Neymar apanhou bastante nesta Copa do Mundo. Dentro de campo e fora de campo, inclusive por de vez em quando exagerar nas reações às pancadas que levou dentro das quatro linhas. Que tenha sido por intervenção do treinador, dos companheiros, da família, dos parças ou por auto-consciência, o craque brasileiro tem deixado para trás traços irritantes que vinham atrapalhando o seu comportamento. Havia crescido contra a Sérvia e, diante do México, fez a sua atuação mais centrada na Rússia. E, não por coincidência, também a melhor tecnicamente.

LEIA MAIS: Brasil foi maduro, seguro defensivamente e mudou taticamente para eliminar México com autoridade

Nos primeiros dois jogos, Neymar parecia uma bomba prestes a explodir. Segurava demais a bola, tentava dribles infrutíferos, irritava-se com qualquer coisa. Xingou o árbitro, tacou a bola no chão, ficou pendurado por causa de um cartão amarelo por simulação. O choro ao fim da vitória por 2 a 0 sobre a Costa Rica parece ter sido mesmo um divisor de águas. Teatral, como alguns acreditam, ou espontâneo, não importa. Neymar encontrou um rumo e, quando isso acontece, o seu poder decisão e a sua qualidade são armas imprescindíveis para a seleção brasileira.

Não que tenha sido a melhor atuação de sua carreira, mas o craque ficou próximo da perfeição nas tomadas de decisão, um problema que vinha aparecendo com frequência nesta Copa do Mundo. A jogada mais notória foi contra a Costa Rica, naquele pênalti marcado pelo árbitro e anulado após a revisão do assistente de vídeo. A bola caiu limpa para a perna esquerda, mas ele preferiu tentar o drible e foi desarmado. Contra o México, acertou quase tudo. Quando tinha que driblar, driblou, como no primeiro tempo, ao tirar dois marcadores da jogada com uma única finta e ficar cara a cara com Ochoa, que fez a defesa.

Quando tinha que passar, passou. Associou-se com Coutinho, um pouco abaixo nesta segunda-feira, e buscou as tabelas com os companheiros. Quando tinha que finalizar, finalizou. Neymar bateu sete vezes a gol, mas por consequência natural do jogo coletivo do Brasil, e não por tentar centralizar as jogadas em si. Recebeu na entrada da área, com espaço, e fez Ochoa trabalhar. Cobrou uma falta pela esquerda com perigo. Tentou outra de longa distância, mas pegou mal. Recebeu de Willian e tentou surpreender Ochoa com um toque rasteiro no canto. Passou perto da trave. Além dos dois chutes nos gols brasileiros.

Um fato relevante da partida de Neymar é que muitos desses lances de perigo, incluindo o primeiro gol, surgiram na região central do gramado, e às vezes até na direita. Ele deixou de ficar extremamente preso à ponta esquerda e se movimentou bastante. Na abertura do placar, por exemplo, foi muito inteligente ao puxar a marcação de Layún, que havia entrado na lateral no intervalo, e abrir o corredor que Willian atacou. Seu toque de calcanhar escancarou a jogada. E Neymar apareceu na pequena área para completar. No segundo tento, disparou pela ponta esquerda e tentou dar um toquinho de bico na saída de Ochoa. Perdeu um pouco o equilíbrio e não conseguiu colocar a força necessária. O goleiro mexicano conseguiu desviar, e Firmino fez 2 a 0 para fechar o placar.

A reação ao pisão de Layún tem sido vista como exagerada – e de fato pode ter sido. Mas é difícil julgar porque Neymar estava no chão, fora de campo, com a jogada parada. O jogador mexicano não tinha nenhuma necessidade de encostar nele. Vale lembrar que foi no tornozelo que, segundo a comissão técnica, o atacante machucou na partida contra a Suíça. E perto do pé que ele machucou três meses e meio atrás. Normal que a região estivesse um pouco sensível. Mais importante, não justifica que o árbitro não tenha dado pelo menos um cartão amarelo para o lateral direito.

Em uma Copa do Mundo em que as grandes seleções estão encontrando dificuldades, e que craques como Cristiano Ronaldo e Lionel Messi já voltaram para casa, a curva ascendente de Neymar bem na hora do mata-mata é uma ótima notícia. Quando se criticava o craque, era somente isso que se buscava: que ele colocasse a cabeça no lugar para conseguir desempenhar todo o futebol que ele é capaz. E, como ficou demonstrado pela milésima vez nesta segunda-feira, todo o futebol que ele é capaz é muito futebol.