A paixão da torcida do Napoli no San Paolo

Não é só na Espanha que existem clubes que simbolizam o orgulho regional

Napoli e Olympique de Marseille são dois clubes bastante parecidos. Não apenas pelas camisas celestes ou por terem vivido suas maiores glórias na virada entre as décadas de 1980 e 1990. Napolitanos e marselheses são conhecidos em seus países por terem torcidas fanáticas. Uma questão que vai muito além da paixão futebolística em si, abrangendo também a sociologia. As camisas são os símbolos maiores de duas cidades decadentes e oprimidas economicamente pelo norte, cuja população que extravasa seus ranços nas arquibancadas.

A teoria é explicada pelo antropólogo e sociólogo Christian Bromberger, que escreveu um livro sobre a relação de Nápoles e Marselha com o futebol. Em entrevista à revista francesa So Foot, o pesquisador descreveu essa “paixão partidária” que estudou e que influencia tanto a postura dos torcedores de ambos os clubes, empunhando mais uma bandeira política do que esportiva.

“Nápoles e Marselha são duas metrópoles que conheceram um passado glorioso. No Século XIX, a cidade italiana foi capital do reino, que sofreu uma regressão política e econômica. Quanto à francesa, foi um grande porto mediterrâneo, essencial para o comércio entre as colônias no século passado. No entanto, os dois locais conheceram um declínio considerável. São duas cidades estigmatizadas, porque fazem parte de uma imagem na qual o sul é subordinado ao norte, dominado economicamente. O desprezo por Nápoles e Marselha é evidente”, analisa Bromberger.

A exigência das duas torcidas por um futebol vistoso, na realidade, seria uma forma de responder a essa opressão: “Além da cor da camisa, napolitanos e marselheses têm em comum o gosto pelo espetáculo. Também pelo desafio. Havia um desejo de revanche simbólica diante da história mal escrita por um século. As tendências separatistas são revestidas por um senso de honra elevado. As duas cidades estigmatizadas se agarram ao clube com ainda mais fervor. O San Paolo e o Vélodrome são palcos de belas manifestações e um encorajamento real, com torcedores que sabem empurrar suas equipes”.

Forza-OM

Na Provença, região na qual se localiza Marselha, existe um movimento que prega o separatismo da França para a criação de um novo país. Já na Itália, o jogo de forças é o contrário. Partes do norte do país querem se separar do sul, acusando razões econômicas e sociais desiguais como motivos principais para fundar uma nova nação. Não à toa, Napoli e Olympique de Marseille fazem mais questão de vencer Juventus e Paris Saint-Germain, que não são rivais regionais, mas antagonistas dessa divisão regional.

Além disso, o estudioso aponta um comportamento religioso para reforçar essas manifestações de apego: “Sobretudo em Nápoles, onde altares chegaram a ser feitos para a glória de Maradona, ainda que muitas vezes como brincadeira. A religiosidade é marcante entre os napolitanos, assim como podemos ver torcedores do Marseille depositando velas em Notre Dame nos dias de grandes jogos. Geralmente, ela usa uma variedade de rituais. O clube serve como um consenso em ambas as cidades, une diferentes classes sociais, diferentes bairros. Em ambos os casos, existe uma projeção bastante precisa da realidade sociológica”.

Manifestações estas que podem ser vistas de maneira comum em qualquer partida de Napoli ou Olympique de Marseille. Se Barcelona e Athletic Bilbao são vistos como principais símbolos do separatismo na Espanha, napolitanos e marselheses externam ainda mais em suas paixões a vontade de fugir de uma realidade política e econômica que os oprimem.