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Até hoje, o Japão tenta dar um jeito no seu projeto mais ousado para a Copa

Qualquer cidade que queira sediar a Copa do Mundo precisa pensar em seu futuro após o torneio. Faz parte do bê-á-bá. Saber qual será o uso do estádio e quando os gastos serão cobertos. Se o esforço todo em receber o torneio mais importante do planeta, afinal, vale mesmo a pena. É o tal legado esportivo, requisito básico em qualquer candidatura ao Mundial. E que, por mais que pareça bem feito, precisa ser extremamente realista. Ou criará um grande elefante branco, como o estádio de Miyagi, no Japão.

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Todos os passos do governo da província de Miyagi pareciam exemplares. A arena seria apenas parte de seu projeto esportivo, inserido em uma metrópole com milhões de habitantes e tendo um clube à disposição. Não passava de teoria. Logo nos primeiros meses após a Copa de 2002, o prejuízo começou a ficar evidente. Uma construção que ainda hoje não se pagou e acumula cada vez mais ônus aos seus donos.

Os planos esportivos de Miyagi eram promissores

O Japão foi escolhido para sediar a Copa de 2002 seis anos antes. A candidatura do país se ensaiava desde a década de 1980 e era a favorita para ganhar o pleito no Comitê Executivo da Fifa. E isso foi ratificado com a campanha em conjunto com a Coreia do Sul – algo que, de início, muitos nipônicos eram contrários, mas ao qual acabaram cedendo diante de pressões da Fifa. Organizar o Mundial em dois países não foi das tarefas mais simples (como explicamos aqui) e, como sul-coreanos e japoneses já haviam designado suas cidades, 20 estádios receberiam a competição, dividida entre os dois territórios.

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O impacto da Copa do Mundo no Campeonato Japonês seria direto. A J-League foi criada em 1993, justamente o ano em que o país oficializou sua intenção em receber o torneio. Mais do que os craques estrangeiros que chegavam aos clubes locais naquele período (como Zico e Gary Lineker), o Mundial serviria para consolidar o futebol profissional. Construir ou reformar os estádios, portanto, seria também uma forma de fomentar a modalidade.

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Já em 1993, 15 cidades japonesas se candidataram para sediar o Mundial. O país previa até 12 estádios, mas a parceria com a Coreia do Sul limitou esse número a dez. Além disso, alguns municípios importantes acabaram ficando de fora do processo. Tóquio nem sequer manifestou sua vontade, já que não tinha intenção de colocar uma cobertura sobre o Estádio Nacional e Yokohama, dentro de sua região metropolitana, já era fortíssima no páreo. Da mesma forma, Hiroshima foi eliminada por ter que interferir no padrão arquitetônico do Grande Arco de Hiroshima, seu estádio construído para os Jogos Asiáticos de 1994 – o que acabou repercutindo bastante, diante da representatividade da cidade como símbolo de paz.

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Por divisão regional, foram escolhidas Yokohama, Saitama, Sapporo, Shizuoka, Osaka e Oita, apontadas por suas possibilidades em manter grandes estádios. Sobravam quatro vagas, disputadas por mais oito cidades. Ao lado de Ibaraki, Kobe e Niigata, Rifu, na província de Miyagi, foi uma das escolhidas por seu projeto esportivo. Ficaram de fora outras cidades importantes do Japão, como Kyoto e Nagoia – coração da quarta maior região metropolitana do Japão, que já havia fracassado na tentativa de receber os Jogos Olímpicos de 1988.

Do ponto de vista político e econômico, a escolha de Rifu era totalmente compreensível. A região metropolitana de Miyagi conta com mais de 2,3 milhões de habitantes, a principal do norte de Honshu, a maior ilha do Japão. Além disso, os planos do governo local para o estádio se sugeriam bastante viáveis. Ao invés de construir apenas um campo de futebol, as autoridades locais planejavam levantá-lo em meio a um parque, com outras instalações esportivas. A arena da Copa era apenas a cereja do bolo da cidade-sede.

O dono do estádio nunca existiu

Apenas três estádios japoneses da Copa de 2002 não foram construídos exclusivamente para a competição. O de Yokohama, no entanto, tinha sido inaugurado em 1998, independentemente da escolha do Japão como sede do Mundial. Já os de Osaka e Kashima passaram por reformas amplas. Dos sete novos estádios, o único que não possuía um time na J-League era o de Niigata, o que logo foi resolvido com a inclusão do Albiirex na segunda divisão, a partir de 1999. Ainda assim, Rifu ficou sem dono.

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O candidato a assumir o estádio local era o Vegalta Sendai, time da principal cidade da região metropolitana. O problema é que o clube já possuía sua casa própria desde 1997. O estádio Yurtec havia sido inaugurado em junho de 1997, com capacidade para 20 mil torcedores. Não atendia os padrões da Fifa para ser uma das sedes da Copa, mas era bom o suficiente para o clube que militava na segunda divisão da J-League. Além disso, o projeto do parque esportivo de Miyagi ficava distante demais para o deslocamento de seus torcedores. Só o usaria ocasionalmente, em grandes partidas.

Mesmo com a impossibilidade de contar com o Vegalta Sendai, a província de Miyagi resolveu levar em frente seu projeto. Para baratear os custos, a estrutura das arquibancadas seria construída sobre um morro. Na arquitetura, todavia, resolveram não economizar. O desenho da cobertura feito por Hitoshi Abe (que se tornou um dos arquitetos mais celebrados do país a partir de então e ganhou prêmios por sua obra) fazia referência ao capacete de um samurai. Além disso, o campo rebaixado fazia com que o estádio estivesse integrado ao parque. Com capacidade para 49 mil espectadores, o complexo custou US$ 585 milhões aos cofres públicos.

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A princípio, o Estádio de Miyagi se sugeria sustentável. A pista de atletismo permitia não apenas competições da modalidade, como também eventos estudantis, comuns no Japão. O telão de alta definição, o melhor entre os estádios da Copa de 2002, foi instalado justamente nessa intenção. E também havia a expectativa para que o local também se tornasse palco de jogos de rúgbi e futebol americano. Com o passar do tempo, percebeu-se que eram apenas ideias.

A casa do trauma japonês

Após quatro anos de obras, o Estádio de Miyagi foi inaugurado em março de 2000. Três meses depois, o local já recebia a primeira visita da seleção japonesa, em empate contra a Eslováquia. E o uso da construção foi frequente naqueles primeiros anos. Ainda em 2000, o All-Star Game da J-League e o Campeonato Japonês de Atletismo foram realizados lá. No ano seguinte também houve o Festival Nacional de Esportes e o Festival Nacional Paraolímpico. Testes mais do que suficientes para o grande evento, a Copa do Mundo.

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Antes mesmo da realização do Mundial, porém, surgiram críticas estruturais. Havia problemas no acesso ao estádio, que custaram mais alguns milhões ao governo de Miyagi, assim como de visibilidade nas arquibancadas. A cobertura não protegia os torcedores totalmente da chuva. Além disso, a distância da região urbana era um grande problema. Para se chegar ao parque, era preciso pegar dois trens e um ônibus, em viagem que não durava menos de uma hora.

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Independentemente disso, Miyagi sediou três partidas da Copa de 2002. México 2×1 Equador e Suécia 1×1 Argentina, ambos pela primeira fase, com 45 mil presentes nas arquibancadas. E casa cheia também para assistir à traumática eliminação dos japoneses para a Turquia, nas oitavas de final. Ümit Davala marcou o gol que selou a vitória por 1 a 0 dos turcos, acabando com o sonho dos Samurais Azuis ali. A partir daquele momento, tanto quanto uma arena problemática ou subutilizada, o Estádio de Miyagi passou a ser considerado como fonte de azar para os sempre supersticiosos japoneses.

A crise imediata e o terremoto de 2011

O Vegalta Sendai chegou à elite da J-League em 2002, mas continuou jogando no Estádio Yurtech. A distância dificultava os eventos no parque esportivo de Miyagi, que ficou ao bel prazer de quem resolvesse visitá-lo. Tanto é que, a partir do ano seguinte, até casamentos passaram a ser realizados no campo onde os Samurais Azuis foram eliminados no Mundial. Embora as médias de público do futebol japonês tenham crescido gradualmente desde a Copa, muitos estádios tiveram problemas para ficarem cheios nos meses seguintes ao torneio. Nenhum deles mais vazio que o de Miyagi.

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Uma dos caminhos seria explorar o beisebol, o esporte mais popular do Japão. A partir de 2005, Sendai passou a contar com o Tohoku Rakuten Golden Eagles, equipe na NPB, a liga de beisebol profissional do país. Contudo, a prefeitura de Miyagi achou mais viável reformar o estádio de beisebol da cidade, existente desde a década de 1950, a aproveitar seu recém-construído parque esportivo. Em 2013, o estádio Kleenex Miyagi foi o palco da glória dos Golden Eagles com a conquista da Japan Series, a principal competição do beisebol japonês.

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Enquanto isso, o Estádio de Miyagi permanecia ao relento. Em 2005, a seleção japonesa voltou à cidade para um amistoso contra Honduras. Perdeu por 5 a 4. Quatro anos depois, outra partida, desta vez ante Togo. E a goleada por 5 a 0 só reforçou o estigma da maldição sobre o local. O Vegalta Sendai também fazia entre um e dois jogos anuais no campo. Entretanto, os públicos eram relativamente baixos e somente em 2009 veio a primeira vitória como mandante, depois de sete partidas em jejum. Naquela temporada, inclusive, o clube disputou 14 partidas em Miyagi, enquanto o gramado do Estádio Yurtec era trocado.

Já em 2011, a região de Miyagi foi atingida por um terremoto de 9.0 na escala Richter, seguido por tsunami. A catástrofe matou 15 mil pessoas e deixou um prejuízo estimado de US$ 20 bilhões. O Estádio Yurtec, inclusive, foi afetado e teve parte de sua estrutura danificada. No entanto, o Vegalta Sendai permaneceu em sua casa, enquanto era reformada. Ileso ao desastre, o Estádio de Miyagi passou a servir de abrigo às vítimas, assim como as outras instalações em seu parque esportivo.

Os novos eventos e o futuro do Estádio de Miyagi

Somente dez anos depois da Copa do Mundo é que o Estádio de Miyagi voltou a ser sede de um torneio esportivo. A cidade foi uma das escolhidas para o Mundial Sub-20 feminino. Nada que empolgasse muito. Foram dois jogos da seleção japonesa, que levaram mais de 9 mil pessoas. Em contrapartida, o Vegalta Sendai diminuía sua carga de jogos no local, o que o tornava ainda mais deficitário para a prefeitura.

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Em estudo feito naquele ano, durante os 365 dias de 2011, o público total em eventos no Estádio de Miyagi foi de 78 mil pessoas. Apenas 1,6 do total de sua capacidade, o menor índice entre 59 estádios estudados. Ao mesmo tempo, a manutenção do local consumia metade dos quase US$ 6 milhões gastos por ano pelo poder público com o parque. Os US$ 3 milhões gerados por ano pelo complexo esportivo ajudavam a diminuir o rombo, mas uma parte ínfima disso era gerada pelo estádio, limitado a alguns shows de música e jogos de clubes semiamadores.

O último grande evento esportivo no Estádio de Miyagi aconteceu em 2013. Novo amistoso da seleção japonesa, nova derrota: 4 a 2 para o Uruguai. Um alento foi dado com a escolha de Tóquio para sediar os Jogos Olímpicos de 2020, que garantiu a Miyagi um lugar entre as sedes do torneio de futebol. Graças a isso, a prefeitura fechou a acordo de naming rights com a Zen-Noh, a Federação Nacional de Cooperativas Agrícolas. Renderá US$ 50 mil por ano, muito pouco, mas já uma ajuda para bancar o elefante branco. E o pior: o local sequer foi escolhido para receber a Copa do Mundo de Rúgbi em 2019, preterido justamente pelo Yurtec. O projeto esportivo de Miyagi podia até parecer bonito para as autoridades e ser útil à população local. Como conceito de estádio, contudo, é um dos maiores fracassos das Copas.

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