Em quanto tempo se constrói uma vitória colossal na Copa Libertadores? Há várias ampulhetas para mensurar o maior feito do Lanús em sua história centenária. Podem-se contar as décadas que marcaram a transformação do Granate, campeão da Copa Conmebol e da Copa Sul-Americana, em um time representativo no cenário continental. Contam-se também os anos, capazes de moldar o elenco calejado e extremamente entrosado, composto por velhos conhecidos. Os meses servem para demarcar a trajetória da equipe que reconquistou o Campeonato Argentino e viveu as incertezas nas fases anteriores da competição sul-americana. Por fim, nesta terça, em cerca de meia hora os comandados de Jorge Almirón conseguiram reduzir a pó uma desvantagem de três gols no placar agregado. E um punhado de segundos permitiu que o árbitro de vídeo assinalasse um pênalti ao Lanús. Possibilitou o gol que decretou a virada quase impossível. Depois de mais um tempo de sofrimento até o apito final, os grenás confirmaram a vitória por 4 a 2 sobre o River Plate. Ampliarão sua jornada rumo à inédita decisão da Libertadores.

A caminhada do Lanús não começa nesta noite, nem na semana passada e muito menos no início do ano. Talvez o marco inicial mais preciso esteja em 2004, quando Maxi Velázquez chegou a La Fortaleza, contratado junto ao Talleres. O jogador mais experiente deste elenco ajudou também a iniciar a série de grandes campanhas do Granate na última década. Aos poucos, ganhou a companhia de outros ídolos incontestáveis: Lautaro Acosta e José Sand, sobretudo. Jogadores que saíram e voltaram, mas criaram a identidade do clube. E que, bastante tarimbados, lideraram também uma nova geração à conquista do Campeonato Argentino em 2016. Recolocaram o time na Libertadores, uma competição comum desde 2008, mas cujos desempenhos anteriores não demarcavam a real relevância dos grenás.

Em uma edição da Libertadores em que nem todos os clubes mais tradicionais da Argentina conquistaram a classificação, o Lanús aparecia entre as forças de seu país. Vinha com a faixa no peito e de um título relativamente recente da Copa Sul-Americana. O desempenho a partir da fase de grupos, de qualquer forma, deu margem à desconfiança. O Granate oscilou e teve sua campanha impulsionada pela punição à Chapecoense, ampliando a liderança no Grupo 7. Nas oitavas de final, apesar da badalação sobre o Strongest, os argentinos eliminaram os bolivianos. Depois, reverteram a situação contra o San Lorenzo, vencendo o segundo jogo nos pênaltis e garantindo a vaga nas semifinais. Até que o River Plate surgisse como um enorme desafio.

O favoritismo dos Millonarios soava como natural, apesar da melhor campanha do Lanús. O time de Marcello Gallardo carregava o peso de sua camisa. Possuía um cartel ainda mais respeitável nas competições continentais durante os últimos anos. Reforçou-se com jogadores experientes e que logo começaram a fazer a diferença. E vinha de uma das maiores viradas da história do torneio contra o Jorge Wilstermann, uma injeção de ânimo imensurável. O River, entretanto, não aprendeu com seu próprio exemplo. Acabou ele mesmo sendo vítima de uma das maiores viradas da história da Libertadores.

A vitória por 1 a 0 no pulsante Monumental de Núñez, durante o jogo de ida na última semana, concedia uma vantagem interessante ao River Plate. Um gol em La Fortaleza aumentava ainda mais o nível de dificuldade ao Lanús. Por isso mesmo, a iniciativa nesta terça precisava ser do Granate. As arquibancadas não estavam completamente lotadas, mas faziam barulho como se estivessem, com um recebimento caloroso para empurrar os anfitriões. O time de Jorge Almirón iniciou o segundo jogo das semifinais partindo para cima. Criou boas chances nos instantes iniciais. Até que sua probabilidade de classificação fosse reduzida às casas decimais a partir dos 14 minutos.

Primeiro, o River Plate deu seu aviso com um impedimento mal marcado pela arbitragem, em lance no qual Nacho Scocco acertou a trave. Na sequência, os Millonarios tiveram um pênalti a seu favor, sob protestos dos adversários. O próprio atacante converteu e abriu o placar. Já aos 22, os visitantes ampliaram para 2 a 0. Pity Martínez cruzou a bola na área e, sem que o goleiro Esteban Andrada conseguisse segurar, Gonzalo Montiel apareceu para marcar no rebote. Neste momento, o time de Marcelo Gallardo possuía uma vantagem de três gols no placar agregado. E só corria o risco de ser eliminado caso sofresse quatro, por ainda ter anotado mais tentos fora de casa. Parecia improvável um desastre. Pois ele aconteceu, com contornos apoteóticos.

Afinal, o River Plate poderia ter feito mais durante o primeiro tempo. Os Millonarios continuaram criando oportunidades mais claras, finalizando de maneira displicente. Além disso, reclamaram com razão de um toque de mão dentro da área, em pênalti ignorado pelo VAR. E a ressurreição do Lanús começou pouco depois, nos acréscimos da etapa inicial, com os decanos grenás. Lautaro Acosta passou para José Sand chutar firme, estufando as redes e reavivando as esperanças. Os ânimos esquentavam, com muita discussão na saída para os vestiários. Os anfitriões precisavam de uma postura contundente na volta do intervalo. Exatamente o que aconteceu. Logo no primeiro minuto, o Granate brigou pela bola e Sand mais uma vez foi agraciado com a oportunidade, que ele não desperdiçaria, batendo de canhota para vencer Germán Lux. O jogo estava empatado em 2 a 2. Restavam 45 minutos. Faltavam dois gols.

Logo na sequência, o River Plate teve a chance de retomar a vantagem, parando no goleiro Andrada. Contudo, o momento era do Lanús. Impressionava a postura ofensiva dos grenás, propondo o jogo e se impondo no campo de ataque, atuando com a equipe bastante adiantada. Pressão que surtiu efeito. Inspiradíssimo, Sand fez excelente jogada pelo lado esquerdo. O centroavante de 37 anos pareceu um ponta de 17, passando para Alejandro Silva. O uruguaio preparou o lance para Lautaro Acosta dentro da pequena área, e o camisa 7 só escorou. A virada se consumava, com o placar apontando 3 a 2. Já não tinha como duvidar da façanha que se formava em La Fortaleza. Mas a torcida ainda ansiava por mais um gol.

Por fim, aos 19 minutos, o lance capital. Nicolás Pasquini caiu dentro da área e o árbitro Wilmar Roldán ia anotando apenas o tiro de meta. Todavia, diante do recurso, o colombiano acionou o VAR. Conferiu um puxão sobre o jogador do Lanús. E apontou a marca da cal, depois de algum tempo de conferência. Na cobrança, diante de todos os olhares, Alejandro Silva teve uma calma imensa para apenas deslocar o goleiro Germán Lux e mandar a bola para dentro. Então, o que parecia apenas uma matemática ínfima se tornava a mais pura realidade. Os grenás tiraram quatro gols de diferença e tinham o resultado nas mãos, com o placar de 4 a 2 – no agregado, 4 a 3.

Mas selar a classificação não seria tão simples. A Libertadores se joga na intensidade. E o primeiro teste cardíaco aconteceu aos 29, em chute de Javier Pinola que resvalou na trave. O River Plate seguia na luta. Durante os 20 minutos finais da partida, o Lanús tentou buscar os contra-ataques. De qualquer forma, as chances dos Millonarios eram bem mais concretas. Foi quando se agigantou o goleiro Andrada. O camisa 28 realizou três defesas difíceis, negando o terceiro gol ao River. A entrada de Nicolás de la Cruz deu vigor aos visitantes, mas o caminhar dos ponteiros era impiedoso. A cada instante, o tempo sufocava. Seriam cinco minutos de acréscimos, em que o desespero bateu mais forte depois que Nacho Fernández foi expulso, deixando o River com um a menos. Nos lances derradeiros, apenas o jogo aéreo permitia alguma sobrevida. Lux foi para a área. Mas a bola se recusou a entrar. A noite era grená.

As cenas que se seguiram em La Fortaleza representaram o mais puro júbilo do Lanús. Das lágrimas de desespero, os torcedores começaram a chorar de alegria. Muitos pareciam não acreditar no que estavam vendo. Já em campo, enquanto os jogadores do River Plate também choravam, de impotência, a comemoração do Granate era ampla. O elenco inteiro se abraçava e abria o sorriso, com alguns invasores se juntando à massa grená. Não se podia negar o regozijo no maior momento do clube.

Ao River Plate, resta o tormento. Os Millonarios investiram no sonho da Libertadores, contrataram jogadores. Terminam revivendo um pesadelo de certa forma repetido. A vitória por 2 a 0 se transformou em derrota por 4 a 2, como havia acontecido na emblemática final de 1966 contra o Peñarol, que rendeu o apelido de galinhas. A gozação dos rivais, mais uma vez, não terá fim. E por mais que o time de Marcelo Gallardo possa reclamar da seletividade da arbitragem no uso do VAR, o que dá margem à discussão, precisa reconhecer os próprios erros. A postura concentrada que sobrou contra o Jorge Wilstermann faltou em La Fortaleza. E quando os visitantes tentaram recobrar os sentidos, já era tarde demais.

Melhor ao Lanús, que ganha uma vitória para os seus livros. Para ser recontada aos netos e aos netos dos netos de seus torcedores. O que se viveu nesta terça fica impregnado na retina e gravado na mente para sempre. Rumo a uma final que os grenás também esperam nunca esquecer. Seja contra Grêmio ou Barcelona, os argentinos terão a vantagem de fazer o segundo jogo em casa, no mesmo estádio onde renasceram contra San Lorenzo e River Plate. Se alguém possuía qualquer descrença no time de Jorge Almirón, elas caíram por terra nesta noite. Uma noite de Libertadores em sua essência, e com um protagonista inédito avançando à decisão.

Confira as escalações e as estatísticas do jogo no site da Conmebol.