Em uma final que colocava frente a frente duas enormes histórias de superação, o título da Série C estaria em boas mãos independentemente de quem o conquistasse. E a façanha do CSA tem os seus contornos especiais, por tudo o que envolveu o clube ao longo dos últimos anos. A travessia do deserto terminara com o acesso sobre o Tombense, alcançando a Série B pela primeira vez desde 2000. Os azulinos deixaram para trás os anos sem divisão no Brasileiro, as passagens pela segundona alagoana, o jejum de títulos no estadual. Já a taça deste final de semana, por sua vez, eleva o clube a um novo patamar. De novo, o CSA assume o pioneirismo para levar o nome de Alagoas além das fronteiras. Depois de seis vice-campeonatos, enfim, um representante do estado fatura uma competição nacional. Um feito que carrega enormes méritos, exaltados pela multidão presente no Trapichão.

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Depois de eliminar o São Bento nas semifinais, o CSA tinha consciência do tamanho do desafio que enfrentaria na decisão, com o Fortaleza sedento por expurgar definitivamente os seus fantasmas na Série C. Contudo, logo no primeiro jogo, os azulinos começaram a escrever o capítulo grandioso. Diante de mais de 43 mil torcedores no Castelão, os visitantes venceram por 2 a 1, com gols de Michel Douglas e Pablo (contra). Nem mesmo o tento tricolor nos minutos finais abalou a certeza que tomou os alagoanos. Afinal, mais do que uma belíssima vantagem, a vitória oferecia também o convite para que o Trapichão se abarrotasse de gente neste sábado, com o reencontro para definir o campeão. E assim se fez.

As arquibancadas em Maceió eram um espetáculo à parte. Elas representavam a libertação de uma torcida que passou anos no cativeiro, refém da falta de competência do time e das chacotas dos rivais. Esperançosa por reviver os sonhos gloriosos que outras gerações experimentaram no passado, mas que atualmente sequer conseguem se aproximar no Alagoano, com a seca que se arrasta desde 2008. E por escrever também algo inédito, com o título que CRB e ASA desejaram recentemente, mas não conseguiram conquistar. No calor e na vibração da massa azul é que o CSA foi buscar o primeiro troféu nacional de Alagoas.

Antes que a bola rolasse, os torcedores demonstraram a sua força com uma festa massiva no Trapichão. Fizeram um mosaico que tomou as arquibancadas, exibindo os rostos dos heróis do acesso. Mais do que isso, espalharam o azul e branco pelos quatro cantos, com fogos de artifício, fumaça e papéis picados, enquanto cantavam a plenos pulmões. Confiança que ajudou o CSA a manter o controle dentro de campo. Em um jogo intenso, os goleiros foram fundamentais para que o placar se mantivesse zerado. E os alagoanos tiveram segurança para conter o Fortaleza, segurando o empate por 0 a 0 no placar, já suficiente para a celebração. A comemoração que os azulinos tanto ansiavam.

Ao longo de seus 104 anos de história, o CSA acumulava cinco vice-campeonatos além das fronteiras de Alagoas. Na década de 1980, os azulinos ficaram no quase por três vezes na Taça de Prata, equivalente à Série B. Em 1999, o lamento veio no marcante embate contra o Talleres na Copa Conmebol, em que a felicidade terminou do lado argentino. Por fim, no ano passado, os alagoanos não conseguiram superar o Volta Redonda na finalíssima da Série D. Persistência recompensada neste sábado, em uma festa que não teve hora para acabar e complementou o que já havia se vivido em Maceió no final de setembro, com a confirmação do acesso à Série B.

O planejamento do CSA será longo. O clube experimenta uma ascensão meteórica, subindo duas divisões em dois anos, o que insere os azulinos em uma realidade totalmente distinta daquela que estavam acostumados. E em uma temporada que não foi exatamente um exemplo de planejamento, com trocas de treinadores e problemas internos, será preciso mais do que o espírito de luta demonstrado nesta Série C, sobretudo nos mata-matas. Ao menos há uma base interessante, tanto pelos jogadores quanto pelo técnico Flávio Araújo, que assumiu como bombeiro, mas tem capacidade para dar continuidade a algo mais sólido. Quem sabe, para impulsionar o time também no Campeonato Alagoano, no qual o único título conquistado neste século aparece como um marco incômodo. A Série C, de qualquer forma, preenche lacunas e enche o peito dos azulinos de esperanças, para um recomeço que por anos pareceu apenas um sonho distante. O êxtase coletivo no Trapichão tem toda a razão para ser como foi, apaixonado.