O chamado “voto de protesto” não é uma exclusividade da desilusão brasileira com a política. Fenômenos nas urnas como o Rinoceronte Cacareco ou o Macaco Tião se repetem em outros países, especialmente naqueles que ainda usam cédulas de papel em seus pleitos. Nesta semana, o Egito reelegeu o Abdel Fattah al-Sisi para o seu segundo mandato presidencial. O marechal, responsável pelo golpe de estado que tomou o poder em 2013, teve apenas um opositor na disputa – o que indica o cenário delicado da democracia egípcia. E entre “indignações” contra a realidade local, Mohamed Salah ganhou destaque.

Os resultados oficiais devem ser anunciados apenas na próxima semana, mas a imprensa estatal indicou que el-Sisi recebeu 92% dos votos. Seu oponente, Mustafa Moussa, teve apenas 3%. Já os outros 5% acabaram anulados. Segundo o site da revista The Economist, mais de um milhão de egípcios rasuraram suas cédulas, “alguns cruzando os nomes de ambos os candidatos e escrevendo o nome de Mohamed Salah, um futebolista popular no país”. Não dá para saber quantas vezes o atacante do Liverpool foi citado, mas a mera menção já demonstra que não foram poucas vezes. Indica seu moral, mas não só isso.

Ainda conforme as informações da Economist, apenas 42% dos eleitores egípcios foram às urnas, 5% a menos do que nas eleições passadas. E se o voto fosse obrigatório por lá, não seria surpresa se a menção a Salah desse um banho maior na oposição, bem como se aproximasse de el-Sisi. Vale lembrar que a chamada Irmandade Muçulmana, que impulsionou o antecessor de el-Sisi nas urnas, foi banida pela justiça egípcia em 2013. Isso ajuda a explicar o boicote massivo ao pleito no país. Membros do grupo foram presos, acusados de terrorismo, e alguns deles incluídos na lista negra do governo local – entre eles, Mohamed Aboutrika, ídolo nacional e considerado o mentor de Salah, em imbróglio que explicamos neste link.

Economist afirma que os aliados do atual presidente tentaram intimidar e subornar a população para comparecer às urnas. Além disso, o Daesh realizou um atentado a bomba em Alexandria dois dias antes das eleições, matando duas pessoas, embora novos incidentes não tenham sido noticiados. Contra el-Sisi, ainda pesam as dificuldades econômicas. Neste ponto, ao menos, Salah ofereceu a sua ajuda. Em janeiro de 2017, ele doou US$ 269 mil para o Long Live Egypt, um fundo público criado pelo governo para sustentar a moeda local e auxiliar em obras de desenvolvimento no país. Apesar do ato ter sido visto por alguns como apoio à situação, o atacante se distancia das filiações políticas. É mais condizente dizer que sua atitude entra na longa lista de benfeitorias ao país.

Já neste sábado, no primeiro jogo desde o pleito presidencial no Egito, Salah reiterou a confiança de seus eleitores. O atacante foi decisivo para o Liverpool na difícil vitória sobre o Crystal Palace, em Selhurst Park. Os Reds precisaram virar o jogo em Londres, correndo o risco de derrota em diferentes momentos. Ao final, brilhou mais uma vez a estrela do egípcio, artilheiro isolado da Premier League, definindo o triunfo por 2 a 1. O camisa 11 acumula 29 tentos na competição, anotados em 21 das 31 partidas que disputou. Também igualou Didier Drogba como africano que mais balançou as redes em uma mesma edição do Campeonato Inglês.

O Crystal Palace precisou de apenas 13 minutos para sair em vantagem. Wilfried Zaha incomodava e, em uma saída desastrada de Loris Karius, o árbitro assinalou pênalti, convertido por Luka Milivojevic. Os Reds pressionaram bastante, com Roberto Firmino e Sadio Mané entre os mais participativos, mas não conseguiram reagir no primeiro tempo, faltando mais qualidade nas conclusões. O empate saiu apenas aos quatro minutos da segunda etapa. Em uma jogada bem trabalhada, aguardando as brechas na defesa londrina, James Milner chegou à linha de fundo e cruzou para Mané completar na pequena área.

O problema é que, logo depois, o Palace voltou a crescer e quase retomou a vantagem. Foram duas chances claríssimas de Christian Benteke, que não aproveitou. Além disso, Sadio Mané concedeu uma falta muito boba aos anfitriões, ao segurar a bola com a mão na entrada da área, achando que o árbitro havia parado o jogo após sofrer tranco. Na cobrança, Patrick van Aanholt soltou a bomba e parou em grande defesa de Karius, evitando o pior aos Reds. Era uma partida aberta, com muita intensidade dos times.

Mesmo criando menos chances do que precisava, o Liverpool ia com tudo para cima das Águias. Jürgen Klopp renovou as energias do ataque com Alex Oxlade-Chamberlain e Adam Lallana, mas perdeu o segundo por lesão, substituído por Dejan Lovren. Com três na zaga, o treinador soltou mais os alas e viu o resultado. Em jogada que começou com uma inversão de Oxlade na direita, Andrew Robertson escorou e Salah apareceu na área para completar, garantindo a vitória aos 39 do segundo tempo. Não era a partida mais inspirada do camisa 11, mas ele apareceu no momento certo, para resolver.

Com a vitória, o Liverpool chega aos 66 pontos, assumindo provisoriamente a segunda colocação e ficando mais tranquilo na zona de classificação à Liga dos Campeões – considerando ainda que Chelsea e Tottenham se enfrentam no domingo. Embora Klopp não tenha poupado forças, os Reds revigoram sua confiança para enfrentar o Manchester City no meio da semana, pela Liga dos Campeões. Já o Crystal Palace permanece em situação delicada, dois pontos acima da zona de rebaixamento, mas com jogos a mais. As boas exibições contra os grandes nesta temporada não compensam o sufoco contra os menores.

Abaixo, os dois primeiros gols do jogo. Para conferir o tento de Salah, clique aqui.