O River Plate conquistou apenas uma vez a Copa Libertadores nos anos 1990. O título solitário, porém, não é suficiente para mensurar a força dos Millonarios naquela década. Se o ápice aconteceu na final contra o América de Cali em 1996, as glórias experimentadas em Núñez naqueles tempos vão muito além. E a verdadeira capacidade dos esquadrões se explicitam no Campeonato Argentino. La Banda faturou oito títulos nacionais em 19 possíveis, entre 1991 e 2000. Já o momento de maior domínio aconteceu há 20 anos. Em 21 de dezembro de 1997, o River comemorava a conquista do Apertura e, consequentemente, o tricampeonato argentino. Foi a última vez que um clube do país registrou tal sequência na liga. E aquela noite, de quebra, ainda marcou a despedida do maior símbolo desta era vitoriosa dos Millonarios: o genial Enzo Francescoli pendurava as chuteiras.

Campeão do Apertura 1994, o River Plate passou os três campeonatos seguintes longe da taça. Ao mesmo tempo, pavimentava a sua série de conquistas através do retorno de Ramón Díaz. Craque dos Millonarios em seus tempos de jogador, o veterano foi convencido a voltar a Núñez logo depois de sua aposentadoria nos gramados, agora como treinador. E o talento na nova função não demorou a se escancarar. Com um elenco liderado por Enzo Francescoli, mas recheado por jovens talentosíssimos, o River conquistou a Libertadores de 1996. Uma ascensão que se combinou também com a imposição no Campeonato Argentino.

Ao final de 1996, o River Plate sobrou para levar o Apertura. O time perdeu jogadores importantes, como Matías Almeyda e Hernán Crespo, negociados com o futebol europeu. No entanto, também soube se reforçar e lapidar as suas promessas. Terminou a campanha com nove pontos de vantagem sobre o Independiente, vice-campeão. E a supremacia se repetiria no semestre seguinte, com a conquista do Clausura 97. Novamente alguns protagonistas se despediram de Núñez, em especial Ariel Ortega, vendido ao Valencia. Mas a verdadeira força do time de Ramón Díaz não estava necessariamente nas individualidades, por mais que elas brilhassem, e sim no conjunto. Desta vez foram 11 pontos acima do segundo colocado, o Colón.

O novo título da Libertadores não veio em 1997, com o time caindo ainda nas oitavas de final, superado pelo Racing nos pênaltis. Apesar disso, o River Plate seguia brigando por tudo o que disputava. Especialmente porque apresentava o suprassumo do futebol: um jogo extremamente ofensivo e vertical, com meio-campistas cheios de categoria e atacantes excelentes na definição. Assim, terminaram o ano levantando mais duas taças. Foram tricampeões do Argentino, além de faturarem também a Supercopa da Libertadores – na última edição desta competição continental, extinta logo depois para a criação da Copa Mercosul.

Ao contrário do que aconteceu nos dois campeonatos anteriores, o Apertura de 1997 não foi tão fácil ao River Plate. Os Millonarios precisaram disputar a liderança ponto a ponto, justamente com o rival Boca Juniors. O que torna aquela conquista ainda mais saborosa aos torcedores. Os xeneizes, aliás, contavam com uma equipe bastante forte, treinada por Bambino Veira – o treinador responsável por levar o River ao título da Libertadores em 1986. Voltando de períodos de afastamento, Diego Maradona e Cláudio Caniggia eram os principais medalhões na Bombonera. Todavia, os boquenses também investiam em contratações, trazendo naquele ano nomes como Óscar Córdoba, Walter Samuel, Martín Palermo e os irmãos Barros Schelotto. Além disso, das categorias de base começava a despontar um tal de Juan Román Riquelme.

Pegando embalo desde o início da campanha, o River Plate de Ramón Díaz assumiu a liderança na sexta rodada. Acabaria perdendo a ponta semanas depois, na décima jornada. E aquela derrota, uma das duas únicas da equipe na campanha, seria bastante marcante – não pelo desfecho do campeonato, mas sim por aquilo que acabaria representando. Dentro do Monumental de Núñez, o Boca Juniors derrotou os maiores rivais por 2 a 1. Sob um dilúvio em Buenos Aires, diante de 60 mil torcedores, Sergio Berti abriu o placar aos 40 minutos e os Millonarios pareciam prontos a encerrar um incômodo jejum de sete anos sem vencer os boquenses em sua própria casa. Ledo engano. No intervalo, Maradona pediu para ser substituído. O Boca voltou com Caniggia e também Riquelme, no lugar de Vivas. Toresani empatou e, em seu primeiro tento desde que chegara a La Boca, Palermo decretou a virada. Os xeneizes tomavam a ponta da tabela graças ao triunfo.

O que ninguém sabia é que aquele clássico seria justamente o último jogo da carreira de Maradona. O camisa 10 convivia com as lesões, os tumultos com a imprensa e os casos de doping – testando positivo logo nas primeiras rodadas daquela campanha, contra o Argentinos Juniors, embora isso não tenha culminado em sua suspensão. Cinco dias depois da vitória, quando comemorava o seu aniversário de 37 anos, o craque anunciou a sua aposentadoria. Logo na rodada seguinte, o Boca Juniors sofreu sua primeira (e única) derrota no Apertura, batido pelo Lanús. Goleando o Platense, o River Plate retomou a primeira colocação. Assim, as últimas oito rodadas guardariam uma perseguição jogo a jogo. Caberia a La Banda emendar vitória após vitória, fazendo os concorrentes comerem poeira, mesmo também voando.

Na penúltima rodada, a vitória sobre o Colón deixou o River Plate a um empate da conquista. Mas, antes disso, os Millonarios voltariam sua mente a outra frente. Em 17 de dezembro de 1997, fariam o jogo de volta da decisão da Supercopa. Após eliminarem Vasco, Santos e Racing na fase de grupos, além do Atlético Nacional nas semifinais, os argentinos encaravam o São Paulo treinado por Darío Pereyra. Na partida de ida, no Morumbi, prevaleceu o empate por 0 a 0. Já no reencontro dentro do Monumental, o nome da noite foi um só: Marcelo Salas. Trazido no ano anterior, o centroavante chileno marcou os dois tentos na vitória por 2 a 1, enquanto Dodô descontou aos tricolores. Foi o primeiro título do clube na competição, depois da dolorosa derrota para o Cruzeiro na final de 1991.

Entretanto, 96 horas depois, o River Plate já precisava concentrar seus esforços em outro desafio. O Argentinos Juniors era o adversário na rodada final do Apertura, em partida disputada no Estádio José Amalfitani. O Boca Juniors até cumpriu sua parte ao golear o Unión por 4 a 0 na Bombonera, mas não adiantou em nada secar os seus rivais. O gol do título saiu pouco antes do intervalo, novamente com Marcelo Salas. Durante o segundo tempo, Roberto Saavedra até empatou aos Bichos Colorados. Ainda assim, o empate por 1 a 1 já era suficiente aos Millonarios. Ao apito final, a equipe pôde dar a sua segunda volta olímpica em quatro dias, feito inédito no futebol argentino. Por um ponto, 45 contra 44, o River superava o Boca no topo da tabela e colocava o país sob seus pés pela terceira vez consecutiva.

Francescoli também deu no José Amalfitani a sua derradeira volta olímpica. Aos 36 anos, o Príncipe permanecia como a grande referência do River Plate, mas já não era exatamente intocável no time titular. Além disso, por mais que isso não influenciasse o seu profissionalismo, o veterano não tinha a melhor relação com Ramón Díaz. Optou por encerrar a carreira no alto, desfrutando de grandes façanhas e figurando entre os maiores da história do futebol argentino. Afinal, o uruguaio se colocou na prateleira mais alta dos ídolos em Núñez, e seu papel naquela era de ouro dos Millonarios é indissociável.

Seguindo os passos de Francescoli, de qualquer maneira, o time tricampeão argentino contava com outros tantos grandes nomes. Marcelo Salas terminou como o artilheiro da equipe, autor de 10 gols em 16 jogos. Também se alçava entre os mais adorados no Monumental. Na armação, estava Marcelo Gallardo, que se firmara entre os titulares durante aquele ciclo vitorioso. Além dele, outros destaques no meio eram Santiago Solari, Leonardo Astrada e Sergio Berti. Já o sistema defensivo era encabeçado por Germán Burgos, Eduardo Berizzo, Hernán Díaz e Celso Ayala. A rotação maior acontecia pelo lado esquerdo, onde La Banda tinha à disposição os talentos de Diego Placente e Juan Pablo Sorín.

Aquele foi o terceiro tricampeonato nacional do River Plate e o quarto da história do Campeonato Argentino – o Racing, no início dos anos 1950, foi o primeiro a registrar a façanha. O primeiro tri dos Millonarios ocorreu em 1957, em elenco que contava com lendas do porte de Carrizo, Labruna, Néstor Rossi e Sívori. Repetiu-se depois em 1980, com o próprio Labruna no comando técnico, enquanto em campo brilhavam Fillol, Passarella, Luque e Ramón Díaz. Caberia ao último ser o novo elo em 1997. E ainda hoje o Campeonato Argentino aguarda algum time capaz de emendar tal sequência – algo que nem mesmo os torneios curtos, em sua alta rotatividade, permitiram.

Ramón Díaz permaneceu à frente do River Plate, mas esteve longe de alcançar o Vélez Sarsfield de Marcelo Bielsa, campeão do Clausura 1998. Depois, seriam dois títulos do Boca Juniors de Carlos Bianchi, até que os Millonarios voltassem a levantar o caneco, bicampeões no Apertura 1999 e no Clausura 2000. Já contavam com uma geração bastante modificada, de prodígios como Javier Saviola, Pablo Aimar e Juan Pablo Ángel. Em fevereiro de 2000, contudo, Ramón Díaz havia deixado Núñez, com Américo Gallego assumindo o comando para o segundo título. Naquele momento, os resquícios do histórico tricampeonato ficavam cada vez mais restritos à memória. Uma lembrança que sempre volta à tona no Monumental, merecidamente festejada.