A situação da Itália naquele 29 de outubro de 1997 era bastante parecida com a atual. Os azzurri terminaram na segunda colocação de seu grupo nas Eliminatórias da Copa do Mundo, atrás da Inglaterra, e precisaram disputar a repescagem para confirmar seu lugar no Mundial de 1998. A Rússia era a desafiante. E o jogo de ida representava bem o tamanho do obstáculo enfrentado pela equipe de Cesare Maldini: sob um frio congelante e sobre um gramado estragado pela neve, os italianos encaravam os anfitriões no Estádio Dynamo, em Moscou. Uma partida que também marcou a estreia de uma das maiores lendas da história da Nazionale.

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Logo aos 32 minutos do primeiro tempo, Gianluca Pagliuca se machucou. Seu substituto era um adolescente imberbe de 19 anos, transformado em fenômeno por suas atuações na meta do Parma. Ali, naquele lamaçal gelado, Gianluigi Buffon disputava a sua primeira partida pela seleção italiana principal. E não foi coadjuvante. Cinco minutos depois, precisou operar um milagre para evitar o primeiro tento dos russos. Não impediu o gol contra de Fabio Cannavaro, no início do segundo tempo, mas viu Christian Vieri empatar logo depois, assegurando o placar em 1 a 1. Já no reencontro, disputado 17 dias depois, Gigi permaneceu no banco do Estádio San Paolo, com Angelo Peruzzi assumindo a titularidade. Comemorou a vitória por 1 a 0, gol de Pierluigi Casiraghi, que selou a classificação à Copa de 1998 – a primeira do goleiro.

Já o segundo jogo de Buffon pela Itália aconteceu em abril de 1998, em amistoso contra o Paraguai, durante a preparação ao Mundial. Uma partida emblemática para a sua carreira. Certamente o que o garoto aprontou naquela noite valeu sua convocação definitiva rumo à França. Gigi estava em casa, atuando diante de sua torcida, em Parma. Começou na reserva de Peruzzi, entrando no segundo tempo. E fez uma defesa antológica, daquelas para deixar bem claro que um gênio começava a se erigir sob as traves dos azzurri. Após cobrança de escanteio, voou para espalmar uma bola que já parecia a caminho das redes. O camisa 12 fez o impossível se tornar real diante dos olhos.

“Eu fiz aquela que não é apenas uma das melhores defesas da minha carreira, mas, na minha opinião, também uma das melhores de todos os tempos. Era uma situação em que o gol parecia escrito na pedra, inevitável. Então, algo acontece e você pergunta a si mesmo: como essa bola não entrou?”, analisou Buffon.

Desde então, Buffon colecionou defesaças pela seleção. Fez tantas partidas marcantes, sobretudo em 2006, quando foi um dos pilares no tetracampeonato mundial. Aquela cabeçada de Zinedine Zidane que o goleiro desviou com a ponta dos dedos está eternizada na retina de todos os italianos. Depois, voltou a envergar a maglia azzurra dezenas vezes. Acumulou cinco Copas do Mundo e quatro Eurocopas. Somou 173 partidas, um recorde absoluto entre os jogadores europeus. E se prepara a mais. A repescagem estará novamente em seu caminho, buscando o sexto Mundial. O último, em nova marca inédita.

Neste domingo, apesar das incertezas, Buffon celebrou. Relembrou sua trajetória respeitável na seleção italiana, que completou duas décadas desde aquela fria (literal e metaforicamente) em Moscou. “Os 20 anos de seleção são o presente mais bonito da minha vida. Eu mereci isso, seguramente. Eu desejei esta marca e não foi fácil atingi-la. O sonho e a ideia de poder representar minha nação, sentir por 20 anos o hino antes de começar os jogos, me emocionar por aquilo e com aquilo, ter a sorte de vencer a Copa e dar aos nossos cidadãos uma alegria verdadeiramente grande são coisas que valem uma vida. Nunca quis abraçar causas que não creio que são importantes. Sempre tomei decisões tentando dar importância aos sentimentos”, apontou.

Diante da data marcante, relembramos 20 grandes defesas monumentais de Buffon pela seleção. Selecionamos uma de cada partida (embora alguns vídeos possuam mais de uma defesaça), dando prioridade às grandes competições. Além disso, por disponibilidade dos vídeos, há mais milagres recentes entre os listados. Confira:

Outubro de 1997 – Rússia 1×1 Itália

Abril de 1998 – Itália 3×1 Paraguai

Fevereiro de 2001 – Itália 1×2 Argentina

Junho de 2002 – Coreia do Sul 1×1 Itália

Junho de 2004 – Itália 0x0 Dinamarca

Setembro de 2004 – Moldávia 0x1 Itália

Junho de 2006 – Itália 2×0 República Tcheca

Junho de 2006 – Itália 3×0 Ucrânia

Julho de 2006 – Itália 2×0 Alemanha

Julho de 2006 – França 1×1 Itália

Junho de 2008 – França 0x2 Itália

Abril de 2009 – Itália 1×1 Irlanda

Setembro de 2009 – Geórgia 0x2 Itália

Setembro de 2009 – Itália 2×0 Bulgária

Junho de 2012 – Itália 0x0 Inglaterra

Junho de 2013 – Uruguai 2×2 Itália

Setembro de 2013 – Itália 1×0 Bulgária

Junho de 2014 – Uruguai 1×0 Itália

Junho de 2016 – Itália 2×0 Espanha

Julho de 2016 – Itália 1×1 Alemanha

BÔNUS

Junho de 2008 – Itália 1×1 Espanha