Não foi possível desviar os olhos. Mal deu para piscar, na verdade. Arsenal e Chelsea fizeram daqueles jogos eletrizantes, que te prendem à televisão durante os 90 minutos. E não tinha mesmo como desgrudar, com tantas chances criadas, com os gols se alternando. Os dois times lutaram pela vitória até os últimos instantes. Mas, ao final, o empate por 2 a 2 saiu de bom tamanho para ambos, diante de tudo o que aconteceu ao longo da noite no Estádio Emirates. O primeiro tempo só terminou com o placar zerado porque os dois goleiros, Thibaut Courtois e Petr Cech, foram monstruosos. Ainda fizeram grandes defesas na volta do intervalo, mas não havia como conter o bombardeio de ambos os lados. Os Gunners saíram em vantagem, tomaram a virada dos Blues e buscaram a igualdade nos acréscimos – e isso porque os dois times insistiram no triunfo até que o apito final viesse. Maldoso apito final, quando um embate desses merecia mais minutos. Um jogaço que talvez as linhas abaixo não bastarão para traduzir a real emoção de se acompanhar.

Entre as novidades na escalação do Arsenal, destaque para a volta de Mesut Özil, que retornava ao time titular e compunha trinca ao lado de Alexis Sánchez e Alexandre Lacazette. A esperança para que os Gunners pudessem fazer muito mais do que em sua última exibição, quando decepcionaram ao só empatar com o West Bromwich. A zaga, porém, vinha recheada de desfalques e Shkodran Mustafi era a única das principais opções disponíveis a Arsène Wenger. Do outro lado, o Chelsea vinha com a escalação que pode ser considerada a sua principal, apesar das constantes rotações de Antonio Conte. Poupado na goleada contra o Stoke City, Eden Hazard estava pronto para voar baixo novamente.

O jogo começou movimentado desde os primeiros instantes, com a intensidade vista para os dois lados. Ainda assim, faltaram chances um pouco mais claras. O momento que virou a chave aconteceu aos 14 minutos, e marcou Álvaro Morata pelo resto do tempo. O centroavante aproveitou a desatenção da defesa para arrancar totalmente livre. Saiu na cara de Petr Cech, sem que ninguém o incomodasse. Poderia fazer qualquer coisa, mas acabou batendo para fora, de maneira inacreditável. Um tento perdido que pareceu acordar os times para a sequência.

Morata quase se redimiu no minuto seguinte, em desvio dentro da área que Cech segurou com firmeza. Pouco depois, quem se agigantou foi Courtois. Alexis Sánchez brigou pela bola e chutou entre os marcadores. O belga voou para desviar o chute, que ainda bateu nas duas traves até que ele agarrasse. A partida seguiria assim até o intervalo, frenética. O Arsenal arriscava principalmente em chutes da entrada da área. O Chelsea, por sua vez, buscava as infiltrações pelo meio. Os dois arqueiros, entretanto, permaneciam intransponíveis.

Courtois voltaria a brilhar aos 22, em chute rasteiro de Lacazette que ele buscou no cantinho. Quatro minutos depois, Cech espalmaria a pancada à queima-roupa de Tiemoué Bakayoko. Dois monstros que chegaram a treinar juntos por meses em Stamford Bridge, e que certamente se engrandeceram no período. Nos dez minutos finais, de qualquer forma, eles puderam descansar um pouco. Na melhor chance do Arsenal, Özil bateu cruzado e tirou tinta da trave. Já do outro lado, a resposta viria no último ataque. N’Golo Kanté fez um desarme brilhante no alemão e, na sequência, Hazard foi tão genial quanto ao passar a Cesc Fàbregas. O espanhol tentou bater colocado, mas mandou por cima do travessão.

O intervalo serviu para que os dois times recarregassem as suas energias. E não deixassem os goleiros em paz no início do segundo tempo. Agora foi Cech que se sobressaiu um pouco mais, com dois milagres diante de Hazard e Marcos Alonso. Quatro minutos depois, seria a vez de Courtois fechar a porta contra Lacazette, de frente para o gol. E quando parecia que nenhum dos times passaria pelos paredões, finalmente o Arsenal venceu o arqueiro azul, aos 17. Em uma bola que espirrou dentro da área, Jack Wilshere apareceu para encher o pé. O arremate tocou na trave antes de estufar as redes violentamente. Uma prova da redenção do meio-campista, reencontrando as perspectivas na carreira depois do empréstimo ao Bournemouth. Lacazette ainda poderia ter ampliado pouco depois, em chute desviado que Courtois, para variar, salvou.

A reação do Chelsea ao menos não tardou. O gol de empate saiu em quatro minutos, aos 21, a partir de um pênalti cometido por Héctor Bellerín em Eden Hazard. Na cobrança, o camisa 10 apenas deslocou Cech para chegar às redes. Os dois times passaram a usar os reservas, fazendo as primeiras alterações. E os Blues pareciam mais inteiros para buscar a vitória. Morata perdeu mais um lance claro, de frente para Petr Cech, enquanto Kanté assustou em chute cruzado. O banco do Arsenal não parecia à altura para trazer novas perspectivas nestes minutos finais.

Pela partidaça que Hazard fazia, alguns até podem ter torcido o nariz quando o belga deixou o campo, para a entrada de Willian. Mas não pelo brasileiro, que logo mostrou sua importância e foi decisivo. Em seu primeiro lance, o ponta deu uma inversão perfeita para Davide Zappacosta e clareou o ataque. O italiano passou por Ainsley Maitland-Niles e cruzou para um inesperado Marcos Alonso, que se infiltrou na zaga adversária e apareceu na primeira trave para desviar, superando Cech. A partir de então, a pressa tomou conta do Arsenal. Mais do que qualidade, era necessário mostrar coração – algo que faltou aos Gunners em outros clássicos. Não desta vez.

Após o corte de Marcos Alonso no primeiro momento, Bellerín apareceu na entrada da área para pegar na veia, sem chances de defesa para Courtois. O relógio marcava 46 minutos e ninguém era louco de falar que aquele tento fechava a contagem. Sabedoria necessária diante do que ocorreu na sequência. Morata saiu pela terceira vez de frente para o gol e, pela terceira vez, perdeu, desta vez arrematando em cima de Petr Cech. Na sobra, Zappacosta ainda soltou o balaço, que explodiu no travessão. E o Arsenal buscou o terceiro pelo alto, com Gary Cahill afastando o último perigo instantes antes do apito final. Se a vitória não saiu para qualquer um dos lados, não foi por falta de vontade.

Os números finais, por fim, ratificaram a partida memorável. Foram 30 finalizações, 10 delas certas. Jogo para ficar entre os melhores da Premier League nos últimos anos. Entre os destaques individuais, os goleiros são menções óbvias, pegando demais e sem qualquer culpa nos gols que sofreram. Pelo Arsenal, vale sublinhar a participatividade de Özil, assim como o trabalho de Xhaka e Wilshere na cabeça de área. Já pelo Chelsea, Hazard destoou por toda a contribuição ofensiva, assim como Marcos Alonso. Já pelo meio, Fàbregas e Kanté também trabalharam dobrado com e sem a bola, enquanto Andreas Christensen parece um veterano por sua segurança.

O empate acaba sendo mais benéfico à concorrência do que aos dois clubes presentes no Emirates. O Chelsea soma 46 pontos, perdendo a vice-liderança para o Manchester United. Já o Arsenal chega aos 39, em sexto, ultrapassado pelo Tottenham e permitindo que o Liverpool abra cinco de diferença. Ainda assim, o moral de ambos os times sai elevado depois de um jogo desses. O espírito de luta e a intensidade vista durante os 90 minutos, mesmo com a maratona de fim de ano pesando sobre as pernas, precisa servir de exemplo para a sequência do segundo turno.

Assista ao primeiro gol perdido por Morata

Assista à bola de Sánchez nas duas traves

Assista ao gol de Wilshere, abrindo o placar

Assista ao gol de Hazard, empatando o jogo

Assista ao gol da virada, de Marcos Alonso

Assista ao gol de Bellerín, definindo o placar

Assista à última chance do Chelsea