Mário Travaglini foi campeão por Palmeiras, Corinthians, Vasco e Fluminense

Mário Travaglini foi o líder de uma academia e de uma democracia

No Palmeiras, naquela época, funcionava mais ou menos assim. Um técnico deixava o cargo, e Mário Travaglini era convocado. Geralmente, o ex-zagueiro que nasceu no Bom Retiro exercia outras funções dentro do clube. De treinador das categorias de base a administrador da sede social. Foi ali, na década de 1960, que o paulista, morto na última quinta-feira por causa de um tumor no cérebro, deu os primeiros passos de uma carreira vitoriosa, com títulos em quatro times grandes de São Paulo e Rio de Janeiro.

Ser interino não prejudicava o respeito que os jogadores tinham por ele. Até porque, o seu estilo de administrar o grupo era muito mais pautado pela compreensão do que pelo autoritarismo. Ouvir mais do que falar. Os seus comandados dizem que ele dominava a tal língua do boleiro, que não tem regra gramatical e não faz parte do currículo de nenhuma escola, mas é essencial para trabalhar com o futebol.

Não à toa, esse estilo casou perfeitamente com a Democracia Corintiana, no início dos anos 1980. Um treinador que aceita fazer as coisas de um único jeito – o dele – não conseguiria lidar com aquela dinâmica, que colocava as decisões do cotidiano em votação entre os jogadores e funcionários do clube.  Sua diplomacia também se estendia aos colegas. Foi, por muito tempo, o presidente do Sindicato dos Treinadores de São Paulo.

No Rio de Janeiro, Travaglini levou ao Vasco ao seu primeiro título brasileiro, em 1974, um campeonato que teve a participação de 50 clubes, e foi campeão carioca com o Fluminense, dois anos depois. Também foi assistente de Cláudio Coutinho na campanha da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1978 – aquela que se considera campeã moral -, mas a sua carreira foi mais marcada pelas passagens por São Paulo.

O melhor interino

Mário Travaglini

Mário Travaglini começou a carreira no Clube Atlético Ypiranga e atuou no Palmeiras, antes de encerrar sua carreira de zagueiro antes dos 30 anos. Formado em economia, foi contratado pelo clube paulista em 1963 e teve sua primeira sequência como treinador interino no ano seguinte. Ficou 12 jogos à frente do time, com oito vitórias.

Nos três anos seguintes, também quebrou o galho quando era necessário e é impossível dizer que não fez um excelente trabalho. Foi um dos nove homens que treinaram a Primeira Academia do Palmeiras. Sem tirar nenhum centímetro do mérito dele, com Ademir da Guia, César Maluco e Julinho Botelho, não era tão difícil assim.

Travaglini assumiu o Palmeiras em sétimo lugar no Campeonato Paulista, depois da saída de Filpo Nuñez, em 1965, e fez a sua primeira grande campanha. Levou o time à segunda colocação do torneio, que foi vencido pelo Santos com 25 vitórias em 30 jogos. Era muito difícil acompanhar o ritmo daquele time liderado por Pelé. Ainda assim, em 12 de dezembro daquele ano, carimbou a faixa do rival com uma goleada por 5 a 0 no Parque Antártica.

Ele voltou para as suas funções administrativas no começo do ano seguinte. O paraguaio Fleitas Solich, de currículo recheado, ex-treinador do Flamengo e do Real Madrid, cotado para a seleção brasileira em 1958, foi contratado, mas sua passagem não durou muito tempo. Segundo o próprio Travaglini, em entrevista ao blog do jornalista Paulo Vinícius Coelho, da ESPN Brasil, o treinador deixou o clube por desentendimentos com Ademir da Guia. Estava escalando-o de ponta-esquerda.

Travaglini foi técnico por apenas quatro jogos naquela temporada e pode se considerar campeão paulista, mas ele não se esqueceu de quem havia levado o time até ali. Pediu que a diretoria convidasse Solich para o jogo do título, contra o Comercial, em Ribeirão Preto. O Palmeiras ganhou por 5 a 1.

A maior glória dele com o clube veio em 1967. Travaglini substituiu Aymoré Moreira, que também ficou pouco tempo, e chegou à decisão da Taça Brasil. Depois de vencer o Náutico por 3 a 1, no Recife, o Palmeiras precisava apenas ganhar em São Paulo que se sagraria campeão.

A tranquilidade era tanta que o treinador permitiu que Ademir da Guia fosse para o Chile acertar os detalhes do seu casamento. O Divino voltou em cima da hora para a segunda partida e ficou no banco de reservas. Entrou no final do primeiro tempo no lugar de Lula, mas não foi suficiente. O Palmeiras perdeu por 2 a 1, em casa, e precisou decidir em campo neutro. No Maracanã, não teve jeito: 2 a 0, um de Ademir e outro de César. Liberar o craque do time daquele jogo, uma final, pode ter sido arriscado? Talvez, mas ele confiava nos seus jogadores e, principalmente, os compreendia.

Essencial para a democracia

Depois de duas campanhas fracas, 26º no Campeonato Brasileiro e 8º no Paulista, o Corinthians precisava de uma mudança de rumos. Adílson Monteiro Alves foi apontado diretor de futebol pelo presidente Waldemar Pires e tinha a responsabilidade de fazer a ponte entre os jogadores e a diretoria. Diferente de outros dirigentes, dos tais cartolas, o sociólogo aceitava e incentivava a participação dos jogadores, que decidiam, por meio do voto, desde contratações a locais de concentração.

As boas atuações em campo legitimaram o movimento, mas o jogo de cintura de Travaglini, contratado em 1982, foi tão importante quanto. Um treinador mais autoritário, que fizesse questão de impor a sua vontade, poderia ter atrapalhado. A experiência de dar liberdade aos jogadores vinha desde os tempos do Palmeiras, quando se consultava com atletas como Julinho Botelho e Djalma Santos.

“Nós discutíamos a forma de jogar do time e eu procurava dar bastante abertura, mas sem esquecer a autoridade. Só que a autoridade não se demonstra com autoritarismo, e sim com respeito e diálogo”, explicou, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em dezembro de 2012, época da comemoração dos 30 anos do primeiro título paulista daquele time.

Travaglini ao lado de Adílson, o diretor de futebol que permitiu a Democracia Corinthiana

Travaglini ao lado de Adílson, o diretor de futebol que permitiu a Democracia Corinthiana

Naquela época, havia algumas coisas estranhas. O Campeonato Brasileiro abria a temporada. Pela campanha no estadual anterior, o Corinthians precisou jogar a Taça de Prata de 1982, o equivalente à segunda divisão. Passou invicto e, naquele mesmo ano, chegou às semifinais da Taça de Ouro, mas acabou derrotado pelo Grêmio. A força da equipe era evidente e seria comprovada no semestre seguinte.

Com seis vitórias nos oito primeiros jogos, o clube foi campeão do primeiro turno e poderia ter selado o título na última rodada do segundo, mas perdeu do São Paulo. Nenhum problema. O Corinthians venceu os dois jogos da final contra o time do Morumbi e conquistou o título, uma evidência sólida e palpável de que a Democracia poderia funcionar.

Não são poucos os relatos de jogadores daquele time que colocam muito dos méritos do movimento ter funcionado na conta de Travaglini. Wladimir, por exemplo, foi taxativo, em entrevista à Folha de S. Paulo: “Se não fosse a anuência dele, talvez o movimento não tivesse existido”.

Travaglini saiu em 1983 e deu lugar ao lateral direito Zé Maria. Os jogadores posteriormente escolheram Jorge Vieira, de formação militar, e pouco afeito a essas implicâncias democráticas. No ano seguinte, Sócrates e Casagrande deixaram o clube e a Democracia levou mais um golpe. O fatal veio em 1985, com a eleição de Vicente Matheus, que venceu a chapa de Adílson, com o apoio de Waldemar Pires.

De qualquer forma, o legado de Travaglini foi além das táticas modernas de futebol – movimentação constante e polivalência dos jogadores – que tentava implementar. Deixou uma aula para os professores que falam difícil e acham que sabem mais do que todo mundo. Se para os mais jovens fica a imagem do velhinho careca usando boína, visual que adotou nos últimos anos de vida, para o futebol fica a comprovação de que é possível ser vitorioso na base do diálogo e da compreensão.