Neste 17 de fevereiro, Carlos Alberto Gamarra Pavón completa uma idade genérica, não redonda: 47 anos. Na verdade, não é nem o aniversariante mais célebre do dia no futebol – Adriano completa 36 anos neste 17 de fevereiro. Todavia, o ex-zagueiro paraguaio merece celebrações especiais, por outra data redonda: há 20 anos, na opinião da maioria dos que o viram jogar, Gamarra viveu o melhor momento de sua carreira.

Não que Gamarra fosse um zagueiro mediano antes. Longe disso: já se destacava pela técnica, pelo senso de antecipação e pela liderança desde a passagem pelo Cerro Porteño semifinalista da Copa Libertadores de 1993. Até por ela, fora recomendado por Paulo César Carpegiani ao Internacional. E no clube da Beira-Rio, fez sucesso pela primeira vez no Brasil, sendo um dos únicos bálsamos colorados a contrabalançar um período de glórias do Grêmio – período encerrado pelo título gaúcho de 1997, no qual Gamarra foi um dos jogadores mais festejados, por sinal.

Após seis meses no Benfica, durante o segundo semestre de 1997, a ótima impressão deixada no Brasil justificou a busca do Corinthians por ele. Gamarra nem foi tão valorizado em sua chegada, em meio ao frenesi pelo retorno de Marcelinho Carioca ao Parque São Jorge. Sem problemas: já no Campeonato Paulista, o zagueiro nativo de Ypacaraí se tornou destaque absoluto. Como já o era na fabulosa defesa que tornara o Paraguai uma seleção considerada firme.

Firme o suficiente para fazer campanha honrosa na Copa de 1998, classificando-se para as oitavas de final – e nelas, dando trabalho à seleção francesa, antes que Laurent Blanc frustrasse a Albirroja com o primeiro dos quatro “gols de ouro” que ocorreram nas prorrogações disputadas na história das Copas do Mundo. E se houve um símbolo do quão elogiável fora a campanha guaraní, foi Gamarra: 383 minutos sem cometer faltas nas quatro partidas paraguaias pelo Mundial (número que lhe rendeu o prêmio Fair Play da FIFA), firmeza nos desarmes, a dedicação ao jogar a maioria da partida contra a França com a clavícula deslocada…

Nem era necessário mais nada para que 1998 se tornasse o melhor ano da carreira do zagueiro. Só que seu começo de Campeonato Brasileiro no Corinthians foi tão fulgurante quanto a Copa já fora. Campanha alvinegra inaugurada, Gamarra só foi cometer uma falta no segundo tempo da terceira partida da equipe (vitória por 2 a 1 sobre o Grêmio, na terceira rodada da fase de classificação), após 724 minutos se baseando apenas na capacidade de antecipar os movimentos do adversário.

Não bastasse a postura soberana atrás, já o entronizando como um dos melhores zagueiros da história do clube – para a geração de torcedores que viu aquela equipe, certamente o melhor -, Gamarra ainda fez três gols que ajudaram o Corinthians a rumar para o título. O primeiro, justamente contra o Internacional em que começara a fazer fama no Brasil (1 a 1, na 7ª rodada do Brasileiro, em 22 de agosto). O segundo, contra o Guarani, uma semana depois, na vitória alvinegra por 3 a 2. Finalmente, já nos play-offs, conseguiu abrir o placar no primeiro dos três jogos da semifinal, contra o Santos, antes da virada santista para 2 a 1.

Para coroar aquele 1998, Gamarra ainda ergueu o troféu do Campeonato Brasileiro, consolidando novamente sua liderança, mesmo numa equipe lotada de jogadores estelares. Ele ainda passaria mais seis meses no Parque São Jorge antes de rumar para o Atlético de Madrid. Depois, voltaria ao Brasil, para outras passagens honrosas por Flamengo e Palmeiras. Já no Paraguai, se entronizaria também como um dos grandes da história futebolística do país, com mais duas Copas do Mundo. E se manteve um bom nível técnico até encerrar a carreira em 2007, o aniversariante paraguaio teve um nível ainda maior há 20 anos.