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É muito comum ouvir que no passado, aquele, distante, os estádios cabiam muito mais gente (isso é verdade) e que era normal qualquer jogo ter 80, 90 100 mil pessoas. Parece que antes os estádios viviam lotados e é esse futebol de hoje que estragou tudo. Sinto ser portador de más notícias, mas isso não é verdade. Havia estádios vazios nos anos 1950, 1960 e 1970 também.

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Quer ver um exemplo? Em 1960, o Campeonato Paulista era a principal competição para os clubes paulistas, já que o Campeonato Brasileiro – Taça Brasil, na época – ainda na tinha o peso que tem hoje. E bom lembrar: era a época do espetacular Santos de Pelé, um dos maiores times de todos os tempos. E como era a média de público da época?

Apenas 6.027 pessoas por jogo. O melhor público daquele ano foi Palmeiras x Corinthians, disputado no dia 3 de novembro, teve 56.901 pessoas no Pacaembu – na época, o Morumbi tinha acabado de ser inaugurado e ainda estava parcial, só foi terminado em definitivo em 1970.

Claro que havia jogos com públicos enormes, mas também havia jogos com públicos muito baixos. Houve médias de público de mais de 20 mil pessoas por jogo em algumas edições, não muito diferente do que acontece atualmente no Brasileirão. No Campeonato Carioca, não é difícil encontrar jogos de Vasco de Roberto Dinamite, do Flamengo de Zico, do Fluminense de Rivellino e do Botafogo de Garrincha com poucas pessoas. Acontecia.

Em 1983, ano da melhor média de público da história do Brasileirão, o Flamengo chegou a jogar com o Tiradentes, do Piauí, com 6.864 pessoas no Maracanã. E olha que era o timaço que tinha em Zico o seu grande craque. Ele, aliás, marcou os dois gols na vitória por 2 a 0. E olha que naquele ano o Flamengo levou mais de 100 mil pessoas em alguns jogos.

Mesmo assim, pouco tempo depois da conquista do Brasileirão daquele ano, o time enfrentou o Grêmio pela Copa Libertadores. Público no Maracanã: 6.145 pessoas. E o Flamengo não era exceção. Esse é a regra: os clubes fazem jogos com pouquíssimo público ao longo do ano. Mesmo naqueles anos que se diz que os estádios estavam sempre cheios.

Só seis edições do Campeonato Brasileiro (contando todas as edições, incluindo Taça Brasil e Taça Roberto Gomes Pedrosa) tiveram média de público acima de 20 mil pessoas. A melhor da história é de 1983 (22.953), seguida por 1969 (22.067), 1987 (20.877), 1980 (20.792), 1967 (20.645), 1971 (20.360) e 1970 (20.259).

Em todos, há jogos com público baixo, incluindo também dos times grandes. Mas são os jogos que não entram na memória, porque não eram decisivos. Normalmente os jogos lembrados são os clássicos e as finais. Nunca o campeonato como um todo – e aí até os mortos-vivos estaduais atuais podem parecer.

Nos últimos 10 anos, as melhores médias de público do Brasileirão foram em 2007 (17.471), 2009 (17.807) e 2015 (17.055). As informações são do site Futdados. Nós já mostramos na Trivela que nenhum clube brasileiro se iguala à média história de pública dos grandes clubes europeus.  E olha que tem melhorado, já que atualmente temos sete clubes que passam dos 20 mil pagantes de média no Brasileirão (Palmeiras, Corinthians, Internacional, Cruzeiro, Flamengo, Grêmio e São Paulo).

Lotar jogos contra os rivais, ou jogos decisivos, isso é histórico no Brasil. O que foge à história é ter jogos com estádios cheios a cada rodada, como Corinthians e Palmeiras passaram a fazer a partir, especialmente, de 2015. Em parte, por causa dos novos estádios, em parte também pelos programas de sócio-torcedor.

Ainda vemos muitos jogos com público baixo e eles também entram na média. Há vários fatores a serem considerados, como a questão econômica, mas o principal fator segue sendo cultural. Em geral, o torcedor brasileiro não gosta de ir em jogos que “valem pouco” ou quando o time não está bem. É muito comum ouvirmos “Vou pagar para ver esse time horroroso?”. Pois é. É aí que entra o fator cultural.

Não podemos cair nesse conto que “antigamente os estádios enchiam em todos os jogos”. Não se enganem. Jogos contra times pequenos ou de outros estados esteve, em grande parte das vezes, com muitos lugares vazios nas arquibancadas. Não é nenhuma novidade. É histórico. A questão, então, é: como fazer para mudar isso? Há de se pensar.