O primeiro tempo do jogo de volta entre Manchester City e Liverpool, no Etihad Stadium, não foi nada inferior a um massacre dos donos da casa. Controle territorial absoluto. Os visitantes não conseguiam passar do meio-campo. O primeiro gol surgiu aos dois minutos, fruto de uma pressão avassaladora dos homens vestidos de azul. Um terço da tarefa para pelo menos levar a eliminatória à prorrogação estava feito. E no momento de maior aperto para os Reds, ironias da vida, quem segurou a barra foi a defesa, aquela defesa tão criticada desde o início do trabalho de Jürgen Klopp em Anfield.

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O Liverpool conseguiu sobreviver à tormenta dos 45 minutos iniciais, com o auxílio da arbitragem e da trave direita do gol de Karius. Aguardou uma possível e até natural queda de rendimento do Manchester City no segundo tempo para conseguir respirar. Ficou um pouco mais com a bola no campo de ataque e não demorou para criar suas oportunidades. Empatou com Salah e, diante de um adversário rendido, virou o jogo com Roberto Firmino, maior artilheiro do clube na história de uma única edição da Champions League ou da Copa dos Campeões junto com Salah. Ganhou a ida por 3 a 0, e a volta, por 2 a 1.

O essencial foi encerrar o primeiro tempo perdendo por apenas um gol de diferença. A chave do jogo esteve neste período. Como era de se esperar, o Manchester City foi muito agressivo. Guardiola arriscou com apenas três jogadores na defesa para marcar os três atacantes do Liverpool. A vantagem foi a superioridade no meio-campo, setor totalmente controlado pelos donos da casa. No outro lado, os desfalques prejudicaram. Milner, Wijnaldum e Chamberlain não foram escolhas de Klopp: eram os únicos jogadores disponíveis para esta partida, com Henderson suspenso, Can e Lallana machucados.

O trio vermelho não conseguiu trocar passes. O Liverpool não conseguia sair para o jogo. A bola batia no meio-campo e voltava. O tempo inteiro. Foi assim que saiu o gol do Manchester City. Enquanto preparava a reposição, Karius buscou alternativas próximas para evitar o chutão. Não as encontrou, mas, mesmo assim, arriscou com Van Dijk, na fogueira, pressionado por Sterling. O atacante inglês fez uma boa ação defensiva – faltosa, para alguns, lance de interpretação – e Van Dijk errou o passe. Bernardo Silva desviou, Fernandinho lançou Sterling, e Gabriel Jesus completou para abrir o placar.

Talvez por medo de deixar o time muito aberto, ou para poupar energias, Mané, Firmino e Salah não pressionavam a saída de bola adversária como costumam fazer. O egípcio principalmente. Foi desfalque no dérbi contra o Everton e era dúvida para esta partida. Provavelmente com o físico longe do ideal, poupou suas forças para a bola certa, já que o Liverpool, na prática, precisava de apenas um gol para matar a classificação. No entanto, isso deu muita tranquilidade para os zagueiros do City levarem a bola até os meias.

Fernandinho era o maestro do meio campo, acelerando quando precisava, cadenciando quando era necessário. As viradas de jogo machucavam os laterais, e a bola passou perigosamente pela frente do gol de Karius diversas vezes. Mas, sintoma da boa atuação da defesa do Liverpool no primeiro tempo, poucas chances reais de gol foram criadas pelo City. A melhor delas saiu de fora da área, um chute colocado de Bernardo Silva na trave. E o gol de Sané mal anulado pela arbitragem.

Kevin de Bruyne lançou para dentro da área, e Karius saiu para socar. Não houve falta no goleiro visitante. A bola rebateu em Milner e sobrou para Sané, que deu um toquinho para fazer o gol. O auxiliar marcou impedimento que não aconteceu porque o passe surgiu de um jogador do Liverpool. Foi um lance rápido e difícil para arbitragem, mas, de qualquer maneira, foi um erro crucial para o decorrer da partida. Ao apito do intervalo, Guardiola invadiu o gramado furioso e foi expulso pelo velho conhecido árbitro espanhol Antonio Mateu Lahoz.

O começo do segundo tempo foi um pouco parecido à etapa anterior, mas, pouco a pouco, o Liverpool conseguiu tocar um pouco mais a bola, mantê-la no campo de ataque e ganhar alguma tranquilidade. Esgotado, o Manchester City não conseguiu exercer a mesma pressão. Os passes começavam a encaixar e, com o ataque que os visitantes têm, era questão de tempo para as chances aparecerem. E na fase que está Mohamed Salah, apenas a primeira era suficiente.

O Faraó dominou muito bem a bola e emendou com inteligência para Mané. O senegalês passou no meio de dois marcadores do Manchester City e saiu cara a cara com Ederson. O goleiro brasileiro saiu do gol para abafar e deu rebote. Salah recolheu, limpou Ederson com um toque e, com muita clareza de pensamento, tocou por cima para empatar a partida.

Acabou ali. O Manchester City não conseguiu reagir. Tocava a bola, rodava a área do Liverpool, sem tentar nada de diferente ou levar muito perigo a Karius. Guardiola, das arquibancadas, nem fez as três alterações. Colocou Agüero e Gündogan. As outras opções seriam Zinchenko, Foden e Delph. Aos 34 minutos do segundo tempo, o golpe final: Firmino pressionou Otamendi, roubou a bola e entrou em diagonal. Tocou colocado no canto de Ederson e ainda contou com a trave para virar o jogo a favor dos Reds.

O Manchester City pode reclamar do gol mal anulado no segundo tempo, mas não pode ignorar a superioridade do Liverpool nas duas partidas. O time de Klopp venceu a eliminatória por 5 a 1, com uma atuação brilhante em Anfield e outra muito madura no Etihad Stadium. A evolução do time vermelho é clara: o ataque sempre foi um ponto forte, e agora a defesa mostrou estar mais confiável. Sobreviveu aos momentos complicados e aguardou o momento certo para revidar com precisão cirúrgica. E, por isso, está na semifinal da Champions League pela décima vez.