O San Lorenzo ganhava por 2 a 0, em partida válida pelo Campeonato Argentino de 1931, o primeiro abertamente profissional no país sul-americano. Em um espaço de sete minutos, Bernabé Ferreyra marcou três vezes e virou a partida a favor do Tigre. Ou em um espaço de cinco minutos. Ou quatro. Ou três. Na boca dos trovadores, o número de minutos que El Mortero de Rufino demorou para anotar a sua lendária tripleta diminuiu com o passar do tempo. Sempre que era interpelado na rua por algum torcedor que dizia ter visto aquela partida do estádio, sacava um caderninho do bolso e fazia um risco.

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“Neste caderninho, anoto todos que me viram naquela tarde. Havia aproximadamente cinco mil pessoas nas arquibancadas. Com os que eu anotei que diziam ter estado lá, já tenho o bastante para encher três estádios do River Plate”, dizia, segundo a revista El Gráfico. O estádio do River Plate a que ele se referia era o Monumental de Núñez, inaugurado em 1938, e cuja construção foi possível muito em função de Bernabé Ferreyra, ídolo dos Millonarios, responsável por atrair multidões para os jogos, consequentemente aumentando as rendas de bilheteria, muitos dos quais queriam apenas presenciar seus potentes chutes de média e longa distância.

Apesar de franzino, Bernabé Ferreyra, nome herdado do pai que morreu quando tinha dois anos, era capaz de desferir mísseis. Reza a lenda que quebrou a mão de um goleiro que se atreveu a defender uma de suas cobranças de pênalti. A qualidade singular chamou a atenção de olheiros de Buenos Aires que buscavam talentos no interior da Argentina. Começou a jogar no Jorge Newbery de Rufino, onde nasceu e cresceu, e foi garimpado quando defendia o Buenos Aires al Pacífico. Sua vida realmente melhorou quando foi contratado pelo Tigre e recebia 200 pesos mensais – por fora, ainda na época do amadorismo – para complementar a renda de sete pesos que arranjava como pintor de obras.

O River Plate empolgou-se com o profissionalismo e decidiu contratar quem quisesse pelo preço que fosse necessário. Queria crescer: naquela época, havia conquistado apenas um Campeonato Argentino e não costumava colocar jogadores na seleção. Abriu a carteira para contratar Carlos Peucelle, em 1931, e, no ano seguinte, pagou mais do que o triplo para tirar Bernabé Ferreyra do Tigre, fazendo valer o apelido de Millonarios que começava a grudar no clube.

Bernabé Ferreyra custou £ 23 mil e fez justiça ao que valia com 187 gols em 185 partidas pelo River Plate – 232 em 228 em toda a carreira. Os Millonarios quebraram o recorde de transferências pela 12ª vez na história desde quando o West Brom recebeu £ 100 do Aston Villa pelos serviços de Willie Groves, em 1893. Foi a primeira vez que um clube não britânico executou a maior transferência da história. E segue sendo a única que não envolveu nenhuma agremiação europeia. O negócio de Bernabé Ferreyra dobrou o recorde anterior, de £ 10,890 pagas pelo Arsenal ao Bolton por David Jack. E foi a última vez que o recorde de transferências foi dobrado. Até o Paris Saint-Germain depositar £ 200 milhões na conta do Barcelona.

Era mais fácil Bernabé Ferreyra sair da sua tumba e marcar mais alguns gols para o River Plate do que o recorde de transferência anterior, as £ 89 milhões que o Manchester United pagou por Pogba, não ser quebrado na atual janela de verão. O próprio United já havia se aproximado, com £ 75 milhões por Lukaku. O preço de jogadores médios e bons havia inflacionado. O Real Madrid acenava com £ 160 milhões para tirar Mbappé do Monaco. Philippe Coutinho era assediado, e continua sendo, para fora do Liverpool. Acabou sendo Neymar quem bateu o recorde. Não apenas bateu: dizimou de uma maneira que não era vista em 85 anos.

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A transferência recorde de Bernabé durou 17 anos, período que abrange toda a Segunda Guerra Mundial, quando seria pouco educado torrar dinheiro com jogadores, mesmo nos campeonatos que não foram interrompidos. Em 1949, o Manchester United pagou £ 24 mil, apenas £ 1 mil a mais que o River Plate, para contratar Johnny Morris, do Derby County. O próximo grande salto foi cinco anos depois: Hans Jeppson trocou a Atalanta pelo Napoli por £ 52 mil.

Da ida de Jeppson ao Napoli à de Hernán Crespo do Parma para a Lazio, em 2000, o recorde foi quebrado 22 vezes e apenas em cinco ocasiões o clube comprador não era da Itália. O Barcelona aparece com três reforços: Johan Cruyff, Diego Maradona e Ronaldo. Os outros dois são Alan Shearer, do Blackburn para o Newcastle, e Denílson, do São Paulo, o primeiro, e ainda único, clube brasileiro a se envolver em um negócio recorde, para o Bétis.

Quando Cruyff trocou o Ajax pelo Barcelona, em 1973, foi a primeira vez depois de Bernabé em que o recorde quase foi dobrado. Os catalães pagaram £ 922 mil aos holandeses, bem mais do que as £ 500 mil que a Juventus havia desembolsado por Pietro Anastasi, cinco anos antes. O próximo a quase dobrar foi Diego Maradona, que consta duas vezes seguidas na lista: custou £ 3 milhões ao Barcelona – o recorde anterior era £ 1,75 milhão, por Paolo Rossi – e £ 5 milhões ao Napoli. Em tempos recentes, isso quase aconteceu quando Cristiano Ronaldo trocou o United pelo Real Madrid, por £ 80 milhões, quase duas vezes mais do que o preço pago pelo Real para comprar Zidane da Juventus: £ 46,6 milhões.

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O tempo que demorou para um clube dobrar o preço mais alto pago por um jogador dá a medida da excepcionalidade que foi a transferência do brasileiro para o Paris Saint-Germain. A cláusula de rescisão de £ 200 milhões (ou € 222 milhões) foi colocada no contrato, renovado ano passado, com o objetivo de afastar qualquer pretendente. Era para ser proibitiva, mas o clube francês cavou fundo nos bolsos do seu dono para conseguir pagá-la. O preço fora da curva não foi apenas fruto da inflação galopante dos preços do futebol europeu, mas reflexo tanto da qualidade do jogador quanto da vontade irrefreável dos franceses de comprá-lo. Em condições normais, provavelmente demoraríamos mais alguns anos para chegarmos a esse valor.

Veja o gráfico dos recordes de transferências, em libras (£ 1 – R$ 4):

Recorde de transferências
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