Nilton Santos era o último ainda marcado por aquela chaga. E pouco lembrado por ela. O remanescente dentre os 22 brasileiros que disputaram uma Copa no país. Que sentiram na pele a dolorida vitória do Uruguai, capaz de calar 200 mil no Maracanã. Mas também um dos únicos, ao lado de Castilho, a se refazer daquele baque, levantando a Jules Rimet oito anos depois. De caçula da seleção perdedora de 1950, se tornou a Enciclopédia do Futebol, ícone dos bicampeões do mundo em 1958 e 1962.

É uma lástima que Nilton Santos não possa estar no novo Maracanã. Participar da volta do Mundial ao Brasil 64 anos depois. Mostrar como o futebol nacional se reconstruiu nos anos seguintes, transformando a frustração em garra para levar a Copa. Aos 88 anos, o carioca faleceu em decorrência das complicações de uma pneumonia. Coincidência ou não, em um hospital do bairro de Botafogo, que ajudou a tornar mundialmente famoso pelos 16 anos de serviços prestados, pelos mais de 700 jogos oficiais, pelos 26 títulos conquistados com a camisa alvinegra.

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A ascensão de Nilton Santos foi instantânea. Atacante nas peladas, tornou-se lateral quando chegou ao Botafogo, em 1948. No ano seguinte, já fazia sua estreia pela seleção brasileira, entrando durante a partida contra a Colômbia pelo Campeonato Sul-Americano. Às vésperas da Copa de 1950, foi titular na maioria dos jogos da equipe na preparação da competição. No entanto, o jogador de 23 anos não entrou em campo nenhuma vez no Mundial.

“Eu não disputei nenhum jogo por causa do Flávio Costa. Ele era mandão à beça e eu nunca gostei dele. Primeiro ele implicou com a minha chuteira, que era macia. Ele achava que jogador de defesa tinha que jogar com chuteira de bico duro. Então eu fiz uma brincadeira, falei que eu não precisava dar chutão na bola porque não tinha raiva dela. Ele ficou bravo e não me colocou no time. Sabia com certeza absoluta que não ia jogar nunca”, explicou anos depois, em entrevista ao UOL Esporte.

 

Nilton Santos, presente em quatro Copas do Mundo

O titular na posição de Nilton Santos foi Bigode, apontado como um dos principais culpados pela derrota ao Uruguai. Não para a Enciclopédia: “A culpa da derrota foi do Flávio Costa. Qualquer um da defesa pode ser driblado. O Nena era melhor do que o Juvenal e o Flávio queria fazer média porque o Nena jogava no Inter e o Juvenal no Flamengo. O Bigode foi driblado no meio do campo e o Juvenal tinha que cobrir, mas só ficou acompanhando”, afirmou. “Coitado do Barbosa. Ele carregou uma cruz uma vida inteira. A gente se encontrava num time de veteranos e os caras falavam que era esse o Barbosa que levou o gol na Copa”.

E o que sentiu quando acabou a decisão? “Aquela solidão. Um olhou pra cara do outro sem ter explicação. Eu fiquei embasbacado, mas intimamente sabia por que tínhamos perdido. Nunca falei nada para não sacanear ninguém. Perdemos pela vaidade, pelo já ganhou. Ninguém ganha nada na véspera. Primeiro você ganha, depois você banca. Se começa a falar muito você instiga o adversário”.

Apesar de estar no grupo, Nilton Santos se recuperou da tragédia. Pelo Botafogo, passou a enfileirar títulos. Sobretudo, ajudou a descobrir um certo Garrincha, a quem teve que marcar logo no primeiro treino, tomando novos bailes do novato por muito tempo. Já na seleção, a titularidade veio a partir de 1952. Era um dos esteios do time na dura eliminação na Copa de 1954, quando foi um dos expulsos na famosa ‘Batalha de Berna’, contra a Hungria. Na ocasião, saiu no braço com Josef Bozsik e, de certa forma, contribuiu na derrocada do Brasil.

A grande glória, porém, ficou guardada para a Suécia. Nilton Santos foi o melhor lateral da Copa graças ao estilo arrojado. Era um marcador eficiente, mas também excelente no apoio – e não há exemplo maior disso do que o gol na estreia contra a Áustria, entre os gritos de ‘volta’ e os de comemoração de Vicente Feola. Titular em todos os jogos, foi um dos nomes experientes que abriram espaço para a explosão de Garrincha, Pelé.

Nilton Santos Em 1962, o defensor era o mais velho na seleção brasileira com maior média de idade em Copas do Mundo. Uma tarimba evidenciada no jogo decisivo contra a Espanha, no famoso passo para fora da área que transformou em falta um pênalti para Fúria, vital para a classificação do Brasil. Não era o capitão do Brasil, mas sua voz de comando era uma das mais respeitadas do elenco. Aos 37 anos, encerrava na memorável vitória por 3 a 1 sobre a Tchecoslováquia sua passagem pela Seleção, gloriosa como poucas.

Dentre brasileiros e uruguaios, o único sobrevivente da decisão de 1950 é Ghiggia. Nada mais emblemático que o único capaz de voltar ao Maracanã em 2014 seja o autor do gol do título. Que, no entanto, talvez não tivesse a mesma sorte se Nilton Santos estivesse em campo. “Nunca perdi uma final”, se vangloriava a Enciclopédia. ”E o Ghiggia nunca fez um gol quando joguei contra ele”. Em compensação, o craque também ponderava sobre o destino do Brasil após aquela final: “Acho que se a gente ganhasse a Copa, talvez não ganhasse as outras. Quando perde, a gente tem que procurar melhorar”.

Nunca saberemos. Hoje, a única certeza é a da perda imensa de Nilton Santos. Bicampeão do mundo. Lenda do Botafogo. O melhor lateral esquerdo de todos os tempos.