É claro que o Chelsea tinha uma história antes e outra depois de ser comprado por Roman Abramovich. E o que ocorreu com o clube inglês em diante foi tão marcante que fez muitos acharem que o Chelsea “era um pequeno que virou gigante”. Certo, até virou gigante. Só que os Blues já tinham uma história digna de certo respeito dentro da Inglaterra. E um dos principais nomes dessa história – até símbolo da transição entre os tempos médios e os faustosos – faleceu nesta quarta: Ray Wilkins, vitimado por um ataque cardíaco aos 61 anos.

Nascido em 14 de setembro de 1956, Wilkins protagonizou mais uma versão de uma história relativamente comum na Inglaterra: desde criança torcedor do Chelsea, “Butch” (apelido de infância) começou nas categorias de base, e foi progredindo até chegar aos juniores, no início dos anos 1970. E finalmente, estreou no time principal do Chelsea aos 17 anos, em 26 de outubro de 1973, numa vitória por 3 a 0 sobre o Ipswich Town. Não bastasse isso, Ray ainda tinha mais dois irmãos atuando no clube: Graham e Stephen, que logo deixaram o futebol de lado.

Era um momento de baixa na história da agremiação de Stamford Bridge, rebaixada à segunda divisão em 1974/75. Mas justamente naquele momento, Wilkins tomou a frente, mesmo numa idade precoce: aos 19 anos, em 1975, diante da saída de jogadores mais famosos, o novato foi promovido a capitão da equipe pelo técnico Eddie McCreadie. Deu certo: em 1976/77, com o atacante como destaque, o Chelsea voltou à divisão de elite inglesa. O atacante foi eleito em dois anos seguidos (justamente 1976 e 1977) o Jogador do Ano no clube. De quebra, as boas atuações levaram o nativo de Hillingdon a ser convocado pela primeira vez para a seleção do país – estreando contra a Itália, no Torneio do Bicentenário da Independência dos Estados Unidos (sim, aquele vencido pelo Brasil com uma goleada por 4 a 1 sobre os italianos na final).

Aquele momento irregular da história do Chelsea foi vitimado com mais um rebaixamento, em 1978/79. E já estava evidente que, diante dos problemas financeiros, os Blues teriam de se desfazer daquele que já se convertia em um dos símbolos do clube. Dito e feito: em 1979, houve a venda ao Manchester United. Em Old Trafford, Wilkins seguiu mostrando talento, mas também se deparou com uma realidade problemática quando o assunto era título: em seus cinco anos nos Red Devils, só ganhou uma Copa da Inglaterra, em 1982/83, e uma Supercopa Inglesa, em 1983 – notabilizando-se apenas por ter feito gol na primeira partida da final, um 2 a 2 contra o Brighton (o United conquistou o título com um 4 a 0 no “replay”). Pelo menos, na seleção inglesa, Wilkins seguia útil: esteve na Euro 1980, sendo raro destaque na campanha inglesa com um bonito gol contra a vice-campeã Bélgica, e na Copa de 1982.

A dicotomia vivida por Wilkins – clubes em má fase, seleção mais tranquila – seguiu rumo ao final da década de 1980. Em 1984, ele foi mais um jogador inglês a se arvorar no exterior – no caso, na Itália, indo fazer companhia a Mark Hateley no Milan. Jogando pelos rubro-negros, novamente faltou um título de vulto (o máximo a que o Milan chegou, naqueles tempos finais pré-Berlusconi, foi a final da Copa da Itália, em 1984/85). Mas na seleção inglesa, Wilkins seguiu ativo, e chegou ao grupo convocado para a Copa de 1986. Naquele Mundial, todavia, ele teve participação ruim: foi expulso no 0 a 0 contra Marrocos – só dois minutos após levar o primeiro amarelo -, sendo o primeiro inglês a receber o cartão vermelho numa Copa. Ainda voltaria para alguns jogos das Eliminatórias da Euro 1988, mas aquele ano foi o ponto final do atacante com a equipe nacional, após 84 partidas e três gols.

Deixando o Milan em 1987, para passagem discreta e rápida de seis meses pelo Paris Saint Germain, Wilkins teve a fase final da carreira marcada pelas passagens por Rangers (dois anos entre 1987 e 1989, comemorando o título escocês em 1988/89 e ainda marcando gol num dos clássicos contra o Celtic naquela temporada, virando ídolo da torcida) e Queens Park Rangers (cinco anos, entre 1989 e 1994 – sendo até “jogador-técnico”, no último ano). Mais uma fase rápida no Leyton Orient, um rápido retorno ao QPR em 1996, e estava encerrada a carreira, dentro de campo.

Fora, Wilkins começou imediatamente como técnico em 1997, no Fulham. Lá, sua demissão foi turbulenta: tendo conduzido o time aos play-offs de acesso, saiu após os Cottagers perderem os três jogos finais na temporada regular – e seu sucessor, Kevin Keegan, não só fracassou ao tentar a promoção, mas também passou a ter relação fria com Wilkins, de relações ótimas nos tempos de seleção inglesa. E fora de campo, enfim, Wilkins voltou ao seu primeiro amor: o Chelsea. Primeiro, nos tempos de Gianluca Vialli como técnico, entre 1998 e 2000 (ainda seguiria o italiano no Watford). Depois, em 2008, como auxiliar de Luiz Felipe Scolari – e até sucedendo o brasileiro após sua demissão, em caráter interino até a chegada de Carlo Ancelotti, a quem continuou secundando nas conquistas do Campeonato Inglês e da Copa da Inglaterra em 2009/10.

Demitido do Chelsea já no final de 2010, Wilkins ainda teve passagens pelo Fulham – meros dois meses, entre dezembro de 2013 e fevereiro de 2014 – e pela seleção da Jordânia. Em meio a isso tudo, já sofria problemas decorrentes do uso de bebida, como detenções em 2012 e 2013 e a descoberta de uma colite ulcerosa em 2014. Finalmente, agora, o ataque cardíaco que o matou. E que motivou, afinal, uma despedida saudosa do Chelsea, clube que deu guarida a Wilkins nos tempos de grandeza mediana e de fama planetária.