Se fosse para apostar em qual seria a próxima seleção a estrear em uma Copa do Mundo, o Panamá parecia um candidato seguro o suficiente. Desde as Eliminatórias para a Copa de 2006, os panamenhos se estabeleceram no hexagonal da Concacaf, além de acumularem boas campanhas na Copa Ouro. Possuem um elenco extremamente experiente, embora não contem com astros nas principais ligas europeias. E souberam aproveitar o momento para triunfar nesta terça-feira. Há o que se contestar na trajetória, especialmente pelo inaceitável gol fantasma de Gabriel Torres, que permitiu o empate contra a Costa Rica no Estádio Rommel Fernández. Mas ao final, entre o que termina como a “história validada pela arbitragem”, fica a narração carregada de sentimentos pelo tento de Román Torres, aos 43 do segundo tempo, que selou a vitória por 2 a 1 e a classificação inédita ao Mundial.

Disputando as Eliminatórias desde 1978, o Panamá não passava de um figurante na região, bem abaixo de seus principais vizinhos da América Central. Tanto que a primeira aparição na fase final do qualificatório da Concacaf aconteceu apenas rumo à Copa de 2006, e para ser o saco de pancadas do hexagonal. Uma época em que também os panamenhos começaram a se tornar frequentes na Copa Ouro, voltando a disputá-la após 12 anos em 2005 e chegando ao vice-campeonato, derrotados pelos Estados Unidos nos pênaltis durante a final. Um sinal do que seria construído ao longo da década seguinte. Se Jorge Dely Valdés ainda era o medalhão daquele time, também já estava presente parte da geração que viajará à Rússia.

Os resultados na Copa Ouro seguiram notáveis. O Panamá não se ausentou do torneio desde então e chegaria a ser vice-campeão mais uma vez, em outro revés para os americanos, em 2013. Já nas Eliminatórias, depois de caírem precocemente no torneio de 2010, eliminados ainda nas preliminares por El Salvador, a Copa de 2014 já pintou no horizonte. Os panamenhos sobreviveram em um grupo parelho na terceira fase e ficaram a uma vitória (e dois gols de saldo) de alcançar a repescagem. O excesso de empates, cinco em dez rodadas, atrapalhou bastante. Mas o algoz, mais uma vez, foram os Estados Unidos. Na última rodada, até os 47 do segundo tempo, a equipe vencia o US Team por 2 a 1 e poderia tirar o México da Copa se marcasse mais um gol. Pois os americanos ainda arrancaram a virada por 3 a 2, em resultado doloroso para os Canaleros.

O Panamá sabia que a Copa de 2018 seria a última oportunidade para tantos ídolos da seleção. Jaime Penedo, Román Torres, Felipe Baloy, Gabriel Gómez, Blas Pérez e Luis Tejada já chegaram todos à casa dos 30 anos, a maioria à beira da aposentadoria. Era mesmo agora ou nunca. A confirmação no hexagonal final veio com certa tranquilidade. Mas não seria tão simples se impor, considerando os adversários pela frente: cinco seleções com experiência em Copas do Mundo. Os panamenhos precisavam mudar a história nos frequentes confrontos diretos.

Não foi uma campanha brilhante do Panamá, longe disso. Logo na primeira rodada, os Canaleros conquistaram um resultado fundamental contra Honduras, batendo os anfitriões no caldeirão de San Pedro Sula por 1 a 0. Depois, ainda conseguiram arrancar um empate sobre o México. Mas não empolgaram tanto na sequência. O excesso de empates mais uma vez era um entrave. O ponto é que a competição extremamente parelha permitia sonhar. E a segunda vitória, que só veio na antepenúltima rodada, batendo Trinidad e Tobago, voltava a tornar a Copa do Mundo uma ambição real. Tinham uma ótima oportunidade, enfrentando o cambaleante Estados Unidos em Orlando. Uma noite que acabaria em enorme frustração.

Que os Estados Unidos não viessem em bom momento, o Panamá fez um jogo totalmente desencontrado. Nervoso demais, permissivo demais. E não demorou para Christian Pulisic resolver. Pior, para abrir a goleada por 4 a 0, que ainda complicava a situação no saldo. Se existia um motivo para comemorar, era pelo fato de que Honduras não venceu a Costa Rica, com os Ticos garantindo sua classificação à Copa nos acréscimos. O narrador panamenho já se empolgara com aquele tento, porque sabia que a repescagem seguia como uma possibilidade concreta, ao menos. Na rodada final, os Canaleros só precisariam fazer o mesmo número de pontos que os hondurenhos, sem deixá-los tirar a diferença no saldo, para permanecer na quarta colocação. Os EUA, pegando o lanterna da competição e dependendo apenas de um empate, já parecia na Copa.

E eis que veio o jogo que ficará gravado na memória coletiva do Panamá. A Costa Rica entrou em campo sem alguns de seus principais jogadores. Ainda assim, era um adversário de respeito. E que terminou o primeiro tempo em vantagem, graças a Johan Venegas. Na rodada cardíaca que se seguia na Concacaf, neste momento, só uma derrota de Honduras contra o México interessava. O empate saiu aos oito da segunda etapa, com Gabriel Torres, de maneira extremamente controversa. Após cruzamento na área, Blas Pérez tentou desviar. Torres tropeçou e caiu de frente para a bola, quase em cima da linha. A trave era um empecilho. E quando tentou se ajeitar para arrematar, a zaga afastou o perigo. Claramente o gol não aconteceu. Menos para o assistente, que validou o empate, depois de muita discussão à beira do campo.

Não demorou muito para que aquele gol também se tornasse insuficiente, depois que Honduras virou contra o México. Só a vitória interessava. E o Panamá precisaria insistir até os 43 do segundo tempo, com um lance ao acaso. Que, no fim das contas, alça como heróis alguns decanos. O chutão da defesa foi desviado por Luis Tejada, 35 anos de idade e 16 de seleção, em uma carreira de completo andarilho. Sobrou para o zagueiro Román Torres, 103 jogos pela equipe nacional. Já transformado em atacante, o camisa 5 agiu como tal: ganhou da zaga na corrida e soltou o pé para vencer o goleiro Patrick Pemberton. O gol que incendiou o Estádio Rommel Fernández. Que produziu uma narração à flor da pele. Os panamenhos não só ultrapassavam Honduras na tabela, como também os EUA e já se confirmavam na Copa, como pouquíssimos poderiam esperar. Ao final, a comemoração foi completamente insana. A nação de quatro milhões de habitantes rompeu fronteiras.

A noite foi longa no Panamá. E talvez ainda não tenha terminado, com as comemorações que vararam a madrugada. Uma celebração merecida por toda a importância que o Mundial terá ao país. Pelo ineditismo do feito, que coloca os Canaleros entre as melhores seleções do planeta. Até pela média de idade elevada, será difícil esperar que os panamenhos consigam uma campanha longa na Rússia. Ainda assim, fica a oportunidade de exaltar os ídolos locais. Blas Pérez, o ‘Torito’ que empilha gols pela seleção desde 2001. Felipe Baloy, o capitão que serve de referência à zaga. Gabriel Gómez, próximo dos 140 jogos pela equipe nacional. Hernán Darío Gómez, o técnico que assumiu o projeto em 2014 e, depois de já ter levado o Equador à sua primeira Copa, repete a façanha em outro país. O goleiro Jaime Penedo, o matador Luis Tejada, o herói Román Torres. E, dentre estes, um também fica na memória.

Amílcar Henríquez era outro dos membros da velha guarda panamenha. Estreou na seleção em 2004 e fazia parte do time até o início do hexagonal final, disputando as três primeiras rodadas da competição. O volante de 33 anos faleceu no último mês de abril, assassinado na porta de sua casa, baleado. Nesta terça, os panamenhos também homenagearam o camisa 21. Em meio às memórias, prevalece a alegria e o orgulho. O governo do Panamá decretou feriado para que La Marea Roja termine de tomar as ruas do país e comemore desenfreadamente. Serão dias históricos ao país, que deverão durar até junho de 2018.