Na Juventus em que foi tão grande, o maior momento de Buffon foi quando aceitou ser menor, na Serie B

Não há nada que torcedores prezem mais em um jogador do que demonstrações de amor à camisa. Não as demagogas, os beijos sem paixão ao escudo, as demonstrações de raça teatrais ou a recusa em comemorar um gol contra um clube que nem significa tanto assim para ele. Em um futebol cada vez mais mercadológico, a genuína fidelidade é vista quando a lógica natural se inverte e o atleta abre mão de objetivos concretos em nome do que as instituições representam. Situação cada vez mais rara. 

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O dinheiro e a progressão da carreira são sempre as justificativas para tomar o caminho mais fácil quando as coisas dão errado, quando um time grande passa por uma seca de títulos ou eventualmente é rebaixado. E, de fato, são motivos compreensíveis. Cada um sabe o que quer para a sua vida. Alguns não ambicionam a imortalidade, nem tem capacidade para isso. Nunca se imaginaram bandeiras. Não é o caso de culpar quem decide pular do barco, mas de idolatrar quem prefere afundar-se com ele, reconstrui-lo e ajudá-lo a emergir ainda mais forte.

Buffon não conquistou todos os títulos pela Juventus. Mas os que conquistou o fez várias vezes. Ao longo de 17 anos de serviços prestados à Velha Senhora, período em que esteve sempre entre os primeiros colocados de qualquer lista de melhores goleiros do mundo, tornou-se uma figura gigante para o mundo do futebol. Qual outro goleiro da sua geração conseguiu tanta longevidade em alto nível? Talvez Casillas seja o que mais se aproxima. 

Mas o seu maior momento foi quando, campeão do mundo pela Itália, aceitou a tarefa mais humilde de devolver o clube à elite italiana, depois do rebaixamento de 2006 por causa das denúncias do Calciopoli. Gols e passes, defesas e títulos, ficam marcados na memória dos torcedores, mas nunca tão profundamente em seus corações quanto esse tipo de gesto.

A chegada

Buffon, em sua primeira temporada (Foto: Getty Images)

Carlo Ancelotti foi escolhido para se tornar técnico da Juventus, ao fim do vitorioso ciclo de Marcelo Lippi. No entanto, apesar de montar uma defesa muito forte – a Velha Senhora chegou a sofrer apenas 20 gols em 1999/2000 -, Ancelotti perdeu o scudetto para os dois times de Roma e foi embora em 2001. Junto com ele, o craque da equipe: Zinedine Zidane transferiu-se para o Real Madrid pelo valor recorde de € 77 milhões.

Para tocar o novo projeto, a Juventus trouxe de volta Marcelo Lippi, que não havia conseguido bons resultados na Internazionale. Em vez de gastar tudo em um único jogador estrela, Lippi preferiu contratar uma série de peças que formariam a espinha dorsal do time nos anos seguintes. Buscou Pavel Nedved na Lazio para recompor o meio-campo. Marcelo Salas para o ataque, Liliam Thuram para a defesa e, também do Parma, contratou o então jovem Gianluigi Buffon, por € 52 milhões. Dependendo da cotação, ainda hoje recorde para a posição – em euros porque, em libras, dependendo da cotação, Ederson o ultrapassou

O gol da Juventus era protegido há duas temporadas por Edwin Van der Sar, que havia sofrido com muitas oscilações, apesar do ótimo retrospecto defensivo da equipe de Ancelotti. O holandês foi repassado ao Fulham, para não deixar dúvidas de quem seria o titular. “A Juventus é um clube muito grande e tenho certeza que vamos conquistar vários títulos”, disse Buffon, logo na sua chegada. E, rapaz, como ele estava certo. 

Primeiros títulos

Buffon contra o Parma, seu ex-time (Foto: Getty Images)

A estreia de Buffon foi na primeira rodada do Campeonato Italiano de 2001/02. Não levou gol na vitória por 4 a 0 sobre o Venezia. Passou batido também na segunda partida. Na terceira, cometeu um erro flagrante no primeiro gol do Chievo, o que lhe valeu algumas críticas. A Velha Senhora, mesmo assim, venceu por 3 a 2. Depois de uma série de seis partidas sem vencer, a equipe de Turim disparou, com uma única derrota nas últimas 23 rodadas, e terminou a Serie A um ponto à frente da Roma. Conquistou o scudetto pela primeira vez desde 1998, e Buffon foi eleito o melhor goleiro do torneio. Repetiria o prêmio nas duas temporadas seguintes. 

Buffon fez 45 partidas na sua primeira temporada pela Juventus. Atuou em todos os minutos da Serie A. Na temporada seguinte, perdeu apenas duas rodadas, na campanha do bicampeonato italiano. Enquanto confirmava o scudetto, a a Juventus avançava na Champions League. Chegou às semifinais contra o Real Madrid. Os espanhóis venceram o jogo de ida, em casa, por 2 a 1. Em Turim, Trezeguet e Del Piero fizeram 2 a 0 no primeiro tempo. Depois do intervalo, Figo teve a oportunidade de igualar o placar agregado, mas sua cobrança de pênalti parou nas mãos de Buffon. Zidane marcou na ex-equipe, mas Nedved já havia feito 3 a 1 para os italianos.

A decisão em Old Trafford seria contra o Milan. Nessa partida, Buffon fez uma das maiores defesas da sua carreira, ao espalmar uma cabeçada mortal de Inzaghi. “Eu ainda não sei como ele chegou àquela bola”, disse Pippo, ao site da Uefa. Aquela final, porém, terminou com um gosto amargo para o goleiro. Na disputa de pênaltis, Buffon defendeu duas cobranças, de Seedorf e Kaladze, mas seus companheiros erram três chutes. Por 3 a 2 a partir da marca do cal, o Milan sagrou-se campeão europeu, e Buffon sofreu sua primeira decepção na Champions League. 

A temporada seguinte (2003/04) foi menos prodigiosa para a Juventus. Depois de dois títulos seguidos, ficou apenas em terceiro lugar na Serie A. Perdeu a decisão da Copa Itália para a Internazionale e foi eliminada pelo Deportivo La Coruña nas oitavas de final da Champions. Lippi tinha mais um ano de contrato, mas decidiu se aposentar ao fim da campanha. O ídolo da Juve prometeu não assinar por nenhum outro clube e isso ele cumpriu. Mas aceitou ser o comandante da seleção italiana, na qual voltaria a cruzar com Buffon. Para o seu lugar, chegou Fabio Capello. 

A prova de amor

Buffon contra o Vincenza, na Serie B (Foto: Getty Images)

Enquanto a seleção italiana avançava na Copa do Mundo de 2006, grampos e denúncias surgiam de um esquema em que dirigentes de clubes do país influenciavam os chefes da arbitragem nacional. Buffon acompanhava o desenvolvimento do caso na Alemanha, depois de ele próprio ter sido acusado de apostas ilegais em jogos da Serie A. Interrogado, admitiu ter colocado dinheiro em jogos até outubro de 2005, quando os jogadores profissionais foram proibidos de apostar. Garantiu nunca ter feito isso em partidas do futebol italiano e foi inocentado em dezembro de 2006. 

As investigações do Calciopoli terminaram com punições severas a vários clubes, mas nenhuma tão grande quanto a aplicada à Juventus, uma vez que os maiores pivôs do escândalo, batizado de Calciopoli, foram os diretores do clube, Luciano Moggi e Antonio Giraudo. A Velha Senhora perdeu os títulos italianos que havia conquistado em 2004/05 e 2005/06, com Capello no comando, foi rebaixada à segunda divisão e começou a Série B com nove pontos negativos. Deu-se início a uma debandada. 

A equipe bicampeã italiana foi desmontada. Ibrahimovic e Vieira foram para a Internazionale; Fabio Cannavaro e Emerson seguiram Capello para o Real Madrid; Zambrotta e Thuram reforçaram o Barcelona; e Adrian Mutu transferiu-se para a Fiorentina. Em clima de liquidação, a Juventus precisou vender boa parte de seus craques a preço de banana, sem poder de barganha para negociar taxas mais próximas da qualidade de cada um. Era difícil convencê-los a encarar a aridez de uma segunda divisão. 

Exceto por alguns. Alessandro Del Piero, Pavel Nedved, David Trezeguet e Mauro Camoranesi decidiram permanecer para devolver a Juventus à elite italiana. Buffon, recém-consagrado campeão do mundo pela seleção italiana, juntou-se a eles. “Não posso esconder que, depois de cinco anos aqui, fiquei tentado por uma nova experiência. Poderia ser o Milan, a Internazionale ou o Arsenal, e acho que eu penderia a favor do Milan”, disse Buffon, à época. “Este clube me ajudou a vencer e, se me tornei campeão do mundo, foi graças à Juventus. Eu posso lidar com um ano na segunda divisão e vou buscar algo novo e ganhar o título da Serie B”. 

Já com uma boa coleção de títulos pela Juventus, Buffon conquistou de vez o coração dos torcedores ao decidir encarar o novo desafio. “Fico feliz de ter decidido ficar para a Serie B porque acho que há alguns homens, alguns jogadores, que têm a oportunidade de dar ao esporte alguma esperança por meio de suas decisões, para o público, para os torcedores. Era um momento em que jogadores como eu tinham que mandar uma mensagem: que jogadores têm sentimentos e há mais na vida do que popularidade e dinheiro. Eu faria isso de novo”, disse Buffon, em entrevista recente a Gerard Piqué, no Player’s Tribune. “Seis anos depois, quando eu ganhei o campeonato novamente, eu estava muito feliz. Foi uma decisão difícil. Seis anos muito difíceis. Quando você está acostumado a vencer… seis anos sem jogar muito a Champions League. Não joguei muitas competições europeias. Com um pouco de esforço, retornamos”. 

A Juventus foi redimensionada pelo escândalo. Com exceção das estrelas que ficaram, o elenco da segunda divisão foi majoritariamente formada por italianos e jovens. Alguns deles aproveitaram a oportunidade para despontarem, como Chiellini, Marchisio e Giovinco. A campanha começou com um empate contra o Rimini e seguiu com oito vitórias seguidas. Talvez porque os árbitros quisessem deixar bem claro que não estavam mais sob influência do clube de Turim, a Juve teve oito jogadores expulsos ao longo de 42 rodadas. Buffon foi um deles, aos 24 minutos do empate por 1 a 1 com o Albino Leffe. A Velha Senhora conquistou o acesso a três rodadas do fim, goleando o Arezzo por 5 a 1, e assegurou o título com vitória por 2 a 0 sobre o Mantova. 

Didier Deschamps comandou a campanha do acesso, mas, por divergências com a diretoria, saiu assim que o retorno à Serie A foi garantido. Claudio Ranieri assumiu o leme e conseguiu levar o clube a duas boas campanhas no Campeonato Italiano, em terceiro e segundo lugar. Mas a Juventus rapidamente perdeu o rumo. Foi sétima colocada duas vezes seguidas, em anos até mais difíceis para do que a campanha da segunda divisão. E mais uma vez, Buffon pensou em sair. E mais uma vez, decidiu ficar. 

“Vencemos a Serie B. Foi um ano divertido. E depois de duas boas temporadas, vieram dois ou três anos bem ruins, quando a Juventus estava irreconhecível. Perdemos nosso espírito, nossa identidade, nossa ética de trabalho. Alguns anos terminamos em sexto ou em sétimo e eu dizia para mim mesmo: ‘Por que eu escolhi isso?”. Mas disse isso em voz baixa porque geralmente sou uma pessoa positiva, um otimista. Tenho certeza que trabalho duro e bom comportamento sempre funcionam”, disse, ao Player’s Tribune. “Eu gostaria de ter jogado (em outro país) porque eu gosto de estar ao redor de pessoas diferentes, outros estilos de vida, de pensar. Era atraente. Mas, no fundo, eu me sinto muito italiano. Eu sei que a Itália tem suas limitações, mas o mundo que eu conheço me faz sorrir e eu gosto dele”. 

Também foi um período de baixa individual para Buffon. Com problemas físicos, perdeu mais ou menos metade de três temporadas nesse período e foi substituído por Alexander Manninger. Teve sua qualidade contestada e voltaram as especulações de que poderia ir embora, se não era a hora de a Juventus começar a pensar na sua sucessão. E ainda bem que Buffon ficou porque a sorte da Velha Senhora estava prestes a mudar. 

A retomada

Buffon heptacampeão italiano (Foto: Getty Images)

Muita coisa mudou na Juventus, antes do início da temporada 2011/12. Giuseppe Marotta já havia sido designado diretor de futebol pelo novo presidente Andrea Agnelli e dava sequência ao seu plano de negócios. Durante os difíceis anos anteriores, não faltou dinheiro ao clube, mas competência para utilizá-lo bem. Foram gastos milhões de euros em jogadores como Diego, Felipe Melo, Amauri e Tiago, que deram pouco retorno técnico. Marotta, depois de um bom trabalho na Sampdoria, foi convocado para melhorar o mercado da Juve. E conseguiu, com peças como Bonucci, Barzagli, Lichtsteiner e Arturo Vidal.

Concomitantemente, a Juventus estreou o seu novo estádio em Turim, no lugar do antigo Delle Alpi. Moderno e cheirando a fresco, o Juventus Stadium aumentou a média de público do clube e gerou faturamentos maiores. Do Siena, veio o técnico Antonio Conte, ex-jogador da Velha Senhora, para comandar o barco. E os resultados foram imediatos. A Juventus foi campeã de 2011/12. E da temporada seguinte. E seguinte. E seguinte. Conquistou o scudetto sete vezes seguidas, o que nunca antes havia acontecido na história da Itália. 

Buffon foi premiado pela fidelidade. Acrescentou sete troféus aos dois que havia conquistado nas primeiras temporadas em Turim e, com nove, é o maior campeão da história do Campeonato Italiano – sem contar os dois scudetti revogados. Atuou em 219 das 266 rodadas dessas campanhas e só não chegou a pelo menos 30 partidas na atual temporada, quando já deu espaço para Szczesny e entrou em campo apenas 21 vezes. Após as críticas dos anos pós-Serie B, mostrou toda a lenha que ainda tinha para queimar, principalmente pelas suas exibições fantásticas na Champions League.

A Champions, inclusive, foi o preço que Buffon teve que pagar. Uma carreira consagrada por tantas glórias não envolve o título máximo do futebol europeu de clubes. Depois da derrota para o Milan, na final de 2003, a Juventus demorou para voltar a ser relevante na Champions League. Foi eliminada nas quartas de final de 2004/05 e 2005/06, teve uma queda nas oitavas de final, outra na fase de grupos, e passou quatro temporadas sem competição europeia ou na Liga Europa. 

Retornou a disputar a Champions com regularidade a partir de 2012/13 e chegou a duas finais. Em 2014/15, perdeu para o Barcelona do trio Messi, Suárez e Neymar e, dois anos depois, foi goleada pelo Real Madrid de Zidane. A última chance para Buffon foi na atual temporada. A Velha Senhora levava a as quartas de final contra o Real para a prorrogação, quando o árbitro Michael Oliver marcou pênalti de Benatia em Lucas Vázquez, nos acréscimos do segundo tempo. Buffon ficou maluco, partiu para cima do apitador e acabou expulso. Ronaldo converteu e encerrou o sonho europeu do goleiro. 

Encerrou? Talvez não. Aos 40 anos, Buffon confirmou a saída da Juventus, mas deixou em aberto se continuará atuando profissionalmente ou não. Pode ter chegado a hora de ter uma nova experiência em outro país. Ainda no mais alto nível de excelência para a posição, os potenciais candidatos devem ser capazes de disputar o título que lhe faltou. E depois de tantos anos de lealdade, certamente os torcedores da Juventus entenderão se Buffon optar por estender a carreira em outro lugar.