Vanderlei Luxemburgo e seu pacote inflacionaram o mercado de técnicos no Brasil (Foto: AP)

Como definir o valor de um treinador? No Brasil, o raciocínio é simples: resultados

Com colaboração de Pedro Venancio e Leandro Stein

O clube que contratasse Vanderlei Luxemburgo não levaria apenas um técnico, mas centenas de auxiliares, para fortalecer cada área de preparação, e até novas tecnologias. O tal do pacote fornecia para seus clientes ajudou a inflacionar o salário dos treinadores no Brasil. Mas muitos clubes consideravam o investimento válido. Por um bom período, ter Luxemburgo no banco era praticamente garantia de título. Aos poucos, outros técnicos foram chegando a esse patamar até que contratos de R$ 500 mil mensais deixaram de ser raros na Série A.

É um investimento considerável, de nível parecido ao feito pelas grandes estrelas de cada elenco. Com um agravante: o gasto em um treinador não pode ser retornado com uma venda ao exterior, e eles ainda têm contratos que normalmente obrigam o clube a pagar o salário até o final do acordo. Ou seja, o único jeito de um técnico dar retorno é com o que ele acrescentar ao time, em resultados ou permitindo que determinados jogadores cresçam e se valorizem no mercado.

Nesse cenário, saber avaliar bem quanto vale o comandante de sua equipe é algo fundamental para a saúde financeira e técnica de um clube. Mas, nos clubes brasileiros, não existe nenhuma ciência para definir o valor de um treinador.

Mário Sérgio esteve dos dois lados do balcão. Foi técnico e dirigente de clube, e concorda que os valores são mal avaliados. Em uma entrevista ao Terra, o atual comentarista da Fox Sports disse que, na época de dirigente, não pagaria mais de R$ 100 mil a um treinador. “Acabei pagando R$ 160 mil ao Luxemburgo porque o diretor era apaixonado pelo Vanderlei e eu não podia passar por cima. Mas acho que se paga demais a treinador”, comentou. “Existem treinadores melhores, que merecem ganhar mais, mas não tanto. A diferença de valor não dá a certeza de que o time chegará ao título. Isso já foi provado várias vezes.”

Os técnicos, claro, discordam. Vinícius Eutrópio, comandante do Figueirense, considera que o treinador tem uma grande importância para desenvolver o jogador e deixá-lo ser a estrela. Dado Cavalcanti, do Coritiba, acha que a sua profissão é uma das peças importantes para levar um clube ao sucesso. “Em termos percentuais, é difícil mensurar quanto vale um técnico, mas, se observarmos equipes competitivas, que ganham títulos, sempre vamos ver um bom goleiro, um atacante que faz gols, um líder, um responsável por bolas paradas e um bom treinador. Esses cinco componentes são primordiais.”

Vágner Mancini tem uma abordagem mais matemática para quantificar o valor de um trabalho. Dispensado pelo Atlético Paranaense apesar de ter conseguido vaga na Copa Libertadores e chegado à final da Copa do Brasil, ele acredita que mudou o patamar do seu clube e que isso deveria ser tão valorizado quanto os bons resultados. “O Atlético tinha elenco de valorização ‘x’ e terminou o ano com valorização ‘y’. Vários atletas foram cogitados por equipes do exterior. Mostra que o técnico foi além dos resultados, acabou sendo parceiro do clube, o que é muito importante. A partir do momento em que você revela bons jogadores e dá ao clube a chance de vender atletas no fim do ano, está gerando receitas. Boas campanhas estão atreladas”, argumenta.

Esse seria um dos grandes méritos de Arsène Wenger. O Arsenal vive uma estiagem de títulos dos últimos nove anos, mas o técnico é valorizado pela diretoria pela capacidade de revelar jogadores e gerar lucro para o clube.

Wenger é o exemplo de Falcão: vive jejum de títulos, mas gera receita ao clube (Foto: AP)

Wenger vive jejum de títulos, mas gera receita ao clube (Foto: AP)

Agora, na prática…

Apesar de os técnicos verem modos de quantificar o valor de seus trabalhos, os clubes têm abordagens muito mais pragmáticas. Mario Mazzuco, diretor de futebol do Coritiba, diz não conhecer um mecanismo para medir o valor de um treinador. Ele acredita que o clube precisa saber bem o que quer e quanto pretende gastar. Por isso, o Coxa investiu em comandantes jovens nos últimos anos: Marquinhos Santos, 34 anos, em 2013 e Dado Cavalcanti, 32, em 2014.

Geninho, técnico do Sport e um cético da profissão, identifica um raciocínio muito mais simples na avaliação que os clubes fazem do trabalho de um treinador. “Avaliam resultado. Não fazem outro tipo de avaliação”, disse. “Se o seu time vai bem, acaba valorizando jogador, clube, o próprio profissional. Eu acho que o treinador se baseia, basicamente, fundamentalmente, em resultado”.

Paulo Roberto Falcão, ex-treinador de Internacional, Bahia e da seleção brasileira, considera esse um erro dos clubes. “Tem que ter noção da contratação, fazer entrevistas, como se fosse qualquer empresa. Você quer treinador que revele jogadores? Revelar jogadores e ganhar títulos ao mesmo tempo é muito difícil”, comenta.

Além dos resultados que os técnicos dão, outro condicionante é a capacidade de barganha do clube na hora de negociar. Uma equipe que acabou de demitir o técnico no meio do campeonato precisa rapidamente de um substituto. Ainda mais se a imprensa e a torcida estiverem cobrando. Isso permite a qualquer técnico aproveitar esse desespero e pedir um salário acima do normal, ainda mais se houver poucos treinadores disponíveis no mercado naquele momento e se o time em questão estiver em uma situação bastante delicada, como na beira de sair da briga por uma vaga na Libertadores ou, pior, ser rebaixado.

De qualquer modo, nada disso se faz com base em alguma lógica econômica. São valores que se levantam muitas vezes na emoção do momento da negociação, ou pelo status que um técnico carrega, mesmo que não seja o profissional mais adequado para aquele momento do clube.

Mas, após tantos erros e acertos, os clubes já fazem uma pressão para reduzir os salários médios. Quando os bons resultados de Luxemburgo começaram a ficar raros, a tolerância dos dirigentes com aquelas comissões técnicas enormes desapareceu, tanto que ele foi para o Fluminense, o último clube que treinou, com apenas dois auxiliares. E, ainda assim, foi demitido, por deixar o time na zona de rebaixamento.