A seleção marroquina aproveita bastante o contingente migrante do país. O elenco de 28 convocados utilizado na última Data Fifa contou com nada menos do que 20 atletas nascidos no exterior – sobretudo França, Holanda e Espanha, nações onde as colônias de marroquinos são mais numerosas. Entre estes, estão muitos dos protagonistas do time que deve disputar a Copa do Mundo, como Mehdi Benatia, Younès Belhanda, Nordin Amrabat e Hakim Ziyech. E os Leões do Atlas podem contar com mais um reforço em maio. Após ter sua solicitação negada pela Fifa, Munir El Haddadi resolveu acionar a Corte Arbitral do Esporte (CAS) para se tornar elegível a Marrocos. Corre contra o tempo, em busca de uma chance rumo ao Mundial da Rússia.

Nascido em Madri, Munir fez sua carreira inteira no futebol espanhol. Chegou a passar pelas categorias de base do Atlético de Madrid, antes de chegar ao Barcelona em 2011. Seu destaque em La Masía o levou às seleções menores da Espanha, passando pela sub-19 e pela sub-21. E em setembro de 2014, justamente quando integrava o elenco sub-21, o garoto foi chamado às pressas por Vicente Del Bosque ao time principal – substituindo o lesionado Diego Costa. Nesta época, o prodígio tinha apenas duas partidas pelo Barça no Campeonato Espanhol. Mesmo assim, o treinador resolveu dar um moral e o colocou em campo contra a Macedônia. Jogou os 13 minutos finais da goleada por 5 a 1 em Valencia, válida pelas eliminatórias da Euro 2016.

Munir nunca mais foi cogitado pela seleção principal da Espanha, embora tenha frequentado a sub-21 até 2016. E diante da falta de perspectivas com a Roja, resolveu mudar de ideia e defender o Marrocos, país de onde seus país migraram a Madri. Segundo as regras da Fifa, porém, o jovem de 22 anos não é mais elegível. Independentemente de quanto tempo jogou, ele esteve em campo em uma partida oficial. Por isso mesmo, não pode mais trocar a sua representação internacional.

O próprio Del Bosque admite seu arrependimento em relação à questão: “Foi uma falha, cometemos um erro com Munir. Eu creio que ele deveria jogar por Marrocos. Temos que ser flexíveis na vida. Não deveriam impedir que se possa jogar com a sua seleção, é o mesmo com Bojan”. Vale lembrar que, em 2008, o treinador também usou Bojan Krkic por 25 minutos durante um jogo contra a Armênia pelas Eliminatórias. Depois disso, o prodígio nunca mais entrou em campo pela equipe nacional e tentou se tornar elegível à Sérvia. A Fifa negou o requerimento em 2016.

Munir, por sua vez, não deu à Fifa o respaldo da palavra final. Diante do bloqueio pelos estatutos, confirmado pela entidade após requerimento no último mês de março, o atacante acionou o CAS. A corte confirmou nesta semana o processo iniciado pelo jovem, juntamente com a federação marroquina. O procedimento aberto pelo TAS deverá ser concluído em maio, conforme pedido pelos apelantes, para que o ponta ainda possa ser convocado à Copa do Mundo caso vença a sua causa.

Na atual temporada, Munir está emprestado ao Alavés. Acumula bons números com os bascos, somando sete gols e seis assistências no Campeonato Espanhol, apesar da campanha na parte inferior da tabela. Na seleção marroquina, o jovem pode ser uma boa alternativa, principalmente como homem de referência, como vem atuando nos últimos meses. Disputaria posição com Khalid Boutaïb, de mais presença física, que anotou gols importantes nas Eliminatórias. Já nas pontas, a concorrência é um pouco mais qualificada, especialmente por Ziyech e Amrabat.

Mais importante que questões táticas, todavia, será o precedente que a decisão do CAS pode abrir. Se Munir vencer a sua batalha nos tribunais, provocaria uma ruptura com os estatutos da Fifa, bem às vésperas da Copa do Mundo. Indo além do atacante ou da seleção marroquina, o impacto talvez seja ainda mais amplo. O próprio Bojan, companheiro do hispano-marroquino no Alavés, teria uma razão a mais para continuar sua luta.