argentinos e suíços, mas todos que adoram futebol e Copa do Mundo. Futebol é uma coisa maravilhosa e é impossível não se emocionar com momentos assim. Shaqiri cobrou a falta na barreira e o árbitro colocou um fim ao sofrimento de argentinos e suíços. A albiceleste avança, com o coração na mão. Assim como todos os outros.

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FICHA TÉCNICA

Argentina 1×0 Suíça

Argentina

Argentina escudoSergio Romero; Pablo Zabaleta, Federico Fernández, Ezequiel Garay e Marcos Rojo (Ezequiel Basanta, 15′/1TP); Javier Mascherano, Fernando Gago (Lucas Biglia, intervalo da prorrogação) e Ángel Di María; Lionel Messi, Ezequiel Lavezzi (Rodrigo Palcio, 29′/2T) e Gonzalo Higuaín. Técnico: Alejandro Sabella

Suíça

Escudo SuíçaDiego Benaglio; Stephan Lichtsteiner, Fabian Schär, Johan Djourou e Ricardo Rodríguez; Granit Xhaka (Gelson Fernandes, 21′/2T), Valon Behrami, Gökhan Inler e Admir Mehmedi (Blerim Dzemaili, ; Xherdan Shaqiri; Josip Drmic (Haris Seferovic, 37′/2T). Técnico: Ottmar Hitzfeld

Local: Arena Corinthians, em São Paulo
Árbitro: Jonas Eriksson (SUE)
Gols: Di María, 12′/2TP
Cartões amarelos: Xhaka, Fernandes, Rojo, Di María, Garay
Cartões vermelhos: nenhum

O cara

Ángel Di María
Di María: autor do gol decisivo contra a Suíça (AP Photo/Manu Fernandez)

Di María: autor do gol decisivo contra a Suíça (AP Photo/Manu Fernandez)

O melhor do jogo foi Messi, mas Di María novamente conseguiu ser o coadjuvante que faz um grande trabalho. Mesmo em um jogo no qual a Argentina não esteve no seu melhor, e nem ele mesmo teve uma atuação exuberante, foi um jogador brigador, que se projetava à frente como atacante, mas recuperava na marcação como meio-campista. Foi destaque também nos números. Foram 19 cruzamentos de Di María, quem mais se destacou nesse quesito. Ele foi o que mais driblou também, nove vezes. Liderou em outro quesito ofensivo também: foi quem mais chutou a gol, 12 vezes. É essencial para a Argentina.

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Os gols

 12′/2TP: GOL DA ARGENTINA!

Messi recebeu com uma rara liberdade pelo meio e avançou até a entrada da área para rolar para Di María, no lado direito, bater de primeira, de pé esquerdo, e marcar o gol dramático.

A Tática

Argentina x Suíça

A formação da Argentina no papel foi uma, mas na prática, a movimentação foi muito mais intensa. Di María não ficou na mesma linha de Mascherano e Gago, ficou mais à frente, pouco atrás de Messi, ajudando na armação e se movimentando, trocando de posição e de lado com Lavezzi, algumas vezes fazendo a Argentina migrar para o 4-2-3-1. Só Higuaín no ataque ficava fixo no ataque.

Já a Suíça era inicialmente um 4-2-3-1, mas se defendendo formava duas linhas de quatro, com Mehmedi fechando o lado esquerdo e Xhaka o lado direito. Só Shaiqiri ficava mais solto encostando à frente em Drmic. Assim, os suíços davam pouco espaço e tentavam sair para o jogo em velocidade no pouco tempo que tinham a bola.

A Estatística

14.584

Número de metros percorridos por Shaqiri, o jogador que percorreu a maior distância no jogo. O atacante se movimentou por todo o campo, caiu pelos dois lados e foi a válvula de escape do time suíço enquanto teve pernas. Quem mais se movimentou na Argentina foi, surpreendentemente, Higuaín, com 13.520 metros. O que só mostra o quanto o jogo foi desgastante.