Hidetoshi Nakata se aposentou como um dos maiores jogadores japoneses da história. O meia foi o craque da seleção nipônica em três Copas do Mundo, além de ter disputado duas Olimpíadas e três Copa das Confederações. Mais do que isso, foi o primeiro jogador do país a fazer sucesso na Europa, campeão italiano pela Roma e também ídolo no Perugia e no Parma. Não à toa, o meia foi indicado três vezes à Bola de Ouro e quatro vezes ao prêmio de Melhor do Mundo da Fifa.

Só que Nakata optou por encerrar a carreira cedo. Aos 29 anos, logo a eliminação na Copa de 2006, na derrota por 4 a 1 para o Brasil, o ídolo japonês pendurava as chuteiras sem ter um grande motivo aparente. Foi seco nas palavras ao explicar a posição, afirmando apenas que já tinha decidido meses antes. Um assunto sobre o qual demorou a se abrir. Somente agora, em entrevista à TMW Magazine, é que revelou suas principais razões.

“Dia após dia, eu percebia que o futebol tinha se tornado apenas um grande negócio. Eu podia sentir que o time estava jogando apenas por dinheiro, não pelo gosto de se divertir. Eu sempre senti que a equipe era como uma grande família, mas já não era mais assim. Eu estava triste. Por isso que parei com apenas 29 anos. Se eu pensei em voltar atrás? A todo o tempo e, ainda penso nisso, aos 37 anos. Mas, quando parei, era uma decisão definitiva”, afirmou à edição de janeiro da revista.

Observando a vida de Nakata após seu adeus, tudo passa a fazer bem mais sentido. O ex-jogador saiu viajando sozinho pelo mundo, conhecendo diversos países pobres da América do Sul, da África e da Ásia. Chegou a visitar até mesmo um campo de refugiados na fronteira do Iraque e nunca se recusou a jogar futebol com qualquer criança que lhe pedisse.

“Quando eu era jogador, viajei muito, mas só vi hotéis, estádios, aeroportos. Queria ir sozinho para descobrir os países e as pessoas que me fascinam. Quero ver o mundo com meus olhos, não pela TV ou pelos jornais. As pessoas têm medo dos lugares que fui, porque não sabem que, além da guerra, existem povos estupendos. Se viajassem mais, existiriam menos idiotas preconceituosos”, afirmou em 2008, em entrevista ao L’Equipe. “Esta volta ao mundo serve para eu descobrir qual o meu papel e como, na minha pequenez, posso ser útil ao mundo”.

“Eu sou um cara simples e não quero que me vejam como um jogador de futebol. Quando me reconhecem, explico que apenas sou um cidadão em busca de novos horizontes. Mas continuo jogando em qualquer lugar pelo qual eu passe. Sinto a mesma paixão de quando tinha dez anos. Para mim, é tão agradável jogar descalço na rua quanto em um estádio. E, depois, jogar uma pelada é a melhor maneira de se fazer amigos, descobrir o mundo real. O futebol é um esporte incrível, praticado e amado em todos os lugares que eu visitei”, complementou.

Quando era menino, Nakata passou a sonhar em se tornar jogador assistindo ao desenho Supercampeões – algo que ele revelou quando ainda jogava, em entrevista ao jornal The Sunday Times. Porém, a vida nem sempre é como nos desenhos animados. E, por mais que o ídolo tenha sido para muitos japoneses a imagem mais próxima de Tsubasa, suas palavras após a aposentadoria revelam como seu choque de realidade foi gigantesco. Algo que lhe fez muito bem.

E, para quem não se lembra de Nakata, vale ver alguns de seus melhores momentos em campo: