O fim de temporada está sendo mesmo um completo martírio para o Paris Saint-Germain. Eliminação na Liga dos Campeões, brigas internas, indefinição sobre a continuidade de Laurent Blanc como treinador… O título da Copa da Liga Francesa e a virtual conquista da Ligue 1 nem de longe apagam todos os problemas pelos quais o clube da capital passa. Para completar o clima de caos, eis que outra questão vem à tona para deixar todos de cabelo em pé no Parc des Princes.
A nova dor de cabeça se chama fair play financeiro. O PSG passou longe de respeitar as regras de controle de gastos e certamente sofrerá uma punição por parte da Uefa. A dúvida está no tamanho desta sanção. De nada adianta o discurso tranquilo de Nasser Al-Khelaïfi, presidente do clube da capital, que jura não haver motivos para uma punição aos parisienses. Claro, ele também deve acreditar que Papai Noel existe, já que ganha uma grana violenta por ser um bom menino e se comportar de forma exemplar.
De acordo com a mídia inglesa (e não falo de tabloides sensacionalistas), cerca de 20 clubes estão neste balaio de infratores do fair play financeiro. A Instância de Controle Financeiro dos Clubes (ICFC) se reúne nesta semana para definir o que vai fazer com quem desobedeceu as regras. Ainda segundo a imprensa inglesa, não será utilizada a punição mais dura prevista: a exclusão das competições europeias.
Por outro lado, os clubes reprovados podem sofrer advertências, levar multas pesadas (de dezenas de milhões de euros) ou até enfrentar alguma restrição nas competições europeias da próxima temporada (reiterando: restrição, não exclusão). No caso do Paris Saint-Germain, o grande motivo de suspeitas recai sobre o acordo entre o clube e a Qatar Tourism Authority (QTA).
Pelo contrato firmado entre o PSG e a QTA, a empresa de turismo do Qatar oferece um aporte de € 200 milhões anuais ao clube francês – nada menos do que metade (!) do seu orçamento. Especialistas afirmam de forma categórica que esta soma está muito acima dos valores praticados pelo mercado. A Uefa também não se convenceu muito das explicações dadas pelo clube francês sobre o estranho contrato. O tal acordo prevê a exploração de publicidade estática para promover o turismo no Qatar, mas o alto valor chama mesmo a atenção.
Tudo passa agora pelo nível de persuasão do PSG para convencer o ICFC de que o tal contrato com o QTA tem valores compatíveis com o mercado. O objetivo não é livrar o clube de uma punição, mas torná-la a mais branda possível. Uma multa de alguns milhões de euros pode pesar no bolso dos dirigentes, mas seria bem menos aflitiva do que uma limitação da folha salarial para disputar a Liga dos Campeões ou a proibição de contratar jogadores, por exemplo. Os parisienses querem ganhar tempo e evitar mais problemas para o seu lado.
Imposto adiado
A maioria dos clubes da Ligue 1 respirou aliviada com o adiamento da entrada em vigor da polêmica mudança no pagamento de impostos – a data prevista inicialmente era 30 de abril. A festa, porém, deve durar apenas algumas semanas, quando a medida vai entrar para valer. Apenas para lembrar, a mordida do leão do fisco francês vai abocanhar 75% daqueles que ganham um salário superior a € 1 milhão.
No total, 14 clubes da Ligue 1 serão afetados pela mudança na lei – um custo aproximado de € 44 milhões. Só o Paris Saint-Germain responde por quase metade deste valor: € 20 milhões. Apenas Évian, Lorient, Nantes, Stade Reims e Sochaux escaparam desta megamordida, pois nenhum de seus jogadores tem ganhos que se enquadram na nova regra. Como não tem sede na França, o Monaco também se livrou desta, mas terá uma compensação.
O clube do principado entrou em acordo com a Liga de Futebol Profissional (LFP) após a gritaria dos demais concorrentes da Ligue 1. Para evitar um favorecimento ao ASM (ainda mais após ter suas finanças turbinadas pela chegada do multimilionário russo Dmitry Rybolovlev), o Monaco deverá pagar € 50 milhões à LFP no prazo de dois anos.
Após as ameaças de greve por parte dos clubes e pela gritaria causada pelo suposto favorecimento ao Monaco, os clubes franceses perderam força neste debate com o acordo entre LFP e o time do principado. A medida, claro, vale para todos os segmentos e não apenas para o futebol. São mais de 470 empresas que precisam se adaptar às novas regras, e a complexidade na forma de pagamento de alguns empregados forçou o adiamento da entrada em vigor da nova taxa.
Com relação aos clubes franceses mais abastados, a abocanhada gigantesca do leão traz consequências quase imediatas. As altas taxas na faixa salarial mais elevada atinge diretamente as maiores estrelas da Ligue 1. Resta saber se um Zlatan Ibrahimovic aceitaria reduzir seu salário ou se submeter à nova cobrança para continuar no PSG. No caso do sueco e de muitos outros jogadores, seria bem mais vantajoso atuar em outro país com um salário menor, mas com um salário líquido melhor por conta de taxas mais brandas.
A partir da adoção da taxa dos 75%, os principais clubes da Ligue 1 perderão força no mercado de transferências. Poucos jogadores se sentirão atraídos por uma vitrine cada vez mais esvaziada e que já não tem tanta representatividade assim dentro do cenário europeu mesmo com os impostos atuais. Se por um lado há a tendência de equilibrar um pouco mais as forças internas, a fraqueza externa ficará ainda mais evidente.