Um país esfacelado. Uma guerra que deixou cerca 400 mil mortos, além de milhões de feridos, de desabrigados e de refugiados. A maior crise humanitária deste século, em um dos conflitos mais sangrentos e intrincados das últimas décadas. Desde 2011, a Síria se transformou em um enorme barril de pólvora, cujas explosões estremecem outros cantos do planeta. Não há mocinhos ou vilões no conflito armado, embora seja certo que ninguém sofre mais do que a população, subjugada ao caos e à barbárie. Mas que, no meio da dor imensurável, vê um motivo para sorrir. Para ter esperanças, com o futebol clamando a união de um povo justamente neste momento de cisão. A seleção síria desafiou a guerra nesta terça, ao se confirmar na repescagem das Eliminatórias da Copa de 2018. O gol milagroso aos 48 do segundo tempo, arrancando o empate por 2 a 2 contra o Irã, provocou cenas que soam como milagre.

É certo que a seleção está longe de ser uma unanimidade na Síria. Para muitos, ela ainda representa o poder do ditador Bashar Al-Assad, que utiliza a equipe nacional como instrumento de propaganda. Há quem se recuse as convocações ou quem se apresente apenas por medo de repressão às suas ideias. Entretanto, existe um significado maior do que o joguete sobre a seleção. Mais do que o time de Assad, ainda é a bandeira síria que tremula. Ainda é o nome do país que se reproduz ao redor do planeta, sem considerar divisões ou atores políticos. E, principalmente, demonstra a força dos sírios em meio ao derramamento de sangue. É a impressão que prevalece. Que amplifica o significado da façanha em Teerã nesta terça.

A Síria entrou em campo já desfrutando de uma oportunidade inimaginável. Mesmo com todas as dificuldades para reunir o time, para convocar os jogadores que debandaram e mesmo para realizar seus jogos, mandando as partidas na Malásia, a equipe nacional conquistou resultados surpreendentes. Chegou à rodada final da terceira fase das Eliminatórias na terceira colocação do Grupo B, dependendo apenas de si para se meter na repescagem. Todavia, seria uma noite de drama. O desafio contra o Irã, já classificado, era enorme de qualquer maneira. Além disso, o confronto direto entre Uzbequistão e Coreia do Sul, em Tashkent, interessava bastante aos sírios.

Durante 32 minutos, a Síria tinha a vaga direta à Copa do Mundo em suas mãos. Aos 13 do primeiro tempo, Tamer Haj Mohamad abriu o placar para os visitantes no Estádio Azadi, em gol comemorado com fervor. O empate do Irã saiu pouco antes do intervalo, com Sardar Azmoun. Ainda assim, com o 0 a 0 mantido em Tashkent, os sírios iriam para a repescagem. A situação mudou aos 19 da etapa complementar, quando Azmoun virou aos persas. Contudo, a seleção síria não deixou de lutar. Precisava de apenas um gol para continuar sonhando com a Rússia. E ele aconteceu quando as esperanças já se esvaiam, aos 48 do segundo tempo. O contra-ataque fulminante terminou com Omar Al Somah batendo por baixo do goleiro e decretando o empate, já era suficiente para confirmar a surpresa na repescagem.

A partir do tento, o que se viu foram cenas do mais puro júbilo. Os jogadores comemoraram como se tivessem ganho a própria Copa do Mundo, com invasão de campo e lágrimas impossíveis de esconder. E a celebração aumentou ao apito final, provocando uma euforia misturada à emoção nas arquibancadas. Atletas e comissão técnica carregavam bandeiras do país. Agradeciam não apenas aos céus, mas também ao bom número de torcedores, que estiveram nas arquibancadas e foram testemunhas oculares da noite histórica. Na saída de campo, os heróis choravam copiosamente durante as entrevistas às televisões árabes.

O êxtase sírio, de qualquer forma, não se conteve aos limites do Estádio Azadi. Na Síria, várias cidades pararam para acompanhar o jogo. A população se reuniu em praça pública, enfrentando os riscos. Demonstrando a sua união acima da guerra. Damasco e Aleppo, sobretudo, levaram uma multidão às ruas. Gente que sofreu, se abraçou, festejou e agora atravessa noite a dentro na comemoração. A Austrália será um desafio e tanto. Independentemente disso, o sonho não se interrompe. Ele se viverá ao máximo por ao menos mais dois jogos, carregando uma ambição que não se contém ao futebol.