Oscar, Maicon, Ramires, Willian lamentam (AP Photo/Natacha Pisarenko)

Não faltou talento ao Brasil, faltou time bem armado

Neymar, Oscar, Thiago Silva, David Luiz, Marcelo, Paulinho, Willian, Ramires, Hernanes. Nem é preciso listar todos os jogadores brasileiros para perceber que o Brasil tem muito talento. E olha que ainda ficaram de fora Philippe Coutinho, Miranda, Lucas Moura, Filipe Luís, Neto, Diego Cavalieri. O Brasil tem uma leva de bons jogadores que pode render um grande time. O futebol já mostrou isso muitas vezes. Ter bons jogadores é só um dos elementos para se montar um time. É preciso armá-los em campo, criar um sentido de coletividade. Nem todo grande time é cheio de craques; nem todo elenco de craques é um grande time. A goleada por 7 a 1 para a Alemanha não pode criar a ilusão que a Seleção Brasileira é ruim quanto o placar faz parecer. Não é hora de caça às bruxas, nem de esculhambar os jogadores. Não é hora de detonar a geração, porque isso seria injusto. Há muitos méritos nesses jogadores que precisam ser olhados, e muitos deméritos na preparação e montagem do time.

LEIA MAIS: Alemanha impõe ao Brasil a maior derrota da sua história

O Brasil tem problemas, é claro que tem. O centroavante é o principal deles. Fred é um ótimo jogador, fez uma grande Copa das Confederações, mas não conseguiu manter o nível. Já se desconfiava dele, o próprio Felipão desconfiava dele, mas não teve uma alternativa. A Seleção não conseguiu encontrar um jogador de nível internacional para atuar por ali. Em nenhum momento o time de Felipão foi treinado para a possibilidade de jogar sem um camisa 9 de ofício. Tanto que ele levou Jô como reserva, um jogador não só pior tecnicamente que Fred como ainda com menos mobilidade. Mano Menezes nunca conseguiu dar um padrão de jogo para a Seleção e não conseguiu fazer um bom trabalho, mas se tem um mérito foi perceber que precisava testar uma alternativa. Não conseguiu, Felipão nunca nem tentou. E quando precisou mudar, ficou de braços cruzados esperando que algo acontecesse.

A Alemanha tem excelentes jogadores, tem talentos. Mas pense bem: Khedira, que jogou um bolão, seria titular no Brasil? Temos, no mínimo, jogadores do mesmo nível: Paulinho, Hernanes, Fernandinho, Ramires. O Brasil não tem um goleiro do nível de Neuer, é verdade, mas tem bons goleiros. Há problemas, como todo time tem. Basta lembrar que a Alemanha sofreu com a falta de laterais esquerdos e teve que improvisar Höwedes; teve problema na lateral direita, onde escalou Boateng e Mustafi, que foram mal; não teve opção para o centroavante, levou Klose e não teve nenhum outro da posição, abrindo mão do maior artilheiro da história da seleção alemã para jogar sem centroavante na maior parte dos jogos. Os alemães, que sofreram durante a Copa, quase foram eliminados pela Argélia, não foram os únicos com problemas. Outras seleções passaram por isso.

A Argentina sofreu para montar a sua defesa, joga com laterais medianos e não tem volantes tão confiáveis quanto o Brasil. Jogou com Rojo e, nas quartas de final, com Basanta. Fernando Gago não correspondeu, Biglia também. É preciso lembrar também que a Argentina sofreu demais contra a Suíça, não conseguia ter seus jogadores de frente, talentosos, com boa atuação. Venceu no fim da prorrogação e passou perto de uma eliminação. A Holanda não tinha volantes bons o suficiente para substituir Strootman, um dos melhores do time, que se machucou antes da Copa. Teve que se armar com três zagueiros e fechar o time, teve aplicação, foi bem montada e bem treinada e faz uma boa Copa. Mas sofre, tanto que quase caiu para a Costa Rica. Ficou a um fio de uma eliminação que seria vexatória.

LEIA MAIS: Massacre alemão sepulta passado brasileiro. Mas qual será o futuro?

A grande diferença do Brasil para a Alemanha não é individual, não é dos talentos, jogador a jogador. Não é que a geração alemã seja repleta de craques e o Brasil só tenha jogadores medianos. Não é que o Brasil tenha se tornado, do dia para a noite, em uma seleção como a Bélgica, que tem eventualmente bons jogadores. O BRasil segue com bosn jogadores, com talentos que surgem o tempo todo. O Brasil tem talentos, tem jogadores importantes em vários times do mundo, basta olhar os jogadores que entraram em campo: Neymar no Barcelona, Ramires, Willian e Oscar do Chelsea. Havia como montar um time excelente, tão bom ou melhor que a Holanda, tão bom ou melhor que a Argentina, tão bom ou melhor que a Alemanha. É preciso trabalhar para montar esse time.

Luiz Felipe Scolari, na entrevista pós-jogo, assumiu a culpa pela derrota. Como técnico, ele diz que é responsabilidade dele. É verdade, ele é o responsável. Ao mesmo tempo, ele diz que “tudo que a Alemanha fez deu certo” e “tudo que o Brasil fez deu errado”. Até é verdade, mas é uma análise para lá de superficial. O problema é muito mais grave, de um time que não teve preparo tático e, até, em menor grau, emocional. E isso é responsabilidade da comissão técnica, comandada por ele.

Os jogadores deixaram a desejar, é claro, e isso ficou evidente. Mas o principal é que o Brasil não tinha um time taticamente bem armado, não conseguiu ter um jogo coletivo. Não tinha nem plano A, nem plano B. Os jogadores se esforçaram, brigaram, tentaram. É só olhar o quanto correram jogadores como Hulk, como David Luiz, mesmo Bernard, que entrou só para esse jogo na semifinal. Não é que faltou raça, que tenha faltado determinação, que tenha faltado alma, brio. Nada disso. Os jogadores lutaram sim, e lutaram muito. Só que o empenho não é suficiente se não há um plano de jogo.

O problema é que quando se enfrenta um outro time que também tenha talento, não basta se apoiar nas individualidades. É preciso estar bem armado, é preciso ter um plano de jogo, alternativas. E é preciso ter preparo para momentos difíceis. Ao tomar um gol na semifinal, o Brasil se perdeu. Ao tomar o segundo, o time desmoronou. E aí veio um massacre de outro time que aproveitou esse momento para construir uma vitória histórica. Talvez essa seja a maior lição que fica dessa dolorosa derrota: é preciso preparo além de talento. E isso o Brasil, infelizmente, não teve nessa Copa do Mundo. Como não tem fora dele há décadas.

VOCÊ PODE SE INTERESSAR TAMBÉM: 

- Dez coisas óbvias que só Felipão não estava vendo

Alemanha fulminante massacrou um Brasil atordoado

Khedira e Kroos foram os tratores que esmagaram o Brasil contra a parede


Com um primeiro tempo arrasador, a Alemanha goleia o Brasil e garante sua vaga na final da Copa do Mundo de 2014. 

Sem Neymar, machucado, e Thiago Silva, suspenso, o Brasil foi escalado com duas novidades: Bernard ocupa o lugar deixado por Neymar e Dante compõe a zaga ao lado de David Luiz. 

A Alemanha foi escalada com o mesmo time que venceu a França na última sexta, com Klose titular e Lahm na lateral direita.