Em uma temporada recheada de times a se observar na Bundesliga, o Hoffenheim iniciou sua campanha um tanto quanto encoberto. E até com certas razões, diante dos quatro empates nas quatro primeiras rodadas. No entanto, os alviazuis deslancharam a partir de então. Conquistaram cinco vitórias em suas últimas cinco partidas, batendo rivais do peso de Schalke 04 e Bayer Leverkusen. Já neste domingo, o triunfo no confronto direto com o Hertha Berlim valeu a terceira colocação na tabela. O time permanece como um dos três invictos ainda vivos na Alemanha. Evolução considerável para quem correu riscos de ser rebaixado até a última rodada em 2015/16. Pois o novo ambiente na Rhein-Neckar-Arena possui um protagonista: o técnico Julian Nagelsmann, de apenas 29 anos, bastante elogiado pela imprensa local nas últimas semanas.

VEJA TAMBÉM: Baby Mourinho e estudante de negócios: quem é o técnico mais jovem da história da Bundesliga

O novato já seria um atrativo suficiente por sua idade. É o técnico efetivo mais jovem da história da Bundesliga e também o mais jovem entre as principais ligas europeias atualmente. Só que os poucos anos de vida não devem servir de rótulo ao seu trabalho. Ao contrário do que a falta de experiência possa indicar, Nagelsmann vai se destacando bastante na função. Na última temporada, apesar dos riscos que correu até o final, havia assumido o Hoffenheim a sete pontos de sair da zona de rebaixamento, restando 14 rodadas para o final. Cumpriu o objetivo com louvor. Agora, com uma preparação adequada, vai colocando os alviazuis nas cabeças da tabela.

Nagelsmann possui uma trajetória bastante peculiar. Como tantos outros treinadores, ele também foi jogador. Porém, as lesões crônicas na cartilagem do joelho abreviaram sua carreira quando ainda tinha 20 anos. Na época, defendia as categorias de base do Augsburg e, com contrato vigente, recebeu uma proposta para atuar nos bastidores. Seria ajudante de ninguém menos do que Thomas Tuchel, então comandante do segundo time dos bávaros. O jovem auxiliava na análise dos adversários. Mas, na verdade, aproveitou para absorver o máximo de conhecimento. Depois, ganharia uma oportunidade no sub-17 do Augsburg, até receber uma proposta para fazer parte do Hoffenheim. Trabalhou no sub-16, foi campeão alemão sub-19 e também se tornou auxiliar da equipe principal. Já em fevereiro, quando o técnico Huub Stevens renunciou ao cargo por problemas cardíacos, assumiu.

Neste início de temporada, a importância de Nagelsmann à frente do Hoffenheim se torna notável. Os alviazuis praticam um futebol ofensivo, de pressão na marcação desde o campo do adversário e transições rápidas. Não à toa, possuem o terceiro melhor ataque do campeonato e só passaram em branco em um de seus nove jogos. Apenas o Bayern de Munique finaliza mais do que o Hoffe, também o segundo time que mais anota gols em bolas paradas. Armas dos treinamentos e do arrojo de seu técnico.

Por exemplo, a influência de Nagelsmann se fez sentir na segunda rodada. Aos 27 do segundo tempo, o Hoffenheim perdia por 4 a 1 fora de casa diante do Mainz 05. Pois Marc Uth e Adam Szalai saíram do banco para buscar o empate por 4 a 4. O mesmo neste final de semana, contra o Hertha Berlim. O Hoffe vencia por 1 a 0 quando o técnico optou por uma alteração longe do usual: colocou Szalai no lugar do meio-campista Lukas Rupp. Com três atacantes, o time da casa passou a pressionar mesmo nos minutos finais e não correu o risco de sofrer o empate.

“A função do treinador é composta por 30% de táticas e 70% de competência social”, declarou em agosto, ao Süddeutsche Zeitung. Explana bem a sua filosofia, de quem surpreende pela maturidade e pela calma à beira do campo. “Nós estamos jogando muito bem e não ganhamos por mero acidente. Tudo é planejado antes, o time possui muitas orientações da comissão técnica. Isso torna o nosso trabalho em campo mais fácil. Nagelsmann ajuda a tornar os jogadores melhores”, afirma o volante Kevin Vogt, em entrevista à Kicker.

O elenco do Hoffenheim, em si, não ganhou muitos acréscimos em relação à temporada passada. As principais peças chegaram do meio para frente, como Rupp, Vogt, Andrej Kramaric, Sandro Wagner e Kerem Demirbay – tentando suprir, principalmente, a venda de Kevin Volland ao Bayer Leverkusen. Juntaram-se a uma base razoável, protagonizada pelos bons Niklas Süle e Sebastian Rudy, ambos com passagem pela seleção alemã principal. De qualquer forma, o excelente início dos alviazuis está acima do que a qualidade do time poderia indicar. Méritos de Nagelsmann, que vem lançando mão do 3-5-2 em suas escalações (com apenas Rudy na contenção), um esquema pouco usual no futebol alemão durante os últimos anos.

O primeiro grande desafio do Hoffenheim, de qualquer maneira, acontece no próximo sábado. Os alviazuis visitarão o Bayern de Munique na Allianz Arena. Nagelsmann se medirá contra o clube do qual recebeu uma proposta de emprego para trabalhar na base há três anos, mas que recusou por almejar voos mais altos em Sinsheim. Até o momento, sua aposta se sugere bem sucedida. E ele terá uma chance de apresentar seu nome ao resto do mundo no duelo com Carlo Ancelotti, um dos treinadores mais consagrados de sua geração. A partida, justo em sua terra natal, talvez marque um rito de passagem ao jovem bávaro.