Um lance pode mudar a história de todo um jogo. E o Cruzeiro precisa ser bastante grato a essa capacidade mágica do futebol. Um gol no último minuto, no último lance do jogo no Mineirão, evitou que a equipe celeste fosse para o Defensores del Chaco com a corda no pescoço. É claro, o empate por 1 a 1 com o Cerro Porteño não era o resultado sonhado pela torcida, mas sai de bom tamanho diante da tragédia que já parecia concretizada quando o destino finalmente resolveu ser bondoso com a Raposa. E, pelas características do time de Marcelo Oliveira, o sonho de uma reviravolta em Assunção não é impossível.

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Não foi o Cruzeiro sem gana de Libertadores que apareceu em alguns jogos da primeira fase. Mas também não foi aquele time voraz ao qual a torcida se acostumou a aplaudir no Brasileirão. Os mineiros contam com um time em ascensão na competição continental, isso é fato, que demorou um pouco para pegar no tranco e precisou buscar uma classificação milagrosa. Nas oitavas de final, zera tudo, o passado não importa mais. Só que esse novo caminho dos cruzeirenses começou com um grau de dificuldades que eles não esperavam.

É preciso valorizar a maneira como o Cerro Porteño se defendeu. Chiqui Arce foi para Belo Horizonte arrancar pontos e conseguiu, com a muralha que formou em frente a sua área. Mais do que isso, também graças à atuação do goleiro Roberto ‘Gatito’ Fernández (sim, filho dele mesmo, Gato Fernández, goleiro que passou por Palmeiras e Inter nos anos 1990), que fechou sua meta e conseguiu salvar até quando ia tomando um frangaço. Sem atacar tanto, o Ciclón apostava na famosa bola vadia. E encontrou a sua em um cruzamento, no qual também contou com a complacência da zaga cruzeirense, que só assistiu ao lance.

Não foi uma atuação tão ruim do Cruzeiro. Só que também esteve longe do melhor que a Raposa pode fazer. Contra um adversário mais fechado, a velocidade na transição com os homens de frente, principal arma do time de Marcelo Oliveira, dificilmente funcionará mesmo. O jeito foi apostar no chute potente de Júlio Baptista ou no oportunismo de Borges, que não renderam gol após mais de 90 minutos. Diante da falta de pontaria e do excesso de chutes bloqueados, o alívio foi garantido por Miguel Samúdio. Duas rebatidas e um chute que precisou passar por entre os defensores para acabar nas redes. Um gol que não muda tanto a obrigação do Cruzeiro em vencer, mas pelo menos dá vantagens em caso de empate com gols.

Em Assunção, os cruzeirenses esperam por um adversário mais aberto. Que possa fazer fluir o jogo de Willian, de Éverton Ribeiro e, principalmente, de Ricardo Goulart – o principal jogador da equipe neste início de campanha, que não esteve presente na partida de ida, mas é esperado para a volta. A diferença maior é que a Raposa não terá mais o ambiente favorável do Mineirão (com uma atmosfera aquém do que a ocasião pedia, é verdade, com muitos lugares vazios entre os 38 mil presentes). Terá que encarar a pressão do Defensores del Chaco, fama justificada de um dos maiores alçapões do futebol mundial, aonde o Cerro só venceu nesta Libertadores. Precisará, também, saber se defender e apostar na bola vadia, como fez o Ciclón em BH. Mas com uma qualidade técnica superior, que, se o time souber aproveitar devidamente, pode passar bem menos sufoco, mesmo longe de casa. Basta saber se impor e ter sangue nos olhos, como a Libertadores sempre exige de seus grandes times.