“Eu li uma história sobre um produtor que ouviu uma fita dos Beatles, antes de eles serem famosos, e decidiu que eles não tinham nenhuma melodia”, afirma ao Guardian James Taylor, um torcedor do St. Mirren, pequeno clube escocês que, em 31 de maio de 1978, demitiu Alex Ferguson. “Bom, eu não acho que a vergonha dele chega perto da nossa, sabendo quem demitimos. Não há uma vez que eu o vejo na televisão e não penso no que poderia ter acontecido”.

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O St. Mirren acaba de comemorar o título da segunda divisão escocesa, o mesmo que Alex Ferguson conquistou por eles, em 1976/77, no seu primeiro trabalho de verdade como treinador de futebol. Na temporada seguinte, porém, Ferguson entrou em rota de colisão com o presidente Willie Todd, o único homem na história que demitiu o técnico britânico mais condecorado de todos os tempos.

O primeiro trampo de Ferguson com a prancheta foi no East Stirlingshire. Mas durou apenas alguns meses. Em outubro de 1974, ele já estava em Paisley, 20 minutos de carro ao oeste de Glasgow. O St. Mirren era um clube praticamente amador naquela época. Apesar de ter uma população de aproximadamente 75 mil pessoas, a quinta da Escócia, o público dos jogos às vezes era de apenas mil torcedores. Havia conquistado duas vezes a Copa da Escócia, em 1926 e em 1959 quando decidiu apostar em um jovem Ferguson de 32 anos.

Como faria em todos os lugares pelos quais passou, Ferguson revolucionou o St. Mirren. Introduziu uma estrutura mais profissional, levou a média de público além da marca de 10 mil, revelou jogadores e levou o clube para a elite, conquistando o título da segunda divisão de 1976/77, com uma equipe cuja média de idade era de apenas 19 anos. Foi quando começou a desenvolver suas principais características como técnico. Apostou em uma vasta rede de observadores para prospectar talento e relacionou-se com os seus jogadores daquela maneira maquiavélica que ficou notória no Manchester United: se não puder ser amado, será temido. Ao longo dos seus quatro anos no clube, deu suas famosas broncas e espionou o elenco para se assegurar de que eles não passavam as noites bebendo em pubs.

Mas um episódio mostrou como, já naquela época, estava disposto a proteger os seus pupilos. Em 1976, durante uma turnê de pré-temporada pelo Caribe, o St. Mirren desembarcou em Guiana para um amistoso com a seleção local.  Os donos da casa, porém, não estavam propensos a serem bons anfitriões. Bateram sem parar, especialmente no atacante Robert Torrance. Ferguson reclamou com a arbitragem, que nada fez. Eventualmente, o treinador perdeu a paciência. Como havia parado de jogar recentemente, e já vestia o uniforme do clube, colocou a si mesmo dentro de campo. E começou a batalha com um zagueiro grandão que liderava a série de porradas. Ferguson, enfim, conseguiu, em suas próprias palavras, “acertar perfeitamente” o adversário. Enquanto o inimigo rolava de dor no chão, Ferguson foi expulso.

“Não deixe ninguém saber dessa expulsão”, disse Ferguson, aos jogadores, segundo a Four Four Two. E eles realmente ficaram de boca fechada, até o próprio treinador revelar o caso em uma autobiografia. “A turnê foi um grande fator no que fizemos naquela temporada. Nós conhecemos a personalidade do treinador e pudemos ver o que ele pensava dos jogadores. Isso nos uniu”, afirmou o ex-atacante Tony Fitzpatrick, à BBC. Ao fim daquela temporada, o St. Mirren seria campeão da segunda divisão. Durante o verão, o Aberdeen fez a primeira abordagem para contratar Ferguson.

O treinador decidiu ficar. Mas as brigas com o presidente Willie Todd intensificaram-se, dividindo o clube. Entre problemas internos, o time caiu de rendimento e foi apenas oitavo colocado. Em maio, o Aberdeen voltou à tona e, desta vez, Ferguson quis sair, mas tinha medo de ser processado, caso quebrasse seu contrato unilateralmente. No fim do mês, foi convocado à sala de Todd, que apresentou uma lista com 15 momentos em que ele violou o acordo com o St. Mirren, incluindo coisas pesadas, como irregularidades fiscais e passar dicas sobre os resultados dos jogos para apostadores.

A reação de Ferguson foi bem engraçada. “As razões para me demitir foram ridículas. Eu não consegui parar de dar risada. Todd estava muito incomodado e pediu para que eu parasse de rir”, diria Ferguson. Todd explicou, em um texto para o Guardian em 2003, que o verdadeiro motivo por trás da decisão foi que o treinador já havia tomado a decisão de ir embora e havia inclusive chamado um dos jogadores para acompanhá-lo. “Era uma clara violação de contrato da parte dele. Ele ainda tinha contrato com o St. Mirren, e o Aberdeen não havia entrado em contato para discutir uma compensação. Houve outras histórias na época, como Alex querendo que jogadores recebessem salário sem impostos, mas não foi esse o problema. O problema foi que o St. Mirren estava sendo desestabilizado porque o treinador queria ir embora”, escreveu.

Ironicamente, foi Ferguson quem processou o clube por causa da demissão. Defendeu-se da lista de violações apresentada por Todd, mas um tribunal julgou a favor do presidente do St. Mirren. Ferguson eventualmente lamentou a “estupidez” de ter levado o caso à Justiça. Afirmou que estava “obcecado por vingança”. Mas provavelmente nada nesse caso foi tão estúpida quanto a avaliação da decisão judicial de que Ferguson não “possuía, nem por experiência, e nem por talento, nenhuma habilidade administrativa”. Todd, no texto de 2003, admitiu que se arrepende de como lidou com a saída de Ferguson e disse que ninguém trabalhou mais que o treinador naquela época: “Mas, em 1978, era um caso simples de fazer o que fosse melhor para o clube. Eu não tive nenhuma opção a não ser demiti-lo”.

Nos anos seguintes, enquanto Ferguson supervisionava o período de maior sucesso da história do Aberdeen, o St. Mirren passeava pelo meio da tabela do Campeonato Escocês. E na década de noventa, enquanto Ferguson estabelecia o Manchester United como um gigante do futebol mundial, o St. Mirren amargava a segunda divisão. Provavelmente, não daria para segurá-lo por muito tempo, mas Todd, na realidade, nem tentou.