Por Caio Brandão, advogado e colaborador do Futebol Portenho

Apesar da pouca mídia nacional, Belém (que completa 400 anos de sua fundação nesta terça) e o Pará têm larga importância para o esporte nacional. Seja por meio do primeiro medalhista olímpico de ouro do Brasil, caso de Guilherme Paraense no tiro nos Jogos de 1920 – com pistolas emprestadas; seja nas artes marciais, como cidade onde radicou-se a família Machida e, muito antes, o pai do judô e jiu-jitsu brasileiros, Conde Koma, mentor dos patriarcas da família Gracie (Carlos e Hélio nasceram na capital paraense); mais recentemente, como base da seleção feminina de basquete paralímpico, através do projeto All-Star Rodas, com cinco representantes no Parapan de 2015; e também com o maior destaque brasileiro nos Jogos Paralímpicos de 2012, Alan Fonteles, vencedor dos 200m T44 contra Oscar Pistorius. No futebol, não é diferente. Inclusive a nível internacional. Literalmente: um dos fundadores da Internazionale foi Aquiles Gama Malcher.

Aquiles, da mesma família de um dos líderes da Cabanagem (Félix Antônio Clemente Malcher), fez inclusive o primeiro gol da história nerazzurra em jogos competitivos, por tabela também o primeiro gol interista no clássico com o Milan, há praticamente 107 anos, em 10 de janeiro de 1909. Paralelamente, o Pará acabara de concluir seu segundo campeonato de futebol, tendo sido o quarto estado brasileiro a formular o seu – ingleses já praticavam seus rachões em Belém no século XIX.

A seleção brasileira não foi indiferente aos talentos nativos do Pará e de sua capital, permitindo inclusive um time inteiro de convocados, do goleiro ao ponta-esquerda – ainda que com improvisos e que só três tenham sido chamados diretamente do futebol paraense, um para cada grande: o bicolor Suíço em 1921 (não pôde viajar para defendê-la), o tunante Manoel Maria pela olímpica em 1968 e o remista Rosemiro, também pela olímpica, em 1976. Até mesmo no primeiro jogo oficial da equipe nacional, no lendário amistoso contra o Exeter City em 1914, havia um paraense em campo: o ponta-direita Abelardo, que defendeu o Botafogo de 1908 a 1919.

Créditos da imagem de Suíço: autor desconhecido. De Manoel Maria: Fernando Nobre. De Rosemiro: Euclides Bandeira.

Créditos da imagem de Suíço: autor desconhecido. De Manoel Maria: Fernando Nobre. De Rosemiro: Euclides Bandeira.

GOLEIRO

Paulo Vítor. Reserva na Copa de 1986, só atuou no futebol paraense no fim da carreira. Havia se radicado em Brasília e brilhou no Fluminense, faturando o tricampeonato estadual de 1983-85 e levantando também o Brasileirão de 1984. Em 1992, foi o goleiro da última campanha que colocou o Remo na primeira divisão, passando no ano seguinte sem o mesmo brilho pelo Paysandu.

DEFENSORES

Antes de Yago Pikachu, Belém revelou outros laterais-direito de expressão nacional. Pamplona não conseguiu títulos no Remo, mas juntou-se ao Botafogo em 1925. Naquele mesmo ano, integrou a seleção brasileira vice na Copa América em tumultuado natal contra a Argentina. Esteve na maior goleada do clássico com o Flamengo, um 9 a 2 em 1927 que respondeu imediatamente um 8 a 1 sofrido justo no dérbi anterior. E também na primeira Copa do Mundo, em 1930 (ano em que enfim venceu o Estadual), ainda que não tenha atuado. Ganhou o Cariocão também em 1933 e 1934.

O velocista Rosemiro foi tricampeão estadual pelo Remo de 1973 a 1975 (quando marcou o único gol do Re-Pa decisivo), integrou a seleção nas Olimpíada de 1976 e de lá desembarcou no Palmeiras para ser vice brasileiro e Bola de Prata em 1978.

Charles Guerreiro, hábil também como meia, ganhou no Paysandu o bi de 1984 e 1985, campanha na qual a defesa bicolor só levou três gols em 19 jogos. Cedido ao futebol paulista em 1987, se destacaria no carioca, sobretudo no Flamengo. Foram quatro anos na Gávea, incluindo o primeiro título brasileiro pós-Zico e um jogo pela seleção principal (famoso pelo quase-golaço em Wembley de um jogador não acostumado às redes), ambos em 1992. No fim da carreira, nos anos 2000, voltou ao Paysandu e defendeu também o Remo.

Suíço, codinome de Antônio Manoel de Moraes Filho, por sua vez integrava nos anos 10 e 20 o flanco esquerdo da linha média do Paysandu, posição hoje equivalente à de lateral-esquerdo. Com ele, o Papão venceu pela primeira vez o Re-Pa (os gols foram feitos por seu irmão Abel) e, pelas primeiras três vezes (seguidas), o Estadual. Convocado para a Copa América de 1921, conforme destaque dado até no Jornal do Brasil, não pôde se juntar à seleção pois o tesoureiro da CBD sumiu com o dinheiro a ser usado nas passagens do jogador, lembrado como “magnífico” pelo Sport Ilustrado em 1944. Falecera precocemente em 1922 por infecção intestinal.

MEIAS

ganso

Um trio de camisas 10 que dispensa apresentações. Infelizmente para os paraenses, também saíram cedo demais para mostrar brilho entre as mangueiras. Sócrates foi ainda adolescente ao interior paulista, assim como Paulo Henrique Ganso, que ao menos integrou a base de Tuna Luso e Paysandu embora seja remista. Já Giovanni jogou nos três grandes, ainda que apenas na Tuna tenha brilhado. Mesmo vaiado no Baenão e na Curuzu três anos antes de ser aplaudido no Camp Nou, está nas estatísticas paraenses como autor do gol remista no último Re-Pa na elite, o 1 a 1 em 1993. Pena ter sido sacrificado por Zagallo na Copa de 1998.

ATACANTES

Na ponta-direita, Manoel Maria, o primeiro sucesso da conexão Tuna-Santos bem antes de Giovanni e Ganso (e… Arinelson?). Dispensado pelo Remo, aceitou o convite tunante e destacou-se a ponto de ser incluso na seleção pré-olímpica em 1968. Saiu dos Jogos da Cidade do México como santista, mantendo o brilho. Chegou a ser pré-convocado à Copa de 1970, cotado como substituto do botafoguense Rogério, mas acabou de fora da lista final – em seu lugar, os goleiros Félix e Ado convenceram Zagallo a chamar Leão, em uma época na qual era incomum a convocação de três arqueiros. Já decadente, Mané passaria também pelo Paysandu.

Na outra ponta, Vevé. Campeão estadual com só 18 anos no Remo de 1936, foi descoberto no Sudeste após excursão pela seleção paraense e contratado pelo Flamengo. Deslumbrou a massa rubro-negra nos anos 40, a ponto de ser votado como o melhor flamenguista da posição em eleição promovida pela Placar em 1982. Pelo Brasil, esteve na Copa América de 1945.

quarentinha

Como centroavante, o maior goleador da história do Botafogo: Quarentinha, o artilheiro que não sorria ao marcar pois “apenas fazia seu trabalho”. Teve tempo para brilhar antes no Paysandu, que contou com ele de 1951 a 1953 e do qual seu pai, Quarenta, é o terceiro maior artilheiro. Quarentinha estreou com dois gols pelo Brasil em um 7 a 0 no Chile e poderia ter sido o substituto de Vavá, vendido ao Atlético de Madrid quando não se convocava quem atuasse no exterior. Mas lesionou-se em 1961, Vavá voltou e o paraense perdeu lugar na Copa de 1962. No Pará, curiosamente, o Quarentinha mais lembrado é outro bicolor, o maior ídolo do clube. Trata-se do meia que defendeu-o dos anos 50 aos 70 e é o maior campeão estadual do Brasil, com doze taças. Naturalmente, é quem mais jogou e venceu pelo clube e no Re-Pa.

RESERVAS

Por vezes registrado como belenense, Mimi Sodré nasceu em Messejana, cidade próxima a Fortaleza (segundo biografia escrita por sua filha). O camisa 10 era filho do ex-governador paraense que dá nome ao Museu do Estado (Lauro Sodré). Jogou a primeira Copa América, em 1916. Antes, na fase da pré-seleção brasileira, integrou o combinado carioca que representou o Brasil contra o Corinthian inglês, marcando o gol tupiniquim na derrota de 2 a 1. Jogava no Botafogo, destacando-se sobretudo no clássico com o Fluminense. Fez o seu na maior goleada alvinegra, o 6 a 1 em 1910, como os três de um 3 a 0 em 1913. Jogou pelo Paysandu de 1918 a 1920 antes de regressar ao Rio de Janeiro.

Além dos nomes já mencionados, outros seis jogadores paraenses passaram pela Seleção. São eles: Abelardo (Ponta-direita, 1914, Botafogo); Santana (Ponta-esquerda, 1930, Vasco); Ivan Mariz (Lateral-esquerdo, 1932, Fluminense); Octávio (Centroavante, 1949, Botafogo – também foi o arquiteto da concentração da Seleção em Teresópolis); Zé Maria (Lateral-esquerdo, 1959, Sport); pela seleção olímpica, Alexandre Fávaro (Goleiro, 1999, Ponte Preta)

* Agradecimentos ao historiador Ferreira da Costa pelas obras sem as quais este texto não seria possível.