Mesmo para quem gosta de futebol, o nome de Vujadin Boskov não é necessariamente lembrado de imediato. O sérvio estava afastado dos holofotes já havia um bom tempo, desde que deixou a seleção da Iugoslávia em 2000. Mas basta falar de seu legado para que o veterano, falecido neste domingo, tenha seu trabalho reconhecido imediatamente por muitos. Boskov talvez nunca seja colocado entre os melhores técnicos da história. Ainda assim, ajudou a impulsionar alguns dos melhores times e dos melhores jogadores.

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Afinal, Boskov formou um dos melhores times da história da Serie A, justo no auge do futebol italiano. A Sampdoria tinha a sua história, mas estava longe de ser tão representativa quanto o rival Genoa, clube mais antigo do país e dono de nove títulos nacionais. Pois foi a partir do momento em que apostou no sérvio é que os blucerchiati mudaram sua trajetória. Tornaram-se não apenas uma potência nacional, como também uma força na Europa e uma das bases da seleção italiana.

“Ganhar é melhor do que empatar. Empatar é melhor do que perder. Perder é melhor do que ser rebaixado. Prefiro perder um jogo por 9 a 0 do que nove jogos por 1 a 0”.

Boskov já tinha passado por Gênova em seus tempos de jogador. O atacante já veterano passou uma temporada na Samp, depois de 14 anos como ídolo do Vojvodina e jogador da seleção Iugoslávia em duas Copas do Mundo. Como treinador, no entanto, tinha uma reputação ainda mais extensa. Comandou a seleção de seu país, foi campeão de La Liga e duas vezes da Copa do Rei pelo Real Madrid, onde treinou Vicente del Bosque e José Antonio Camacho. Deixou o Bernabéu depois de ser derrotado pelo Liverpool na final da Copa dos Campeões de 1981, mas recuperava seu moral na Itália, após levar o Ascoli de volta à Serie A. Era um técnico conhecido por ser muito prático, por valorizar à preparação física e à psicológica, por mesclar criatividade e tática.

Quando Boskov assumiu a Sampdoria, em 1986, o maior título do clube era uma Copa da Itália. Os blucerchiati viviam um período de alto investimento desde 1979, quando o empresário Paolo Mantovani assumiu a presidência. Ganharam ainda mais força financeira em 1988, quando o grupo industrial ERG passou a impulsionar a Samp. Ainda assim, o esquadrão só foi possível graças ao talento de Boskov no comando. A equipe passou a dar espaço para jovens jogadores, como Gianluca Vialli, Roberto Mancini e Gianluca Pagliuca, buscando também veteranos do calibre de Toninho Cerezo e Hans-Peter Briegel.

“Se vencemos, somos vencedores. Se perdemos, somos perdedores. Eles são eles, nós somos nós”.

O timaço logo passou a frequentar das primeiras posições da Serie A. Conquistou o bicampeonato da Copa da Itália em 1987/88 e 1988/89. Naquela mesma temporada, bateu na trave na Recopa Europeia, derrotado pelo Barcelona na decisão, mas se redimiu na edição seguinte, levantando a taça ao bater o Anderlecht na decisão. Em 1990/91, o grande feito da Samp, campeã italiana ao abrir cinco pontos de vantagem para os também fortíssimos times do Milan e da Internazionale. Conquista que garantiu a vaga na Copa dos Campeões. Os italianos chegaram a eliminar o timaço do Estrela Vermelha, que não podia jogar na Iugoslávia em guerra, mas era o atual campeão. Só não deu sorte na decisão, outra vez contra o carrasco Barcelona. Perdeu na prorrogação, com um célebre gol de Ronald Koeman cobrando falta, que garantiu o 1 a 0 para os blaugranas.

“Em minha vida, eu ganhei alguns títulos. Mas nenhum foi mais bonito que o Scudetto da Sampdoria, o mais doce. Porque eu ganhei a liga mais difícil e mais equilibrada do mundo. Foi a primeira vez que o clube celebrou essa conquista em meio século de existência. É parecido quando seu primeiro filho nasce. O orgulho é grandioso”.

Era o fim da linha para Boskov na Sampdoria. De lá, ele seguiu para a Roma, onde ficou por apenas uma temporada, mas ainda hoje tem a gratidão dos torcedores. Foi pelas mãos do sérvio que Francesco Totti estreou na equipe principal, com apenas 16 anos. A fraca campanha na Serie A foi a gota d’água para o técnico, que a partir de então passou a rodar por times intermediários na tabela, como Napoli, Perugia e a própria Samp. Ainda assumiu a Iugoslávia e foi quadrifinalista da Euro 2000, um ano antes de sua aposentadoria. Faleceu aos 82 anos, muitos deles colocados a serviço do futebol. Em sua honra, os jogos da Liga dos Campeões desta semana terão um minuto de silêncio.

Para recordar o grande time da Samp de Boskov, todos os gols do Scudetto de 1990/91