Nesta segunda-feira, 14 de maio de 2018, saberemos quem são os 23 jogadores convocados pelo técnico Tite para defender a seleção brasileira na Copa do Mundo da Rússia. O treinador foi convidado pelo Players’ Tribune para falar sobre a sua vida, sua carreira e sobre este momento tão especial na vida de um treinador. Mais que treinador: ele dirige a seleção brasileira que vai a uma Copa do Mundo. Entre o privilégio e a responsabilidade, Tite contou sobre a sua relação com Copa do Mundo, a primeira, lá em 1970, até chegar ao momento de colocar em uma lista 23 nomes que irão sob o seu comando para a Rússia, tentar conseguir o hexacampeonato para o Brasil.

Selecionamos um trecho, mas vale a pena ler o texto completo no site do Players’ Tribune. O texto chama-se “Para o Brasil”.

A primeira lembrança: Copa de 1970

Eu me lembro que durante a Copa do Mundo de 1970, o país inteiro se concentrava para focar nos jogos. Eu tinha 9 anos de idade, e a gente sentava na frente do rádio pra ouvir a magia do futebol. Era como se os jogos fossem uma história dramática sendo contada pra gente.

É uma espécie de arte, na minha opinião. É como um quadro ou um grande romance. O Brasil estava no ataque, e o narrador pintava uma imagem em nossas mentes. Eu não quero dizer com isso que o futebol transmitido pela TV seja ruim. Mas é uma experiência muito diferente. Tem menos mistério, talvez. Menos imaginação. Com o rádio, a gente se segura em cada palavra.

Eu me lembro de ouvir a semifinal contra o Uruguai muito vividamente. É parte da minha memória emocional, porque o Brasil estava perdendo o jogo na maior parte do primeiro tempo. Então eu sentei na frente do rádio, criando o gol da vitória na minha mente mais de uma vez. É claro, antes do final do primeiro tempo, a gente ouviu a emoção na voz do narrador aumentar, e a gente sabia que alguma coisa estava acontecendo: “Tostão … Clodoaldo …. Clodoaldoooooooooooooooo!!!!!!

A frustração por não ser o técnico da seleção depois da Copa 2014

Depois da derrota por 7-1, eu realmente acreditei que teria grandes chances de ser o próximo técnico da Seleção Brasileira. Eu achava que poderia ser a minha vez. Quando não fui selecionado para a função, vou ser sincero…. fiquei frustrado, irritado, muito triste. No entanto, naquele momento, eu pensei na minha mãe. Ela era uma lutadora. Sempre que nossa família lutava, ela trabalhava ainda mais. Ela costurava até que suas mãos ficassem frágeis, de modo que sempre que eu quisesse um refrigerante, o refrigerante aparecia num passe de mágica. O exemplo dela foi minha inspiração.

A convocação para 2018

Agora que nós estamos a um mês do torneio, eu vou precisar tomar algumas decisões difíceis. Eu sei que não vou conseguir convocar todos os jogadores que estão fazendo por merecer. Por exemplo, nós temos três laterais esquerdos que mereceriam estar no avião para a Rússia, mas nós temos apenas duas vagas. Nós temos de escolher os jogadores que vão nos proporcionar as melhores chances de vencer, independentemente de quem é mais merecedor. Para ficar ainda mais claro o que quero dizer, em 2012, Jorge Henrique não merecia jogar a final do Mundial de Clubes da Fifa pelo Corinthians contra o Chelsea. Douglas e Romarinho estavam jogando mais naquele momento. Mas o time precisava de um jogador com as características do Jorge Henrique para vencer aquele jogo em particular, então eu tive de tomar essa decisão difícil.

E é claro, quando você toma essas decisões que afetam os sonhos da Copa do Mundo das pessoas, é um peso enorme, mas eu espero que possa haver paz e compreensão com quem eu escolher hoje.

Eu sei o que meu pai diria se ele estivesse aqui. Ele diria, “Você tem que colocar os meninos pra jogar”

Por alguma razão, ele sempre reclamava que os jogadores mais velhos eram muito lentos. Se você tivesse 27 anos, meu pai não ia botar fé em você.

Ele diria, “esses caras mais velhos são como tartarugas! Os jogadores mais jovens são mais ágeis, elétricos! Joga com a molecada!”

Certamente, se ele estivesse aqui pra ver o Dani Alves jogar, treinar e até mesmo dançar no vestiário aos 35 anos de idade, ele mudaria de ideia.

Depois que meu pai faleceu, minha mãe me contou algo que ele disse quando eu comecei a treinar. Ele nunca me disse essas palavras, porque não era o jeito dele de conversar com os filhos. Mas um dia ele disse pra minha mãe, “Esse menino vai ser um dos grandes”.

Isso representou para mim mais do que qualquer outro troféu que eu tenha conquistado.

Eu queria que ele estivesse aqui para ver o filho dele na Copa do Mundo.

Só Deus sabe o que vai acontecer na Copa do Mundo da Rússia, mas eu espero que o país inteiro esteja unido para nos apoiar. Eu sei que a televisão mudou muita coisa pra esta geração, mas eu gostaria de acreditar que quando nós marcarmos um gol, haverá milhões de crianças brasileiras que estarão em frente ao rádio, imaginando o gol da vitória em suas mentes seguidas vezes.

Funcionou para mim em 1970. Era como mágica.

Foto: Sam Robles/The Players’ Tribune

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