hansa1

Muito antes do RB Leipzig: O outro time da antiga Alemanha Oriental que foi sensação na Bundesliga

A rodada da Bundesliga começou com um banho de bola e fez dos líderes ainda mais soberanos. O RB Leipzig viajou até a Floresta Negra e goleou o Freiburg por 4 a 1. Um show de ofensividade dos Touros Vermelhos, com participação de seus principais prodígios: Naby Keita abriu o placar com uma bomba de fora da área; Timo Werner demonstrou sua capacidade nas finalizações com dois gols; Marcel Sabitzer infernizou pelo lado direito e também deixou o seu; já o grande maestro da noite foi Emil Forsberg, gastando a bola, com duas assistências. E se os novatos tinham tomado a primeira posição no último final de semana, ajudados pela vitória do Borussia Dortmund sobre o Bayern de Munique, agora eles abrem momentaneamente seis ponto de vantagem. Por mais uma semana, ninguém ultrapassará a equipe da Red Bull.

VEJA TAMBÉM: Por que o futebol da Alemanha Oriental ainda não se reergueu

A história do RB Leipzig é rara, e não só pela ascensão meteórica desde a quinta divisão. Esta é apenas a segunda vez que um time da antiga Alemanha Oriental aparece na primeira colocação da Bundesliga. A primeira em 25 anos. O último oriental a assumir o topo foi o Hansa Rostock, em 1991. Tempos nos quais os escombros do Muro de Berlim ainda eram recolhidos e o campeonato acabara de ser reunificado.

Nas décadas anteriores à divisão da Alemanha, o lado oriental sempre teve a sua representatividade no futebol nacional. Berlim, obviamente, concentrava grande número de clubes – embora os principais, na época da partilha da capital, tenham acabado na metade ocidental. De qualquer maneira, mais ao sul, a Saxônia era um dos centros mais proeminentes do esporte, desde que este começou a fincar raízes. A própria federação alemã foi fundada em Leipzig, cidade de onde saiu o VfB Leipzig. O clube, que anos mais tarde daria origem ao Lokomotive, faturou três títulos nacionais entre 1903 e 1913. Já a vizinha Dresden eclodiu em campo pouco antes da queda do Terceiro Reich. Em meio à destruição da Segunda Guerra Mundial, o Dresdner despontou como um esquadrão imbatível, bicampeão em 1943 e 1944. Justamente os dois últimos campeonatos antes da separação. Nascido em Dresden e artilheiro daquele time, Helmut Schön anos depois fugiria para Berlim Ocidental e, em 1974, dirigiria o Nationalelf na conquista da Copa do Mundo.

Após quatro décadas e meia com a Alemanha dividida, o Muro de Berlim começou a cair em novembro de 1989. A seleção oriental deixou de existir em setembro de 1990. Já a unificação dos campeonatos ocorreu em 1991/92. A Bundesliga tratou a antiga Oberliga como uma divisão inferior. Apenas os dois primeiros colocados da temporada derradeira, Hansa Rostock e Dynamo Dresden, foram incluídos no primeiro nível do lado ocidental. Os demais se espalharam entre a segundona e a terceirona.

hansa

O curioso é que justamente o Hansa Rostock se tornou sensação da Bundesliga, como faz o RB Leipzig – porém, de maneira mais instantânea e bem menos consistente. O clube da cidade litorânea sofreu pouco com a debandada de jogadores que tomou a Alemanha Oriental. O Dynamo Dresden, por exemplo, era a principal força na virada da década, mas perdeu Matthias Sammer e Ulf Kirsten diante das polpudas propostas vindas do oeste. Assim, o Hansa ascendeu e conquistou o título nacional em 1990/91, o único em sua história majoritariamente como coadjuvante na Oberliga. Na primeira temporada reunificada, os alviazuis também foram ao mercado, trazendo quatro jogadores ocidentais e outros dois tchecoslovacos.

VEJA TAMBÉM: Um mapa para você mergulhar na história da Alemanha e do Campeonato Alemão

Diante das diferenças econômicas, não havia tantas expectativas de que os dois ex-orientais emplacassem na Bundesliga. Por história e por potencial local, o Dynamo Dresden até era favorito. Entretanto, quem impressionou mesmo foi o Hansa Rostock. Logo na primeira rodada, os alviazuis golearam por 4 a 0 o Nuremberg de Andreas Köpke, um dos melhores goleiros do país na década de 1990 e tricampeão mundial com a seleção.  Já no compromisso seguinte, um resultado ainda mais impactante: em pleno Olympiastadion, os hanseáticos bateram o Bayern de Munique por 2 a 1, de virada. Tudo bem que os bávaros tiveram naquela temporada seu pior desempenho desde os anos 1970, em décimo. Mesmo assim, contavam com estrelas do porte de Thomas Berthold, Olaf Thon, Christian Ziege e Brian Laudrup. O técnico era ninguém menos que Jupp Heynckes.

hansa3

E tinha mais bala no cartucho do Hansa Rostock naquela largada histórica. Na terceira rodada, os orientais atropelaram o Borussia Dortmund por 5 a 1, já com Stéphane Chapuisat no ataque aurinegro e Ottmar Hitzfeld ditando as ordens. Naquele momento, os hanseáticos mantinham os 100% de aproveitamento. Somavam seis pontos e 11 gols marcados. A liderança era irrefutável.

VEJA TAMBÉM: Leipzig entrou em erupção ao reviver o dérbi mais ferrenho da cidade após 31 anos

O primeiro tropeço aconteceu na quarta partida. Não deu para segurar o forte Stuttgart de Christoph Daum. Diante de 51 mil torcedores, os suábios ganharam por 3 a 0, com Sammer anotando um dos gols. A derrota, ainda assim, não foi suficiente para tirar o Hansa da liderança. E, na quinta rodada, o time confirmou a posição ao bater o Borussia Mönchengladbach por 2 a 1. A partir daquele momento, a força se perderia. O empate sem gols com o Wattenscheid 09 entregou o topo da tabela de bandeja para o Eintracht Frankfurt de Andreas Möller e Tony Yeboah. Até deu para retomar a ponta na sétima rodada, graças ao saldo de gols, com o empate por 2 a 2 contra o Bayer Leverkusen – que contava com Jorginho na ala direita, além da dupla de ataque ‘oriental’ formada por Andreas Thom e Kirsten. Depois disso, se consumou a derrocada dos hanseáticos.

O Hansa Rostock venceu apenas seis dos 31 jogos restantes pela Bundesliga. Curiosamente, o único time que os novatos conseguiram derrotar por duas vezes foi o Bayern, anotando 2 a 1 no Ostseestadion. No mais, vale destacar também os triunfos contra o futuro campeão Stuttgart e o Schalke 04, cuja meta era defendida pelo novato Jens Lehmann. Só que as alegrias esparsas não evitaram a queda livre.

Restando quatro rodadas para o final, o Hansa foi derrotado pelo Colônia e entrou na zona de rebaixamento pela primeira vez – quatro times cairiam diretamente naquele ano. Na sequência, perdeu também para Kaiserslautern e Hamburgo, se afundando um pouco mais. Já no último compromisso, os alviazuis fizeram aquilo que parecia impossível: derrotaram, com um gol aos 44 do segundo tempo, o Eintracht Frankfurt, que conquistaria o título caso ficasse com a vitória. Façanha inútil. Adversário direto, o Wattenscheid ganhou do Gladbach de virada por 3 a 2, após tomar os dois primeiros gols da partida. Por um ponto, o Hansa terminou rebaixado. O Dynamo Dresden, por sua vez, não causou o mesmo frisson, mas conseguiu assegurar a permanência.

A conquista da Oberliga também fez do Hansa Rostock o último representante alemão-oriental na Champions. Só que o sorteio não foi nada amigável com os hanseáticos, em uma época na qual as duas primeiras fases ainda eram mata-matas: pegaram justamente o Dream Team do Barcelona, treinado por Johan Cruyff. Os blaugranas dizimaram quaisquer expectativas já no Camp Nou, com dois gols de Michael Laudrup na vitória por 3 a 0. Na volta, ao menos os germânicos puderam manter o seu orgulho em pé. Venceram os futuros campeões por 1 a 0, gol de Michael Spies. Entre os blaugranas em campo naquela noite estavam Andoni Zubizarreta, Ronald Koeman, Michael Laudrup, Pep Guardiola e Hristo Stoichkov.

VEJA TAMBÉM: Rejeições à parte, não dá para negar o futebol vistoso que o RB Leipzig vem apresentando

Nenhum jogador daquele elenco do Hansa alcançou grande notoriedade. O grande destaque era o meia Spies, autor de 14 gols naquela temporada. Ele tinha sido um dos reforços que vieram dos clubes ocidentais, com passagens anteriores por Stuttgart e Gladbach. Depois de deixar os alviazuis, anos depois ajudou o Wolfsburg a subir pela primeira vez à elite. Olaf Bodden, Jens Dowe, Florian Weichert e Daniel Hoffmann tiveram relativo sucesso em clubes médios da Alemanha. Já o zagueiro Heiko März e o volante Hilmar Weilandt se mantiveram como bastiões dos hanseáticos até o fim da década. No banco de reservas até março, quando acabou demitido, o técnico era Uwe Reinders. Campeão da Oberliga em 1991, ele marcara época como atacante do Werder Bremen, reserva da seleção alemã na Copa de 1982. Nos últimos meses de competição, seu assistente assumiu interinamente.

Após três temporadas na segunda divisão, o Hansa Rostock retornou à Bundesliga. A partir de então, viveu sua maior estabilidade, contando com o apoio de empresas locais e completando 10 anos na elite até ser rebaixado novamente – um caso raríssimo entre os ex-orientais, em uma região devastada economicamente e que demorou a se recuperar. O Hansa nunca ocupou outra vez a liderança, mas em duas oportunidades terminou o campeonato na sexta colocação, se classificando à extinta Copa Intertoto. Entre os jogadores que vestiram a camisa alviazul neste período, o mais notável é Oliver Neuville. Em 2007/08, os hanseáticos ainda voltaram para a primeira divisão, em seu canto do cisne. Atualmente, o clube briga pelo acesso na terceira divisão. De longe, vê o RB Leipzig despontar entre os grandes. E, com um projeto de longo prazo, não deve ser apenas um ponto fora da curva, como aconteceu naquela Alemanha recém-unificada.

hansa2