Os deuses indígenas que cuidam do destino da Libertadores foram travessos no sorteio dos grupos. Quiseram que o Maracanã recebesse dois clubes estigmatizados logo na primeira rodada da segunda fase. E os burocratas da Conmebol terminaram de fazer o serviço, ao marcarem o encontro para abrir aquela etapa em que muita gente diz ‘agora o campeonato começou de verdade’. Botafogo e San Lorenzo entraram em campo, tanto quanto pela vitória, também pelo conforto de seus torcedores contra seus carmas. Mas quem teve peito quente, e venceram com todos os méritos, foram os alvinegros, com os 2 a 0 no placar.

Se de um lado o clube da Estrela Solitária é taxado como companheiro do imponderável, dono do ditado ‘tem coisas que só acontecem com o Botafogo’, o San Lorenzo também carrega sua cruz. O Clube Atlético Sem Libertadores da América, o único grande argentino cujos grandes triunfos continentais são apenas a Mercosul e a Copa Sul-Americana. Dois times que, conforme a crença popular, não costumam contar com a sorte. Porém, quando as nuvens negras se misturam, sempre pesa a competência. E, isso, os botafoguenses tiveram de sobra nesta noite.

O susto na estreia contra o Deportivo Quito foi uma lição assimilada pelos cariocas. O postura demonstrada na última quarta-feira, com a classificação na pré-Libertadores, foi repetida contra os cuervos. O campeão argentino pouco intimidou. Ficou contido em seu campo, com poucas descidas ao ataque, quase nunca perigosas. Enquanto isso, o Botafogo tinha mais volume. E achou seu gol aos 30 minutos do primeiro tempo, em um chute de Jorge Wagner que Torrico espalmou pra frente e deixou limpa para El Tanque Ferreyra estufar as redes – limpando também um pouco da barra com a torcida, que já pega no seu pé.

Em alguma sala escondida no Vaticano, o Papa Francisco provavelmente blasfemou seu time de coração. O San Lorenzo fez jus à auréola que circunda o escudo em seu peito e seus jogadores se portaram como santos, sem ameaçar os anfitriões nem mostrar os predicados que os fizeram terminar 2013 em alta. A passividade dos portenhos aumentou no segundo tempo. Wallyson mostrou-se outra vez disposto a ser o talismã e acertou um chutaço de fora da área, aos sete minutos, para ampliar o placar. Com a vantagem estabelecida, bastou aos alvinegros manterem o controle, sem que precisassem se esforçar tanto para isso.

O Botafogo não é o brasileiro mais credenciado para o título e possui uma equipe ainda com interrogações, tanto no comando quanto nas opções dentro de campo. Nos dois últimos jogos, todavia, os cariocas demonstraram uma característica bastante importante para ir longe na Libertadores: confiança em si. O peso das quase duas décadas longe do principal torneio continental parece não ser mais sentido. Não foi uma atuação brilhante, que fique claro, mas a tranquilidade pavimentou o caminho do triunfo. Três pontos já importantes rumo aos mata-matas.

Foto: Jorge Rodrigues