A atitude de Neymar foi uma ação publicitária

Ainda dá para acreditar em alguma espontaneidade de Neymar?

Pouco depois da genial resposta de Daniel Alves às ofensas racistas e primitivas da torcida do Villarreal, Neymar publicou uma foto em seu Instagram segurando uma banana com o slogan “Somos todos macacos”. O que parecia ser apenas um gesto de companheirismo notável do jogador do Barcelona ao seu colega de clube e seleção, na realidade, era uma ação de publicidade orquestrada pela agência Loducca. Não era solidariedade ou, no mínimo, não era apenas solidariedade.

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Neymar é um fenômeno da publicidade não apenas por ser o principal jogador da seleção brasileira, provavelmente a equipe de futebol mais conhecida do mundo. Tem aquela tal alegria e ousadia para jogar futebol e parece ser um moleque não muito diferente de tantos outros que gostam de brincar de bola pelas ruas do Brasil. O sorriso carismático conquista o coração e os sonhos das mocinhas. Com quase tantos patrocinadores quanto anos de idade, é candidato a formar o triunvirato da publicidade com Ronaldo e Beckham quando sua carreira chegar ao fim.

Mas está começando a ficar chato. Outro dia, ele defendeu o Barcelona preocupado em mostrar a cueca para fazer propaganda da marca de roupa de baixo. Vamos deixar de lado que um jogador deveria entrar em campo pensando apenas na partida. O problema é que Neymar está no processo de trocar sua imagem de garoto espontâneo e inocente pela de uma marionete de publicitários.

Neymar levantou a camisa para mostrar a cueca (Foto: AP)

Neymar levantou a camisa para mostrar a cueca (Foto: AP)

Um jogador de futebol não se torna ídolo, ainda mais em nível nacional, apenas pela sua habilidade com os pés. Contribui muito para a idolatria dos apaixonados o personagem que ele constrói ao longo da carreira. Além de craque, Sócrates era médico, brigava pela democracia, tinha frases filosóficas, uma barba de esquerda e enchia a cara regularmente. Renato Gaúcho deu feliz Dia dos Namorados para meia dúzia de mulheres diferentes ao vivo no Globo Esporte. O próprio Ronaldo marcou 15 gols em Copas do Mundo, mas a segunda coisa que lembram sobre ele são as repetidas histórias de superação.

Nesse roteiro que o ídolo escreve a partir do seu primeiro chute profissional, as atitudes dentro e fora de campo, o jeito como trata os torcedores, as brincadeiras que chegam ao público, aquilo que ele pensa sobre assuntos importantes, enfim, praticamente tudo que o envolve, contam tanto para a construção do personagem quanto os dribles e os lançamentos. E cada tuitada, cada foto, cada declaração, cada movimento que Neymar realiza parece ser minimamente calculado pelos seus assessores. Isso pode diminuir drasticamente a identificação dos fãs com o ídolo e acabar construindo um personagem artificial, irritantemente perfeito (para alguns) e engessado pelas características do público-alvo dos seus patrocinadores.

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Se a credibilidade do maior garoto-propaganda do futebol brasileiro continuar sendo abalada desse jeito, em pouco tempo será difícil de reverter essa situação. Mesmo cenas claramente espontâneas vão colocar uma pulga atrás da orelha dos mais céticos: será que não se trata de outra campanha publicitária?

Você pode estar se perguntando o que isso tem a ver com outras pessoas a não ser Neymar, que pode ganhar menos com publicidade, e seus patrocinadores. É que, por 24 horas, foi reconfortante a ideia de que um jogador de futebol tem a capacidade de apoiar um colega apenas por senso de companheirismo. Que um craque que passou pela mesma situação desagradável usou a sua influência para ajudar uma causa social de primeira importância. Que uma celebridade do futebol está ciente que a sua responsabilidade como ídolo transcende assinar alguns autógrafos.

A solidariedade de Neymar não surgiu do seu próprio coração, mas de um escritório com móveis de design italiano em algum lugar de São Paulo, e talvez estejamos mesmo muito velhos para acreditar em espontaneidade no mundo controlado das celebridades e das super estrelas do futebol.

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