A dupla entre Zlatan Ibrahimovic e Edinson Cavani se tornou a mais eficiente dos últimos tempos no futebol francês. Juntos, os atacantes sueco e uruguaio marcaram nada menos do que 53 gols do Paris Saint-Germain nesta temporada (39 na Ligue 1 e outros 14 na Liga dos Campeões) e são os principais condutores do time nas excelentes campanhas nas duas competições. Os bons números, porém, não significam que a parceria navegue pelas nuvens em um universo de calmaria.

Logo na véspera do primeiro duelo contra o Chelsea pelas quartas de final da Champions, Cavani soltou uma declaração que deixa em dúvida seu futuro no PSG. O uruguaio deu a entender que não viverá uma segunda temporada na sombra de Ibra. Em longa entrevista ao jornal L’Équipe, ele não disse com todas as letras que está cansado de ser tratado como um coadjuvante, mas ficou nítido seu incômodo com todos os louros e créditos direcionados ao sueco.

O principal ponto de irritação de Cavani está em seu posicionamento em campo. Acostumado a atuar mais próximo da área, como um finalizador, ele passou a jogar mais pelo lado direito do campo, em um esforço para o 4-3-3 montado por Laurent Blanc se encaixar da melhor maneira possível. Em outras palavras, o uruguaio foi deslocado de suas funções originais para permitir a Ibrahimovic jogar centralizado. Concorrência dura para quem havia acabado de chegar do Napoli, mesmo credenciado pelos 29 gols marcados na Serie A.

“Digamos que isso começa a se tornar um pouco incômodo. Para um atacante habituado a concluir as ações, acostumado a marcar gols e que hoje deve cumprir outras funções, não é fácil. Não quero falar de fazer sacrifícios porque isso faz parte de mim, mas no momento ocupo um papel mais defensivo do que antes”, desabafou Cavani, ainda se sentindo estranho com as tarefas que precisa desempenhar no PSG.

Quando recebeu a oferta do PSG, o uruguaio se animou com a possibilidade de formar uma dupla de ataque com Ibrahimovic. As coisas mudaram quando ele chegou ao clube e precisou se adaptar a um esquema tático que o deixava em segundo plano. E Cavani parece tão chateado com esta situação que até mesmo deixou no ar seu futuro no Parc des Princes para a próxima temporada. “Vamos terminar o campeonato e veremos o que acontecerá em seguida”, comentou, em tom enigmático.

Contratado por € 64 milhões, Cavani semeou a dúvida em um momento crucial para o PSG. Ter a calmaria interrompida pelas dúvidas levantadas por um de seus principais jogadores era tudo o que o time não precisava agora. O Chelsea agradece ao uruguaio. Como fica o relacionamento entre Ibra e Cavani, tanto dentro como fora de campo depois desta entrevista? A parceria de sucesso certamente sofreu um abalo, que pode atrapalhar diretamente a equipe.

Não dá para imaginar Ibrahimovic retirado de seu pedestal no Parc des Princes – e se ele está lá, é por conta de seu desempenho espetacular, justificado pelos gols e assistências em profusão tanto contra adversários limitados como diante de rivais de maior calibre. Seria bom Cavani entender isso de uma vez por todas e ter a noção de que ele também é parte fundamental para a excelência do ataque parisiense.

Talvez o incômodo do sul-americano seja explicado pelo ano de poucos frutos para ele. Cavani ficou afastado dos gramados por mais de um mês devido a uma lesão na coxa. Para piorar, sua cabeça também foi afetada pelo processo de separação – o jogador viajou ao Uruguai para cuidar do seu divórcio. Em 2014, o uruguaio marcou apenas três gols. Esta seca deixa qualquer artilheiro irritado, e o PSG espera que suas declarações sejam apenas um desabafo contra esta fase ruim.

Dérbi verde

Pela primeira vez desde a temporada 1992/93, o Saint-Étienne deve terminar a Ligue 1 à frente do Lyon. Os Verdes estão radiantes pelo triunfo por 2 a 1 no dérbi contra o OL em pelo Gerland. Além do resultado em si, o ASSE se mantém na briga pela classificação para a Liga dos Campeões (está a três pontos do Lille, terceiro colocado). De quebra, praticamente enterrou as esperanças lionesas de sonhar com o pódio do torneio – o time ficou a longínquos nove pontos do LOSC.

O grande artífice da vitória do Saint-Étienne atende pelo nome de Christophe Galtier. O treinador surpreendeu ao alinhar seu time em um inesperado 3-5-2. A estratégia de reforçar seu sistema defensivo foi um tiro certeiro. Do lado do Lyon, Rémi Garde demorou demais para desatar o nó tático imposto pelo adversário. O técnico só foi mudar seu 4-4-2 em losango nos minutos finais da partida, mas já era tarde demais.

Os Verdes conquistaram um feito histórico. Afinal, este foi apenas o segundo triunfo sobre o OL nos últimos 30 dérbis (o último havia sido em 2010). Muito desta vitória passou pela aposta de Galtier em permitir maior liberdade aos laterais Trémoulinas e Clerc, além da associação entre Brandão e Erding no ataque. Isso sem contar a partida perfeita de Loïc Perrin na defesa. Símbolo da solidariedade do ASSE, ele fez uma leitura adequada do estilo de jogo do Lyon, comandou a zaga com sabedoria e se tornou essencial para o sucesso do esquema montado por Galtier.

Já o Lyon lamentou as ausências de nada menos do que sete jogadores. Bisevac, Benzia, Dabo, Umtiti, M. Lopes, Fofana e Grenier deixaram o time carente demais, com exceção feita aos incansáveis Gomis e Lacazette. Contudo, o setor criativo da equipe sentiu demais tantos buracos e, para piorar, perdeu seu único sopro de inspiração com a saída de Gourcuff, lesionado. Se já estava ruim, ficou horrível; o segundo tempo do OL foi pavoroso e o time não esboçou reação alguma.

A situação do Saint-Étienne seria ainda mais favorável se o Lille não achasse o gol da vitória sobre o Guingamp nos acréscimos. O LOSC teve o domínio das ações (70% da posse de bola), mas essa superioridade esbarrava nas raras finalizações dos donos da casa. Contra um EAG determinado e que deu trabalho ao goleiro Vincent Enyeama, os Dogues evitaram o 0 a 0 no apagar das luzes.

O LOSC precisava apagar o fiasco pela eliminação na Copa da França diante do Rennes (2 a 0), mas esbarrava no cansaço. O time teve uma pequena ajuda do Guingamp, que recuou na parte final do jogo e enfim ofereceu mais espaços para os donos da casa. Foi o suficiente para Kalou dar a vitória aos Dogues, que se mantêm em terceiro aos trancos e barrancos e com uma boa dose de sorte.