Quando você escreve sobre quedas de avião, os especialistas logo se apressam para dizer, logo nas primeiras entrevistas: Nunca há uma única explicação. Um avião não cai por um único motivo. É preciso uma combinação de fatores, da pior maneira possível, para que um gigante daqueles despenque do ar.

E AGORA? Ideias de Felipão mostram que Brasil tem um grande passado pela frente

E O FUTURO? O que o Brasil pode aprender com Picasso para sair da lama 

POR QUE MUDAR? Ou transformamos o futebol ou será apenas o primeiro dos nossos vexames 

Júlio César e David Luiz seguram camisa de Neymar durante execução do hino brasileiro (AP Photo/Natacha Pisarenko)

Júlio César e David Luiz seguram camisa de Neymar durante execução do hino brasileiro antes do fatídico jogo contra a Alemanha (AP Photo/Natacha Pisarenko)

O futebol e a aeronáutica têm muitas diferenças, é verdade, e só quem perdeu parentes em tragédias desse tipo sabe a dor que sente (eu já escrevi sobre essas quedas e nunca vi tanta dor concentrada. É terrível). Mas essa lição, no final das contas, é útil além ar. Ela se aplica à queda da seleção brasileira nesta Copa do Mundo de 2014. Uma campanha com três vitórias, dois empates e duas derrotas, 11 gols marcados, 14 gols sofridos, uma chapuletada por 7 a 1 para a Alemanha e uma derrota por 3 a 0 para a Holanda precisa de uma combinação rigorosa de fatores para acontecer. Neste caso, contra o Brasil. É a pior Copa do país em todos os tempos.

Listei quatro desses fatores – poderia ser muito mais. Alguns deles já foram muito debatidos, como as ideias ruins de Felipão e de Parreira. Mas, neste momento, estou menos preocupado com a fatídica frase de Scolari sobre o apagão de seis minutos. Foi tremendamente infeliz, e mostra o quanto, com ele, o futebol brasileiro tem um longo passado pela frente (como eu já disse neste texto). Só que essa frase mais esconde do que mostra.

Afinal, já ficou claro para qualquer pessoa que a seleção ficou perdida em campo por, no mínimo, 180 minutos – a soma das duas partidas, contra Alemanha e Holanda.

O apagão no futebol brasileiro, que nos levou a esse apagão na Copa no Brasil,  já dura 25 anos. E há pelo quatro motivos (menos que o número de gols da Alemanha) para explicá-lo. Porque não basta mudar o técnico nem apenas o presidente da CBF. É hora de reunir o que sobrou de bom do futebol brasileiro e construir alguma coisa a partir dele. Ainda temos jogadores, temos clubes e temos algumas ideias em circulação. É hora de dar força às iniciativas que podem nos tirar do buraco.

Porque, afinal, o único lado bom dessa tragédia é que ela abre um terremoto, como eu disse neste texto. O maior legado desta Copa é que alguns dos nossos problemas, muitos dos quais passamos décadas empurrando com a barriga, finalmente terão de ser encarados de frente. Eis alguns deles:

A herança maldita de Teixeira

A gente já disse que não gosta de Ricardo Teixeira, né? Então vamos repetir. Não gostamos de Ricardo Teixeira, e por algumas razões simples. Ele reinou sobre o futebol por 23 anos, de 1989 a 2012. Ele é o responsável direto pelo baixo nível técnico do Campeonato Brasileiro, pela falta de uma política clara de formação de jogadores, pela desatualização dos nossos técnicos e… por ter feito de Marin seu sucessor na confederação. A CBF poderia ter criado boas escolas de treinadores, tomado mais cuidado com as categorias de base, ter se esforçado para fazer do Brasileirão um campeonato agradável de se ver e ter modernizado sua estrutura de poder. Não fez.

Ricardo Teixeira ao lado do então sogro João Havelange em 1989

Ricardo Teixeira ao lado do então sogro João Havelange em 1989

Teixeira deixou os produtos da CBF de lado, para usar uma palavra do futebol-empresa. Ele se concentrou nos resultados financeiros da confederação. A modernização foi apenas financeira – dentro, tudo continuou igual. A CBF se tornou uma máquina de fazer dinheiro e pode abrir mão do repasse de recursos públicos. Só que aconteceu algo terrível neste processo: a seleção enriquecia enquanto o futebol brasileiro definhava.

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É verdade que Teixeira conquistou duas Copas do Mundo e mais uma infinidade de outros torneios. Só que é preciso ser justo: não são méritos apenas da sua gestão, mas de décadas de trabalho feitos antes dele.  Teixeira foi incapaz de deixar um legado. Ele não equiparou o futebol brasileiro ao padrão do resto do mundo nem se preocupou em preparar o Brasil para o que viria depois dele. E os resultados estão ai: uma seleção destruída, uma gestão fraca no comando da CBF e aquela sensação de impotência. Para onde ir agora, nessa terra arrasada? Assistir a uma partida horrível no Brasileirão?

Os patrocinadores da CBF

Precisamos ser justos. Ricardo Teixeira só conseguiu se manter todo esse tempo no comando da CBF porque encontrou empresas dispostas a patrocinar a seleção segundo os seus termos. As companhias que passaram esse tempo todo ligadas à confederação poderiam ter pressionado a organização a fazer mudanças. Não fizeram. Elas são co-responsáveis pela tragédia. Se o foco da CBF eram os resultados financeiros, só quem paga a conta poderia ter influenciado as mudanças em alguma direção.

Ricardo Teixeira deixou a CBF em 2012, depois de 23 anos no poder

Ricardo Teixeira deixou a CBF em 2012, depois de 23 anos no poder

A FIFA, aliás, é um exemplo bem claro do poder dos patrocinadores. A entidade só começou a se mexer, depois de décadas de suspeitas de corrupção, quando os patrocinadores foram ao guichê e apresentaram suas condições. Ninguém quer se associar a uma organização com uma imagem tão ruim.

O poder da natureza

Nós acreditamos na frase “nesta terra, em se plantando tudo dá”. Nós acreditamos que, apesar das mudanças profundas pelas quais o país passou nas últimas décadas, ainda seríamos capazes de produzir jogadores por geração espontânea. Basta dar uma bola lá para os moleques e eles se resolvem. Vão até uma peneira e pronto. Temos um novo craque.

As crianças têm muitas opções.´É hora de encarar essa verdade. Futebol é uma carreira como qualquer outra.

As crianças têm muitas opções.´É hora de encarar essa verdade. Futebol é uma carreira como qualquer outra.

Só que o mundo mudou. No passado, o futebol era uma das poucas opções de lazer da molecada. Hoje, o futebol compete não apenas com outros esportes, o que é bom, evita a monocultura esportiva, mas também com trocentas mil outras atividades. É do jogo. Um país menos horrível oferece mais opções de lazer para as crianças e diversos caminhos para ter uma vida legal. Só que, ao mesmo tempo, isso certamente influencia no número de pessoas dispostas a seguir a carreira de jogador de futebol.

Não dá para esperar que uma política de geração espontânea, que funcionou no século 20, com um país agrário, continue funcionando hoje. Quer jogadores? Vai ter de formá-los, assim como países com excelentes condições de vida – como a Alemanha.  Jogador de futebol é uma carreira – e não mais uma dádiva do sol, da água e destas terras tropicais.

O messianismo

A gente acredita que as pessoas vão voltar para nos salvar. A escalação de Parreira e Felipão só serviu de escudo porque, no final das contas, o messianismo é coisa nossa. Nós acreditamos que quem nos salvou uma vez pode nos salvar de novo. É uma insistência maluca nos mesmos nomes porque parece que eles têm algum poder sobrenatural. E isso não acontece só na seleção. Basta ver como os times brasileiros insistem nos mesmos técnicos, repatriam seus ídolos, resgatam seus veteranos. A homenagem é bonita. Agradecer é importante. Só que há outras formas de fazer isso – senão, é ruim para os próprios ídolos, como essa Copa acabou de mostrar.

Parreira ao lado de e Zagallo e Coutinho: Parreira foi importantíssimo para o futebol brasileiro. Só que, infelizmente, as ideias dele envelheceram mal

Parreira ao lado de e Zagallo e Coutinho: Parreira foi importantíssimo para o futebol brasileiro. Só que, infelizmente, as ideias dele envelheceram mal

Só o pensamento mágico permite esse raciocínio: “Essa pessoa fez algo no passado, e foi bom. As coisas mudaram muito, mas essa pessoa fez algo no passado nas condições daquela época. Então vamos contratá-la para que ela tenha o mesmo desempenho em condições totalmente diferentes”. Não dá mais.

A estrutura da CBF

A gente já cansou de falar, mas nunca é demais. Com essa estrutura, com essa organização, não vamos longe. Ela não perpetua apenas dirigentes no poder – ela perpetua um jeito de pensar o futebol no Brasil. E, como a gente já sabe, esse modelo se esgotou. Isso é um tema tão grande que rende um texto mais adiante…. Mas, por enquanto, basta pensar na seguinte forma.

Como alguém com ideias novas vai entrar na CBF se, para se candidatar, é necessário a chancela de 8 federações estaduais e de 5 clubes? E como alguém vai mudar as federações como elas são hoje? O sistema da CBF repele qualquer tentativa de mudança.

Portanto, o trabalho é longo. Se você gosta, mesmo, do Brasil com muito orgulho e com muito amor, é hora de colocar a cabeça para funcionar. Do jeito que está, o apagão vai durar muito mais tempo…