José Mourinho reclama. Sempre e muito. No jogo contra o West Ham, fez uma crítica à postura do adversário, que se fechou na defesa, e chamou de “futebol do século XIX”, e foi muito bem rebatido pela BBC. Isso sem falar no ridículo, já que ele mesmo já armou “ônibus” para barra adversários, notadamente o Barcelona, no comando de Internazionale e Real Madrid. Desta vez, a crítica do português é sobre a gastança do Manchester City, que segundo ele, é impossível de concorrer. Seria uma crítica compreensível se fosse de Arsène Wenger, por exemplo, mas vindo de alguém que é técnico do Chelsea, é uma situação ridícula.

“Se eles [as autoridades do futebol] querem fazer com que seja impossível competir com o City, é impossível”, disse o técnico. “O Chelsea não está competindo fora do que é importante para nós, o ‘justo’ Financial Fair Play. Nós estamos trabalhando, pensando e acreditando que o Financial Fair Play estará em prática. Então há coisas que são impossíveis para nós fazermos”, analisou o técnico.

Nós explicamos em 2011 o que é o Fair Play Financeiro.A ideia geral é impedir que os clubes gastem mais do que arrecadam. Ou seja: os clubes podem gastar o quanto quiserem, desde que esse valor não ultrapassem o valor que arrecadam. Em tese, isso protegeria clubes que não possuem donos bilionários. Em tese. Porque o Fair Play Financeiro é acusado de ser injusto e até ilegal. É uma outra discussão. O fato é que nesta temporada o Fair Play Financeiro começará a valer e só será tolerado um prejuízo pequeno no balanço dos clubes, que se não cumprirem podem perder suas vagas em competições europeias.

Portanto, a crítica de Mourinho faz até algum sentido se olharmos apenas para o Manchester City. O time tem receitas bastante duvidosas, como a venda do nome do seu estádio por mais de € 400 milhões. Por outro lado, é justo que o Fair Play Financeiro seja implementado e “congele” os grandes – ou seja, só eles podem gastar? É uma discussão válida. E que seria muito mais válida ainda sendo proposta por alguém que não tem teto de vidro. É o caso do Chelsea, que é um dos alvos dessa ideia do controle de gastos.

O Chelsea é um dos times que mais gastou nesses anos de gestão Abramovich. Desde que o russo assumiu o clube, já gastou mais de € 1 bilhão em dez anos à frente do clube. Mudou o Chelsea de patamar tanto na Inglaterra quanto na Europa e até no mundo. Só que precisou gastar muito dinheiro para isso. Se as regras do Fair Play Financeiro começassem a valer na época que Abramovich assumiu, ele não poderia ter gasto tanto dinheiro a fundo perdido, como foi, tendo prejuízo quase em todos os anos – a primeira vez que o time teve lucro foi na temporada que se sagrou campeão europeu, em 2011/12.

Fizemos um balanço entre valores recebidos e valores gastos em transferências no Chelsea desde a temporada 2003/04, a primeira sob o comando de Abramovich. Confira:

2003/04
Receitas de transferências: € 950 mil
Gastos de transferências: € 171,2 milhões

2004/05
Receitas: € 3,3 milhões
Gastos: € 161,9 milhões

2005/06
Receitas: € 34 milhões
Gastos: € 91,725 milhões

2006/07
Receitas: € 52,6 milhões
Gastos: € 94,7 milhões

2007/08
Receitas: € 44,65 milhões
Gastos: € 62 milhões

2008/09
Receitas: € 44,55 milhões
Gastos: € 30,5 milhões

2009/10
Receitas: € 3,915 milhões
Gastos: € 30 milhões

2010/11
Receitas: € 16,5 milhões
Gastos: € 126,5 milhões

2011/12
Receitas: € 32,4 milhões
Gastos: € 103,85 milhões

2012/13
Receitas: € 25,45 milhões
Gastos: € 115,2 milhões

2013/14
Receitas: € 71,88 milhões
Gastos: € 128,15 milhões

TOTAL
Receitas: € 330,195 milhões
Gastos: € 1.115 bilhão
Balanço: – € 785,53 milhões

Tudo isso significa que Mourinho pode até ter razão sobre o que fala sobre o Manchester City, mas ele mesmo deveria falar como o Chelsea fez para se tornar o time forte que é hoje. Em 2003, o time não tinha essa força, não poderia gastar tanto porque seu faturamento era baixo. Os anos a fio sem controle permitiram que o Chelsea mudasse o seu patamar e aumentasse substancialmente sua arrecadação. Agora, reclama do Manchester City, que faz o mesmo. Não seria melhor olhar para o próprio umbigo antes?